Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Crime por crime

Postado em Contos e Crônicas em 28/06/2010

Se um dia precisarem me dar uma sentença, eu a antecipo: culpada. Eu mesma monto minha guilhotina, armo minha forca, acendo as tochas dos transeuntes, ávidos pelo meu fim, meu desmonte, meu final. Eu não cobro entrada, ofereço a bebida e garanto benção ao presentes no local.

Pois que sentença pior em mastigar a culpa todo dia? Que tal carregá-la quando teu crime fora anunciar o novo dia, desmantelar as fraquezas e pedir para o outro acreditar mais em si? Este ato, doce e suave, se visto como crime fica áspero e amargo, consome a pele, as pálpebras em inchaços, o corpo só dorme e a fome é apenas de água.

Quantos crimes são verdadeiros, quantos carinhos são fracassados? Como saber que minha flor para você podia ser lida como retalhos de aço? Se a culpa, nome em si triste e fechado, passa pelos ouvidos de todos como o temido gesto errado, como evitaria a culpa de meu gesto solícito à ingenuidade de quem carrega tantos sonhos?

Crime por crime, me restam os castigos. Crime por crime, me elejo o palhaço mais triste. Crime por crime, meus punhos são teus, meus dias se calam, minha manhã anoitece na culpa do crime que minha justiça cometeu.

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