Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Do nosso destino

Postado em Contos e Crônicas em 16/06/2010

Quando eu ainda estava no início da faculdade, lembro que resolvi ir à padaria para fazer algumas pequenas compras. O pão da tarde, o queijo, o leite, o café solúvel. Antes de atravessar a rua, pensava sobre o mais inquietante fenômeno: a coincidência. Até hoje não sei que valor dar a ela, que importância, o quão devo ignorá-la, o quão posso desmitificá-la.

Mas foi justamente atravessando aquela rua que encontrei o momento exato em que uma colega de sala passava. Ela estava notavelmente alterada e olhou para mim de relance assim que passei ao seu lado. Como era apenas uma colega, que dividia apenas o convívio comigo, pensei em apenas cumprimentá-la, e já estava quase seguindo meu caminho à padaria quando ela me chamou.

Foi assim que comecei uma conversa, que na verdade foi um desabafo. Desabafo este que culminou em segredo. Fui, naquele momento, uma válvula de escape necessária para o cotidiano dela. Passei em sua vida, apesar de ter sempre mantido minha palavra e não ter comentado com ninguém sobre o que ela me contava – apesar do tempo já fazer daquela história apenas um causo.

O mais intrigante é que aquilo mudou minha relação com ela. Passamos a nos respeitarmos mais, a nos olharmos como quem tem além do convívio a partilhar. Isso pode não ter mudado muito minha relação com a colega com o decorrer do tempo, mas abriu uma porta por culpa de um momento coincidente.

Esta é aquela coincidência ingênua, sem teorias conspiratórias que a envolvem. A coincidência maquiada, aquela que na verdade tenta esconder qualquer traço materialmente bem perceptivo, esta me enoja. Pois duvido da ingenuidade de quem a diz, a comete. O destino, então, é o golpe fatal de quem pensa que a história não pode ser construída pela mão humana.

As coincidências continuam me mantendo alerta. Um canto em que encontros se fazem inesperadamente, ou, mais assustadoramente, um canto onde reencontros se traçam sem que saibamos como nem porquê. São como as bruxas inexistentes da América, difamadas até o último instante, temidas a todo momento.

* Coincidência ou não, achei essa imagem ao acaso antes de postar esse texto. Uh!

Tags: , 2
[2009 anacronicas.com.br] | conteúdo sob licença Creative Commons
design: André Pacheco | tecnologia: WordPress