Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
A casa acorda ilhada, o chão parece de lama, as luzes são todas queimadas. As mãos sustentam o rosto, tão escasso de expressão. Os olhos, sem brilhos, giram sem nada querer encontrar. A boca faz a orquestra do bocejo sem parar. Multiplicam-se as gotas de chuva espirradas na janela.
Domingo, domingo de chuva, e ninguém pode ir ao parque, os brinquedos não funcionam, os amigos não saem juntos para brincar. O campo de futebol do bairro vira uma grande poça, as pipas lamentam nos armários, a amarelinha perde os contornos de seu desenho feito com giz. Não há risos lá fora.
No verão, a chuva vem passageira, para refrescar as brincadeiras. No inverno, como agora, ela vem com o peso do frio, cinza como metal, chumbo a cair. As paredes da sala parecem rir do castigo da natureza. Não se pode, com esse tempo, nem ter sorvete de sobremesa.
Tanto tempo se passou, e ela ainda está ali. Chuva que se desmonta e constrói o tédio em mim. Já lá no fim do dia, ela afina, como quem ainda sorri – leva a vitória do meu dia perdido. Amanhã, bem cedo, me acorda a segunda-feira, com chuva ou com sol, estarei mais distante de mim.
Tags: Chuva, Tédio 2
Pela manhã, a noite me visitou. Era o céu nublado, em tons de azul, cinza e roxo. O branco era o clarão que rasgava inesperadamente em raios, e trovoadas que selavam o som com a luz. O cabo do meu guarda-chuva era certamente ínfimo na proporção das gotas que invadiam minhas meias, meu tênias, minha calça e bolsa. O rosto se comprimia para que os olhos pudessem atravessar o líquido ar.
Um labirinto de mares de formava entre as esquinas da cidade, o asfalto era o leito caudaloso que abarcava as naus de gente. As luzes se acenderam nesta noite matinal – as trevas comeram o sol e a escuridão brotava das lâmpadas.
A roda de borracha ameaçava nas proximidades. O contorno dos pés já não existiam – se desmanchavam com a água, se diluíam nas poças e, agora dissolvidos, mal deixavam o passo ter firmeza para chegar em seu destino.
Amolecida, a terra cedia. A lama crescia. O trânsito se comprimia. O som se alastrava. O caos reinava. A agonia me sequestrava lentamente, ameaçando a terça-feira, comprometendo a quarta e amordaçando a quinta.
Secos, os tacos de madeira me aguardavam. Enxuta, a roupa de cama me aquece. Úmido, bate na janela o importuno, a lembrar que lá fora ainda há trânsito e lama, água e rostos, vidas e mortes.
Tags: Chuva, cotidiano, Líquido, São Paulo 3