Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

o olho da agulha

Postado em Aspas em 22/08/2009
Memórias do Subsolo

“ Dizem que Cleópatra (desculpai-me este exemplo da história romana) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das suas cativas, deleitando-se com seus gritos e convulsões. Direis que isto se deu em uma época relativamente bárbara; que ainda vivemos numa época bárbara, porque (sempre de um ponto de vista relativo) ainda hoje se cravam alfinetes em seios.”
- Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo

Talvez respiremos menos barbaridade, pode-se dizer assim. Mas os alfinetes continuam – ainda que não se apresentem envoltos de ignomínias (como adjetivava o russo). Bem vale dizer que agora, ao menos, passam pelo controle de qualidade e são esterilizados antes de nos estourarem.

Esse excesso de conforto em nossas cotidianas práticas de punição, dentre elas a auto-punição, chega a fazer com que o incômodo seja confundido com a liberdade. Ou a igualdade. Quiçá, a fraternidade. Listras de cores que enfeitam e queimam ao mesmo tempo.

Cai o fetiche egípcio – os seios das tais cativas serão intocáveis. É mais lucrativo, não apenas no quesito econômico, que a cegueira diária seja vendida como uma acupuntura nos olhos.

As retinas bem polidas são oferecidas apenas sob encomenda. Reserve-as.

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