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	<title>anacrônicas &#187; cotidiano</title>
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		<title>O rei entediado</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Jul 2010 00:46:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Olha só, não fiz nenhuma despedida daquela cidade, nem dos amigos que ali eu tinha, simplesmente para evitar aqueles exageros da hora de dizer adeus. Eu tenho uma relação muito simples com a partida: é dada a hora, que mal faz? Cada qual segue para um canto e, aquilo que tiver que durar, não duvides, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/2906761"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/rei-entediado1.jpg" alt="" title="rei entediado" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-645" /></a></div>
<p>Olha só, não fiz nenhuma despedida daquela cidade, nem dos amigos que ali eu tinha, simplesmente para evitar aqueles exageros da hora de dizer adeus. Eu tenho uma relação muito simples com a partida: é dada a hora, que mal faz? Cada qual segue para um canto e, aquilo que tiver que durar, não duvides, dura.</p>
<p>Eu nunca gostei muito de reencontrar pessoas que não duraram nas calçadas da vida. Por exemplo, faz mais de dez anos que terminei a faculdade. Se é difícil ser simpático com aquele ex-colega que sequer lembro a voz de tão pouco que conversamos, imagine como é constrangedor quando tenho que dar atenção aqueles ex-colegas da escola. Esses eu nem arrisco o nome, nem me preocupo em rebater as perguntas que me fazem &#8211; que sei, em nada lhe interessam &#8211; com o casual &#8220;e você?&#8221;. Simples: não tem você, encurtemos o momento e sigamos em nossas linhas. Se por acaso tais linhas se encontraram faz anos, por qual motivo elas deveriam ficar se enlaçando sempre? Sou defensor das paralelas finitas.</p>
<p>Fui então para outra cidade, o que eu fazia de tempos em tempos. Não é uma doença ou um transtorno em ter que me mudar quase todos anos. É apenas uma inquietude de quem se cansa fácil da monotonia do mundo, mesmo sabendo que logo logo eu irei me fartar dos cotidianos de algures, não vejo razão de não tentar perceber as minúcias que farão tais dias mais inovadores.</p>
<p>Na nova cidade, porém, fui recebido de uma forma muito estranha. No segundo dia, por incrível que pareça, fui nomeado rei daquele vilarejo. Era então a minha chance de remodelar aqueles cotidianos quando bem eu quisesse. Poderia baixar uma nova lei, dizendo que as casas mudassem de cor de mês em mês. A receita do pão que vendiam na feira, borrachudo e pouco corado, ordenei que mudassem. Agora vinha com pedaços de cereais. Proibi que houvessem crianças sem brinquedos, que chovesse no final da tarde, que as folhas caíssem no outono, que os ventos soprassem areia para dentro das casas.</p>
<p>Aos poucos, de lei em lei, ia mudando o dia a dia. Revogava uma, inventava outra, proibia aqui, permitia acolá. Era como soprar os dias como balões, até o momento que eles não aguentavam mais de tão cheios e&#8230; estouravam em brisas suaves no amanhã. Mas chegou o dia que eu já estava cansado de mim. Não quis mais ser rei, era muito enjoativo isso de mandar aqui e obedecerem lá. Também já não sabia mais o que seria possível inventar, nenhuma nova ideia conseguia entrar em minha mente. E eram muitos pedidos de todos os cantos de leis que eu já não sabia se eram boas ou ruins, se deixariam os dias mais monótonos ou mais radiantes. Leis por leis não me interessavam. Reis por reis, também não.</p>
<p>Parti mais uma vez. Nomeei como meu sucessor todos aqueles que nasceram naquele vilarejo. Antes de cruzar a estrada da saída da cidade, vi um vendaval de confusões. De leis que inventavam e que outros, em seu cargo de tão igual nobreza, revogavam imediatamente. Ah, se bem querem saber, me arrependo de ter passado assim meu reinado para todos aqueles que agora gozavam do poder. Era mais interessante ter extinto de uma vez essa história de reinado, para ver como os sonhos ali iriam crescer.</p>
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		<title>O protocolo das ordens</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Jul 2010 01:37:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
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		<description><![CDATA[
