Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Olha só, não fiz nenhuma despedida daquela cidade, nem dos amigos que ali eu tinha, simplesmente para evitar aqueles exageros da hora de dizer adeus. Eu tenho uma relação muito simples com a partida: é dada a hora, que mal faz? Cada qual segue para um canto e, aquilo que tiver que durar, não duvides, dura.
Eu nunca gostei muito de reencontrar pessoas que não duraram nas calçadas da vida. Por exemplo, faz mais de dez anos que terminei a faculdade. Se é difícil ser simpático com aquele ex-colega que sequer lembro a voz de tão pouco que conversamos, imagine como é constrangedor quando tenho que dar atenção aqueles ex-colegas da escola. Esses eu nem arrisco o nome, nem me preocupo em rebater as perguntas que me fazem – que sei, em nada lhe interessam – com o casual “e você?”. Simples: não tem você, encurtemos o momento e sigamos em nossas linhas. Se por acaso tais linhas se encontraram faz anos, por qual motivo elas deveriam ficar se enlaçando sempre? Sou defensor das paralelas finitas.
Fui então para outra cidade, o que eu fazia de tempos em tempos. Não é uma doença ou um transtorno em ter que me mudar quase todos anos. É apenas uma inquietude de quem se cansa fácil da monotonia do mundo, mesmo sabendo que logo logo eu irei me fartar dos cotidianos de algures, não vejo razão de não tentar perceber as minúcias que farão tais dias mais inovadores.
Na nova cidade, porém, fui recebido de uma forma muito estranha. No segundo dia, por incrível que pareça, fui nomeado rei daquele vilarejo. Era então a minha chance de remodelar aqueles cotidianos quando bem eu quisesse. Poderia baixar uma nova lei, dizendo que as casas mudassem de cor de mês em mês. A receita do pão que vendiam na feira, borrachudo e pouco corado, ordenei que mudassem. Agora vinha com pedaços de cereais. Proibi que houvessem crianças sem brinquedos, que chovesse no final da tarde, que as folhas caíssem no outono, que os ventos soprassem areia para dentro das casas.
Aos poucos, de lei em lei, ia mudando o dia a dia. Revogava uma, inventava outra, proibia aqui, permitia acolá. Era como soprar os dias como balões, até o momento que eles não aguentavam mais de tão cheios e… estouravam em brisas suaves no amanhã. Mas chegou o dia que eu já estava cansado de mim. Não quis mais ser rei, era muito enjoativo isso de mandar aqui e obedecerem lá. Também já não sabia mais o que seria possível inventar, nenhuma nova ideia conseguia entrar em minha mente. E eram muitos pedidos de todos os cantos de leis que eu já não sabia se eram boas ou ruins, se deixariam os dias mais monótonos ou mais radiantes. Leis por leis não me interessavam. Reis por reis, também não.
Parti mais uma vez. Nomeei como meu sucessor todos aqueles que nasceram naquele vilarejo. Antes de cruzar a estrada da saída da cidade, vi um vendaval de confusões. De leis que inventavam e que outros, em seu cargo de tão igual nobreza, revogavam imediatamente. Ah, se bem querem saber, me arrependo de ter passado assim meu reinado para todos aqueles que agora gozavam do poder. Era mais interessante ter extinto de uma vez essa história de reinado, para ver como os sonhos ali iriam crescer.
Tags: cotidiano, Excêntrico, Mudanças, Rei 2Fazia três meses que eu procurava um emprego. Ia de entrevista em entrevista, quando alguém ainda ousava me convocar. Era muito difícil ser simpático ou não demonstrar ansiedade quando sua vida não lhe dá nenhum motivo para se animar nem sorrir. Saí de mais uma dessas conversas entre o entrevistado esmolando emprego e o patrão oferendo a merda de uma salário mais barato do que o preço dos óculos que sua mulher comprou na liquidação.
O que mais nos cabe quando o excesso de perguntas em nossa cabeça nos impede de pensar em qualquer resposta útil? Para mim, a resposta é a mesa branca de metal de qualquer bar. Sentei, mas nunca demorei tanto de ser atendido. Até que enfim apareceu um senhor gordo, com bigodes grandes e mão pequenas. Passava a mão no rosto com força, em uma mistura de desprezo com desconforto, de sono com inquietude.
- É proibido sentar na mesa deste bar.
Esta foi a frase mais estúpida que ouvi em toda minha vida. Na verdade, a frase mais estúpida da minha vida boêmia, é bom realçar, visto que não foram poucas as aberrações que já tive que ouvir em outros tipos de conversação.
- Que história é essa de ser proibido? Isso não está escrito em lugar nenhum aqui.
- Mas também não está escrito em lugar algum que isto seria permitido, se assim for!
É, ele tinha razão. Mas que vida estranha seria esta que tudo aquilo que nos fosse permitido ou proibido tivesse que ser escrito. Aliás, o mundo seria uma grande bula, um receituário, o antro maior de toda burocracia. Até mesmo o mais prosaico gesto teria de ser consultado em alguma espécie de cartório. Confuso, não?
