Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

A costureira

Postado em Contos e Crônicas em 25/08/2009
A costureira

Lembro que quando criança, minha mãe se debruçava nos moldes de pijamas da revista e, em um belo tecido vermelho desenhava as linhas dos cortes. Vinha antes com uma fita métrica, tirava as medidas, anotava e usava para desenhar partes da roupa no papel.

Às vezes, repetia tudo mais uma vez. Conferia os detalhes. Colocava os pedaços no pano e, levemente e precisamente, passava o fio de corte da tesoura por todos os lados do desenho. Agora, faltava a costura e o acabamento para os sonhos serem embalados na mais confortável flanela.

Era simples e belos esses pequenos momentos. Eram puras e delicadas as peças dentro do armário. Ainda que fossem ásperas as folhas de papel que as costureiras usam. Ainda que fossem pontiagudos os alfinetes que ajudam o trabalho. Ainda que não fosse cetim nem seda a matéria que iria me cobrir.

Eram mais simples aquelas tarefas daqueles distantes dias. Poderia, por vezes, parecer enfadonho ou desnecessário, a depender da boa vontade – ou falta extrema desta.

Aqueles moldes, aqueles alfinetes e, quem sabe, até mesmo o som da máquina de costura rodando a linha – tudo isto eu via, respirava e percebia. Mas hoje, neste meu novo dia-a-dia, sei que me passam a fita, me medem os dedos, me calculam as tripas – mas já não vejo a estilista, a crítica, a costureira.

Mas ainda sinto, tão real quanto antes, os moldes, os alfinetes e o som desta máquina descompassada, ainda que seus artifícios escondam-se das minhas lunetas.

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