Fazia três meses que eu procurava um emprego. Ia de entrevista em entrevista, quando alguém ainda ousava me convocar. Era muito difícil ser simpático ou não demonstrar ansiedade quando sua vida não lhe dá nenhum motivo para se animar nem sorrir. Saí de mais uma dessas conversas entre o entrevistado esmolando emprego e o patrão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/3046789"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/Proibido-permitir.jpg" alt="" title="Proibido permitir" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-626" /></a></div>
<p>Fazia três meses que eu procurava um emprego. Ia de entrevista em entrevista, quando alguém ainda ousava me convocar. Era muito difícil ser simpático ou não demonstrar ansiedade quando sua vida não lhe dá nenhum motivo para se animar nem sorrir. Saí de mais uma dessas conversas entre o entrevistado esmolando emprego e o patrão oferendo a merda de uma salário mais barato do que o preço dos óculos que sua mulher comprou na liquidação.</p>
<p>O que mais nos cabe quando o excesso de perguntas em nossa cabeça nos impede de pensar em qualquer resposta útil? Para mim, a resposta é a mesa branca de metal de qualquer bar. Sentei, mas nunca demorei tanto de ser atendido. Até que enfim apareceu um senhor gordo, com bigodes grandes e mão pequenas. Passava a mão no rosto com força, em uma mistura de desprezo com desconforto, de sono com inquietude.</p>
<p>- É proibido sentar na mesa deste bar.</p>
<p>Esta foi a frase mais estúpida que ouvi em toda minha vida. Na verdade, a frase mais estúpida da minha vida boêmia, é bom realçar, visto que não foram poucas as aberrações que já tive que ouvir em outros tipos de conversação.</p>
<p>- Que história é essa de ser proibido? Isso não está escrito em lugar nenhum aqui.</p>
<p>- Mas também não está escrito em lugar algum que isto seria permitido, se assim for!</p>
<p>É, ele tinha razão. Mas que vida estranha seria esta que tudo aquilo que nos fosse permitido ou proibido tivesse que ser escrito. Aliás, o mundo seria uma grande bula, um receituário, o antro maior de toda burocracia. Até mesmo o mais prosaico gesto teria de ser consultado em alguma espécie de cartório. Confuso, não?</p>
<p>Eu, sinceramente, não queria desperdiçar o resto do meu dia em um bar estranho que não queria me servir. Levantei-me devagar e, com um sorriso meio desconfiado, meio irônico, indaguei ao senhor:</p>
<p>- Levantar e ir embora, isto é permitido, certo?</p>
<p>- Às ordens.</p>
<p>Passei no supermercado, comprei dois engradados e levei umas cervejas já geladas. Em um pote, coloquei amendoins, liguei a televisão e tirei os sapatos. Ali eu podia me permitir, mesmo sem saber quais proibições eu poderia me fazer sem sequer perceber.</p>
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		<title>As perguntas das respostas</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Jun 2010 20:46:50 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Alice]]></category>
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O café já estava adoçado, mas eu não sabia. Só quando senti o excesso de mel na ponta da língua que me dei conta da estupidez que tinha feito. Como pude me esquecer que na casa de minha avó o café sempre fora feito já com açúcar? Joguei fora o que estava na minha xícara [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/2407913"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/As-perguntas-das-respostas.jpg" alt="" title="As perguntas das respostas" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-593" /></a></div>
<p>O café já estava adoçado, mas eu não sabia. Só quando senti o excesso de mel na ponta da língua que me dei conta da estupidez que tinha feito. Como pude me esquecer que na casa de minha avó o café sempre fora feito já com açúcar? Joguei fora o que estava na minha xícara e servi uma outra dose. Minha mãe entrou na cozinha naquele instante e perguntou para mim o porquê da minha viagem.</p>
<p>Era final de setembro e eu já estava com tudo planejado. Havia juntado o dinheiro por dois anos para poder finalmente fazer a viagem que sempre quis. Ia atravessar o mundo inteiro para visitar a Austrália, país distante de um continente silenciado.</p>
<p>- Vou para estudar.</p>
<p>Na verdade, isso ela já sabia. Havia anos que mandava minhas pesquisas para um grupo de pesquisa daquele país e apenas lá a minha linha de estudos era tratada na teoria que eu me identificava, com a metodologia que eu queria seguir. Mas isso parecia deslumbramento excessivo para minha mãe. Nada que eu não encontraria em algum lugar próximo, até mesmo no nosso estado.</p>