Eu, sinceramente, não queria desperdiçar o resto do meu dia em um bar estranho que não queria me servir. Levantei-me devagar e, com um sorriso meio desconfiado, meio irônico, indaguei ao senhor:
- Levantar e ir embora, isto é permitido, certo?
- Às ordens.
Passei no supermercado, comprei dois engradados e levei umas cervejas já geladas. Em um pote, coloquei amendoins, liguei a televisão e tirei os sapatos. Ali eu podia me permitir, mesmo sem saber quais proibições eu poderia me fazer sem sequer perceber.
Tags: cotidiano 3O café já estava adoçado, mas eu não sabia. Só quando senti o excesso de mel na ponta da língua que me dei conta da estupidez que tinha feito. Como pude me esquecer que na casa de minha avó o café sempre fora feito já com açúcar? Joguei fora o que estava na minha xícara e servi uma outra dose. Minha mãe entrou na cozinha naquele instante e perguntou para mim o porquê da minha viagem.
Era final de setembro e eu já estava com tudo planejado. Havia juntado o dinheiro por dois anos para poder finalmente fazer a viagem que sempre quis. Ia atravessar o mundo inteiro para visitar a Austrália, país distante de um continente silenciado.
- Vou para estudar.
Na verdade, isso ela já sabia. Havia anos que mandava minhas pesquisas para um grupo de pesquisa daquele país e apenas lá a minha linha de estudos era tratada na teoria que eu me identificava, com a metodologia que eu queria seguir. Mas isso parecia deslumbramento excessivo para minha mãe. Nada que eu não encontraria em algum lugar próximo, até mesmo no nosso estado.
Não era apenas ir a esse encontro. Por mais que usar a palavra “apenas” seja quase um crime a história que criei e vivi. Eu queria ir por desejo, por vontade, por estar em uma terra em que nada me constuiu, ao menos até onde eu podia me identificar.
- Mas pra quê?
Esta pergunta é uma faca afiada, mas cujo fio não escolhe em quem passar. Era a pergunta-arma que qualquer faz partindo do pressuposto que seus passos seguem alguma lógica. Mas que lógica?
Mãe de todas as questões existenciais, de todas as dúvidas supremas, claro que não poderia dar uma resposta certa sobre a utilidade de qualquer escolha que eu faria. Mas minha mãe não percebia que ela mesma não seria capaz de responder o pra que ficar, pra que viver, pra que seguir aqueles passos que me isentam desta pergunta, por mais que ela continue latente no pano de fundo.
O motivo, a finalidade, o ensejo, eu não sei. Não sei o “pra que” da minha manhã quando eu acordo, da minha noite quando eu me deito, e não preciso saber responder para todas as perguntas que me lançarem. Não quis fazê-la engolir a má textura desta pergunta em réplica, apenas sorri como quem deixa a dúvida ser a própria resposta. Queria continuar os meus passos sem a obrigação de ter que responder aquilo que ninguém um dia soube explicar.
Tags: Alice, cotidiano, Vida 2O arroz esquecido no fundo do saco do mercado. Talvez um pouco úmido, um pouco cinza, mal descascado. É este arroz que merece vir todos os dias ao meu prato, com ou sem feijão, com ou sem farinha, com ou sem água. É esta a parte que me cabe de todos os grãos, cereais, vísceras e mastigações.
Nem o mais vil dos seres me inveja. Não represento dano, sufoco, raiva, ódio nem amor. Não represento sua vida, seus ganhos, suas bebidas, seus vícios, seu maior desconforto diante da espera. Não sou melhor que um salto despretensioso de uma janela alta, do percurso que se faz um corpo antes de rachar a pele ao cair no chão. Não quero ver meu crânio aberto nem seus olhos fixos em mim depois de uma ou outra frase roubada de um antigo livro de canções.
Acho que cabe a mim ser a bengala que sustenta o olhar vazio do velho na praça. O que pensam os vermes antes de se esconderem nas migalhas? Eu sei que passo o dia neste silêncio, tombando nos barulhos mais inquietos que só o grave e o agudo de nossos corpos conseguem produzir.
É assim, preto e branco, foto envelhecida, resto de pinga perdida na garrafa que passa por mim. È assim mesmo, tão excessivamente péssimo, tão cheio de contrastes dispersos, com o rosto ainda marcado do lençol da cama. É exatamente assim, com o corpo dormente em febre, a parede marcada de durex, o pé da cama comido por dentes de um ou outro rato que aqui se diverte.
Sabe, exatamente por isso, por tudo isso, aprendo ao passar dos dias o que me resta de solidão e descaso. Não sei se duro até o próximo ano, mês, semana, dia. Não quero me prender entre calendários, nem astrologias. Sou o resto de todos, todos os dias.
Tags: cotidiano, Humano, Solidão 2