Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Quando o dia não rendia e o tédio era a única certeza com o passar das horas, ela percorria o olhar pelas linhas retas e longas das persianas do quarto. Na cozinha, dissolvia o açúcar no café com paciência e demoradamente, para que o tilintar da colher na xícara repousasse como música por alguns instantes. Um lapso de ritmo em uma manhã oca.
Na varanda, esperava as nuvens passearem até que o azul incomodasse seus olhos. Segurava no parapeito e lançava algumas folhas secas das velhas flores que enfeitavam a sacada.
As águas escorriam do chuveiro em suas costas. O banheiro se desenroscava em uma paisagem de brancos azulejos e de vapor quente – na aquarela passageira do vidro, escrevia seu nome: “Ana”. Três letras apenas que pareciam não combinar, mas, de tão comuns, tem-se por harmônicas.
Espremia os dedos das mãos um por um, no barulho que variava do conforto ao incômodo. Circulava as pás do ventilador desligado. Olhava pelo espelho os cabelos curtos, castanhos e sem jeito que pareciam desafiar os olhos calmos e grandes.
Jogou o livro que começara a ler na noite passada no fundo da mesa – “desisto desta leitura aborrecedora”. Sentou na mesma cadeira tediosa. Começou a olhar as linhas da persiana. Novamente. Não havia passado mais do que quinze minutos.
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Foi um final de tarde, quando o sol se despede para as nuvens, em roxo e rosa, costurarem o céu. A chuva se armava, os pingos se formavam, tocavam rapidamente os ladrilhos das calçadas, as folhas secas das árvores, a boca avermelhada da criança que brincava no pátio. Dentro da cerca de proteção, os capacetes amarelos dos homens da construção, rígidos e garantidos, selavam o silêncio da despedida vespertina.
Subia escada, subia cimento, subia tijolo, subia o homem, carragando seu suor, sua dor, seu músculo doentio, sua tosse do cigarro de palha e seu macacão azul já todo desbotado. Subiam as mãos de calo e a coluna desconfortável, os pés grossos e suor que escorria entre cada sulco da pele. Subiam todos.
Era o fim do dia, era o fim do que? Era mais um dia que escondia o que se devia saber. Era o homem que fincava o braço e acenava com aço. O sol lambia o último pedaço das colunas – estas de cimento – quando sentaram-se todos no último pavimento. Tão cinza, tão rude, tão deserto.
As luzes da cidade começavam a brilhar. Lá do outro lado alguém havia de esperar aquele homem plural, homem sujeito-objeto. Sentaram-se os homens vigas. Suspenderam os capacetes amarelos – rígidos e garantidos. Seus olhos de pedra se cruzavam no desespero da noite que surgia. Amanhã, novo dia. Amanhã, que novo havia?
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A mesa tinha o formato daquela última vogal. A parte aberta do “U” ficava permanentemente lançada para o pano de projeção, ao passo em que a parte fechada, para uma lousa branca com manchas de textos escritos anteriormente cujo apagador, já carcomido, não conseguia remover. As persianas recebiam o vento pelas frestas das janelas abertas e, entre batidas e carícias, faziam o único som a ecoar naquele final de tarde.
Relógio em punho. Minutos que se esgoelam para passar. Um ponteiro, portando a velocidade cronometrada dos segundos, tentava, sem sucesso, inspirar as horas para que elas pudessem se aventurar nos intervalos de tempos sem tamanha precaução.
Pressionava minhas unhas nas palmas das mãos. Era o único instinto que afastaria a vontade de lascá-las entre os dedos. Mordia a parte externa dos lábios levemente com os dentes. Confiei na teoria de não espiar os relógios constantemente. Fracassei.
Alguns vultos continuavam a passar pelo corredor, ignorando minha presença naquele local. Passava um senhor, uma jovem de vestido largo, o porteiro daquela unidade e um homem calvo que, aposto, tentava me ver com sua visão periférica.
Não me recordo quanto tempo passei sem desistir da minha espera, naquele branco cremoso excessivo das paredes da sala. Como um creme denso que assistimos escorrer nas panelas de doces, a parede se desmontou aos poucos. Deitei naquela sala, naquela bacia terna que me engolia.
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Cada gota de suor que saia da minha nuca escorrendo pelas minhas costas se esfriavam rapidamente. Eram leves e tenras, sempre arranhando o leito de suas corridas. Quando percebi que estava mais fria do que o normal, senti que minha visão entrava em um destino turvo, sem saber distinguir as realidades dos sonhos, as exatidões dos incompreensíveis.
Um lapso do meu tempo foi esquecido. Fui escorada em ombros de quem nem me recordo o nome. Sentada na cadeira do ônibus, aguardei seu esvaziamento. Meus braços estavam imóveis, imersos em cãibras que me agoniavam e me deixavam mais afastadas do meu cotidiano. O desespero batia firme em meu coração, que poderia a qualquer instante ver um sopro se tornar um furacão.
Com o pisca-alerta ligado e com a mão intensamente na buzina, o ônibus desgovernou-se da lógica diária para ir rumo ao hospital mais próximo. Consegui mexer meus dedos, consegui eu mesma tomar água e secar minhas lágrimas com as mãos.
A cadeira do hospital me guiou por instantes pelas ruas e corredores. Atendimento, senha número 53. É tarde, há tarefas lá fora. Consultório, previsão de 381 minutos. É muito, há vida lá fora. Guardei aquele pedaço dentro de meu suor, da aflição comum e silenciosa que nos ronda diariamente. Afoguei aqueles instantes como quem não percebe o último gole de água.
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é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter.![]()
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