<p>Não era apenas ir a esse encontro. Por mais que usar a palavra &#8220;apenas&#8221; seja quase um crime a história que criei e vivi. Eu queria ir por desejo, por vontade, por estar em uma terra em que nada me constuiu, ao menos até onde eu podia me identificar.</p>
<p>- Mas pra quê?</p>
<p>Esta pergunta é uma faca afiada, mas cujo fio não escolhe em quem passar. Era a pergunta-arma que qualquer faz partindo do pressuposto que seus passos seguem alguma lógica. Mas que lógica?</p>
<p>Mãe de todas as questões existenciais, de todas as dúvidas supremas, claro que não poderia dar uma resposta certa sobre a utilidade de qualquer escolha que eu faria. Mas minha mãe não percebia que ela mesma não seria capaz de responder o pra que ficar, pra que viver, pra que seguir aqueles passos que me isentam desta pergunta, por mais que ela continue latente no pano de fundo.</p>
<p>O motivo, a finalidade, o ensejo, eu não sei. Não sei o &#8220;pra que&#8221; da minha manhã quando eu acordo, da minha noite quando eu me deito, e não preciso saber responder para todas as perguntas que me lançarem. Não quis fazê-la engolir a má textura desta pergunta em réplica, apenas sorri como quem deixa a dúvida ser a própria resposta. Queria continuar os meus passos sem a obrigação de ter que responder aquilo que ninguém um dia soube explicar.</p>
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		<title>Descaso</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jun 2010 14:53:02 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[
O arroz esquecido no fundo do saco do mercado. Talvez um pouco úmido, um pouco cinza, mal descascado. É este arroz que merece vir todos os dias ao meu prato, com ou sem feijão, com ou sem farinha, com ou sem água. É esta a parte que me cabe de todos os grãos, cereais, vísceras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Descaso.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Descaso.jpg" alt="" title="Descaso" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-573" /></a></div>
<p>O arroz esquecido no fundo do saco do mercado. Talvez um pouco úmido, um pouco cinza, mal descascado. É este arroz que merece vir todos os dias ao meu prato, com ou sem feijão, com ou sem farinha, com ou sem água. É esta a parte que me cabe de todos os grãos, cereais, vísceras e mastigações.</p>
<p>Nem o mais vil dos seres me inveja. Não represento dano, sufoco, raiva, ódio nem amor. Não represento sua vida, seus ganhos, suas bebidas, seus vícios, seu maior desconforto diante da espera. Não sou melhor que um salto despretensioso de uma janela alta, do percurso que se faz um corpo antes de rachar a pele ao cair no chão. Não quero ver meu crânio aberto nem seus olhos fixos em mim depois de uma ou outra frase roubada de um antigo livro de canções.</p>
<p>Acho que cabe a mim ser a bengala que sustenta o olhar vazio do velho na praça. O que pensam os vermes antes de se esconderem nas migalhas? Eu sei que passo o dia neste silêncio, tombando nos barulhos mais inquietos que só o grave e o agudo de nossos corpos conseguem produzir.</p>
<p>É assim, preto e branco, foto envelhecida, resto de pinga perdida na garrafa que passa por mim. È assim mesmo, tão excessivamente péssimo, tão cheio de contrastes dispersos, com o rosto ainda marcado do lençol da cama. É exatamente assim, com o corpo dormente em febre, a parede marcada de durex, o pé da cama comido por dentes de um ou outro rato que aqui se diverte.</p>
<p>Sabe, exatamente por isso, por tudo isso, aprendo ao passar dos dias o que me resta de solidão e descaso. Não sei se duro até o próximo ano, mês, semana, dia. Não quero me prender entre calendários, nem astrologias. Sou o resto de todos, todos os dias. </p>
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		<title>Um homem que dorme</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Jun 2010 22:04:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
O filme, em seu silêncio contínuo, havia começado há cinco minutos. Nenhuma voz, nenhuma fala. Ele me perguntou como eu escolhi aquele filme para assistir, meus critérios. Eu poderia inventar alguma desculpa que fizesse a escolha mais respeitável, mas decidi ser sincera:
- Tenho a mania de decidir pela capa ou pelo nome.
- Mas nem mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Um-homem-que-dorme.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Um-homem-que-dorme.jpg" alt="" title="Um homem que dorme" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-563" /></a></div>
<p>O filme, em seu silêncio contínuo, havia começado há cinco minutos. Nenhuma voz, nenhuma fala. Ele me perguntou como eu escolhi aquele filme para assistir, meus critérios. Eu poderia inventar alguma desculpa que fizesse a escolha mais respeitável, mas decidi ser sincera:</p>
<p>- Tenho a mania de decidir pela capa ou pelo nome.</p>
<p>- Mas nem mesmo conhecia o diretor?</p>
<p>- Não.</p>
<p>A franqueza foi bem recebida, pois o filme até então parecia lindo em suas imagens, e mostrava que em poucos instantes iria desabrochar para nós. Em um quarto, um estudante, entre duas imagens presas na parede. Fiquei fascinada por ser dois de meus favoritos artistas. Uma obra de Escher, com aquelas escadarias sem fim, e a do Magritte, aquela usada em duzentos livros de psicologia, com um rapaz que olha o espelho e vê o reflexo de suas costas.</p>
<p>O filme virou uma poesia. Chamava-se <a href="http://www.youtube.com/watch?v=4ToPoGaA24c">“Um homem que dorme”</a>. Meus olhos estavam cansados da noite mal dormida e do calor excessivo da cidade, e eu não pude acompanhar até o fim a história, só alguns vinte minutos, nada mais. Ele continuou até o fim, ao meu lado, acompanhando a poesia de imagens e narração.</p>
<p>Eu não sei como terminou o filme. Não sei até agora. Sei que tanto deu pra ler daqueles momentos que percebi, dos espelho quebrados, das três partes do rosto exposto, dos quadros, dos ruídos, do duplo, do preto e do branco. </p>
<p>Vivo a agonia de encontrá-lo, de senti-lo, de anunciá-lo. Vivo acordada para este fim, em que uma palavra atraente me dará outro bote e me botará ao encontro de outra parte de mim.</p>
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		<title>Pleno vazio ou 11 minutos de perguntas sem fim</title>
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		<pubDate>Sun, 09 May 2010 02:12:10 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[
Ensinaram-me que os lápis de cor ficam dentro de uma caixa e que devem ser enfileirados de acordo com a tonalidade. Ensinaram-me também que os meninos são proibidos de usar saia, a não em uma país distante que eu possivelmente nunca visitarei. Ensinaram ainda que para me casar eu teria que usar um vestido branco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/pleno-vazio.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/pleno-vazio.jpg" alt="" title="pleno vazio" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-444" /></a></div>
<p>Ensinaram-me que os lápis de cor ficam dentro de uma caixa e que devem ser enfileirados de acordo com a tonalidade. Ensinaram-me também que os meninos são proibidos de usar saia, a não em uma país distante que eu possivelmente nunca visitarei. Ensinaram ainda que para me casar eu teria que usar um vestido branco e subir no altar da igreja.</p>
<p>Ensinaram-me que Plutão é o último planeta do nosso sistema. Depois ensinaram que ele nem planeta era. Ensinaram-me que o céu é azul por causa do oxigênio. Outros me disseram que era por causa do reflexo do mar – ou será que foi ao contrário?</p>
<p>Ensinaram-me que existem quatro estações. Que as flores se abrem na primavera e que se fecham no verão. Ensinaram-me que todo mundo um dia divide seu coração. E todo mundo um dia também chora de decepção. Que nunca a vida é tão bela, mas jamais também tão amarga.</p>
<p>Guardei em cada ensinamento uma interrogação. E cada interrogação, guardei um um pote vazio. Agora, assim, cheia desses potes vazios em mim, quase sufocada, mal consigo me mover. Alguém, por favor, me ensina como eu posso me mover?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Semente tardia</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2010/05/semente-tardia/</link>
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		<pubDate>Sat, 08 May 2010 13:51:11 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[
Acordava cedo relutando em deixar o cobertor verde, velho, desgastado pelas mudanças e uso. Dormia em uma esteira no chão da sala. A casa era pequena, sua mãe dormia na única cama – de casal – no quarto, junto com seus dois irmãos mais novos. Na esteira do quarto, o sono da irmã se deitava. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/semente-tardia.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/semente-tardia.jpg" alt="" title="semente tardia" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-440" /></a></div>
<p>Acordava cedo relutando em deixar o cobertor verde, velho, desgastado pelas mudanças e uso. Dormia em uma esteira no chão da sala. A casa era pequena, sua mãe dormia na única cama – de casal – no quarto, junto com seus dois irmãos mais novos. Na esteira do quarto, o sono da irmã se deitava. A sala sempre ficou com o mais velho dos filhos: ele.</p>
<p>Era dele a responsabilidade de preparar o café. Puro, único, violento na mesa, soberano. Nada o acompanhava, ao menos era assim fazia pelo menos três meses. No natal ainda apareciam alguns biscoitos, presentes de uma vizinha da rua de trás. Enrolava o cigarro de palha antes de acordar os irmãos e a mãe, suspirava a fumaça, desmanchava-se junto a ela.</p>
<p>- Ei, acorda.</p>
<p>A irmã não pestanejava. Ia buscar água no balde para lavar o rosto.</p>
<p>- Bom dia, mãe. Acorda.</p>
<p>Deixava a casa a pé. Ia andar muito para chegar até a fazenda onde trabalhava. Pedia para o sol não castigar naquele dia, quando ia preparar as estacas das cercas e, ainda, consertar um pedaço do curral. Um vaqueiro nunca sabe quando começa o trabalho, quando acorda o dia, quando fecha a tarde e quando termina a noite.</p>
<p>O sol aponta fino pela estrada quando caminha de volta para casa. Sua boca fina, lábios cerrados, conhecem o caminho no mais irritante silêncio. Passa assim sem assovios nem palavras o seu dia, sua voz é dos gritos de quem tange o gado.</p>
<p>Para na mesma pedra de sempre, desenrola mais um cigarro de palha. A lua descasca um pedaço do azul e lhe rouba um sorriso leve. Entre a fumaça do cigarro, o véu de estrelas começam a aparecer. À noite é quando a beleza se faz. Na escuridão da estrada não há diferença entre seus passos e seus pés.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Parada Respiratória</title>
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		<pubDate>Tue, 04 May 2010 01:25:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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Que eu me lembre, não são muitas as noites que a escuridão se esfumaça em minha frente. É algo não muito simples, também. A fumaça do cotidiano se faz quando penso que não posso mais suportar alguma solidez excessiva &#8211; e tal solidez nada mais é do que esses obstáculos que realmente fazem diferença nos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/parada-respiratória.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/parada-respiratória.jpg" alt="" title="parada respiratória" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-426" /></a></div>
<p>Que eu me lembre, não são muitas as noites que a escuridão se esfumaça em minha frente. É algo não muito simples, também. A fumaça do cotidiano se faz quando penso que não posso mais suportar alguma solidez excessiva &#8211; e tal solidez nada mais é do que esses obstáculos que realmente fazem diferença nos nossos passos.</p>
<p>É neste instante que eu me descolo do sofá, que meu corpo coça em escamas, que minha mente paralisa e se refresca ao mesmo tempo, em uma sintonia de embriaguez e dormência. São fumaças mentoladas, refrescantes, quentes, de um passado que cutuca o presente e, mesmo decidido neste momento ser congelado, sabe que será peça chave de um futuro.</p>
<p>Esses encontros de tempo são destrutivos dentro de minha lógica cotidiana. Dentro de qualquer lógica, de qualquer cotidiano. Parece que por um instante podem me sufocar com o ar, podem me cegar com as cores, podem me tirar os movimentos por andar. Alguém corta o fio que nos dava corda.</p>
<p>Momentos assim são raros. Não duram mais que alguns minutos, segundos, talvez. É a impressão certeira de que o nada e o tudo se abraçam, que o tempo e a morte são vizinhos, que o amor e a ilusão brincam juntos. Em nenhuma visão saberei se me restava algo a fazer.</p>
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		<title>Marcham as vozes</title>
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		<pubDate>Sun, 02 May 2010 00:35:28 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
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Rosana não vai à praia aos sábados, porque sempre está cheia e tem vergonha de sair de biquini para aquela multidão &#8211; mesmo que esta esteja nestes trajes. E não há razão, para ela, em ir à praia e não entrar na água. Dizem que o sal purifica a alma e que a região não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/marcham-as-vozes.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/marcham-as-vozes.jpg" alt="" title="marcham as vozes" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-420" /></a></div>
<p>Rosana não vai à praia aos sábados, porque sempre está cheia e tem vergonha de sair de biquini para aquela multidão &#8211; mesmo que esta esteja nestes trajes. E não há razão, para ela, em ir à praia e não entrar na água. Dizem que o sal purifica a alma e que a região não é imprópria para o banho. Coisa rara.</p>
<p>Já Luciene prefere as avenidas distantes da noite de São Paulo. Quando embarca nelas, altas horas da madrugada, sente-se mergulhando em asfaltos coloridos e no silêncio noturno &#8211; que não é tão silencioso assim &#8211; conforta seu cotidiano. Amanhã estarão engarrafadas. Comprou palavras cruzadas na banca.</p>
<p>Maria, que odeia o nome por ser comum e parecer &#8220;nome de velha&#8221;, ainda joga amarelinha. Prefere pular corda a brincar na piscina. A última nota na redação foi nove. Desenha com giz de cera, mas prefere aquarela e faz coleção de pelúcia.</p>
<p>As três sentam-se juntas no mesmo ônibus todos os diaa. Uma mais a frente, outra aos fundos, uma apenas três vezes por semana pega aquela linha, acompanhada da mãe. Não há nada de novo naquela estrutura de metal e cadeiras. Elas nunca se falaram. Talvez seja melhor assim.</p>
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		<title>Vidros Escuros</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Apr 2010 01:11:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Humano]]></category>
		<category><![CDATA[Solidão]]></category>

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O vestido vermelho da vitrine era a última peça e o tamanho era único. A atendente pediu para que eu experimentasse o mesmo modelo em outra cor, para não desmanchar o manequim. Sem problemas. O problema é que o tal do tamanho único, normalmente, não é o tamanho de ninguém. Ficou largo, não levei.
Saí da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/04/Vidros-Escuros.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/04/Vidros-Escuros.jpg" alt="" title="Vidros Escuros" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-409" /></a></div>
<p>O vestido vermelho da vitrine era a última peça e o tamanho era único. A atendente pediu para que eu experimentasse o mesmo modelo em outra cor, para não desmanchar o manequim. Sem problemas. O problema é que o tal do tamanho único, normalmente, não é o tamanho de ninguém. Ficou largo, não levei.</p>
<p>Saí da galeria e vi que aqueles dez minutos que passei no provador foram suficientes para começar uma fina chuva. O dia, que tinha amanhecido quase quente e com céu limpo, brincava de contrários nesta noite. As gotas eram inofensivas, ao menos.</p>
<p>Fui ao cinema sozinha, gesto que não acho solitário, mas desbravador. Consigo me ater nos gestos, comentários e precauções do público ao meu redor. Sabe uma coisa que sempre me incomoda? Nunca na vida saber como é que é ter aquela vida de mim tão distante &#8211; no sentido mais humano que poderia dizer.</p>
<p>Olho o rapaz lá na frente, parece entretido com os amigos. Nunca saberei sobre o que falavam, com que passado se carregam, com que presente se desenham. São as milhares de possibilidades que piscam em mim por alguns segundos.</p>
<p>Volto ao prédio e ninguém sequer me cumprimenta. Boa noite, sussurro quase que também não querendo cumprimentar. Aqui, surgem os vidros escuros. Mal se vê, nesse momento a nós mesmos.</p>
<p>Agora, tomo um chá de camomila com mel ao som de choro &#8211; não o das lágrimas, o da música. Eles, outros, não sei. Posso imaginar. Alguém ainda poderia, nesse momento, estar escrevendo descompromissadamente sobre o meu papel, o meu observar, o meu par de sapatos sujos na sala de cinema. Vou tomar mais chá enquanto eles me encaram em silêncio.</p>
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