Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Foi um final de tarde, quando o sol se despede para as nuvens, em roxo e rosa, costurarem o céu. A chuva se armava, os pingos se formavam, tocavam rapidamente os ladrilhos das calçadas, as folhas secas das árvores, a boca avermelhada da criança que brincava no pátio. Dentro da cerca de proteção, os capacetes amarelos dos homens da construção, rígidos e garantidos, selavam o silêncio da despedida vespertina.
Subia escada, subia cimento, subia tijolo, subia o homem, carragando seu suor, sua dor, seu músculo doentio, sua tosse do cigarro de palha e seu macacão azul já todo desbotado. Subiam as mãos de calo e a coluna desconfortável, os pés grossos e suor que escorria entre cada sulco da pele. Subiam todos.
Era o fim do dia, era o fim do que? Era mais um dia que escondia o que se devia saber. Era o homem que fincava o braço e acenava com aço. O sol lambia o último pedaço das colunas – estas de cimento – quando sentaram-se todos no último pavimento. Tão cinza, tão rude, tão deserto.
As luzes da cidade começavam a brilhar. Lá do outro lado alguém havia de esperar aquele homem plural, homem sujeito-objeto. Sentaram-se os homens vigas. Suspenderam os capacetes amarelos – rígidos e garantidos. Seus olhos de pedra se cruzavam no desespero da noite que surgia. Amanhã, novo dia. Amanhã, que novo havia?
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O palco era em círculo, todo mundo poderia me ver ao mesmo tempo e em ângulos diferentes. Eu começava no centro, uma luz me iluminava. A música intensa. As lâmpadas do teatro esquentam, faz calor, começava a suar. Isso era como respirar o palco que pulsava dentro de mim. Antes de começar a recitar, prendia cordas entre as escadas. Cada escada, na verdade, era um pedaço da arquibancada.
Este era o único momento que eu poderia olhar para eles, que a todo instante me notavam. E, como disse, em todos os ângulos. Amarrei a primeira corda. Uma senhora de vestido azul me olhava com medo, ou seria apenas seriedade. Eu fixei meus olhos no fundo dos dela, ela ficou com a mesma reação.
A segunda corda eu amarrei rapidamente. Mal deu para notar que o rapaz que estava na terceira cadeira a minha esquerda sorria para mim. Talvez fosse melhor assim, eu poderia me inebriar a dúvida sobre o que poderia causar tão impacto dentro de todo o drama que eu começara a recitar?
A terceira corda, uma menina de preto dos pés à cabeça. Mas no lábios um vermelho discreto, um batom vaidoso de quem nunca sai de casa, que esconde aquela maquiagem – certamente um presente de um parente. O contorno de seus lábios era um sorriso misterioso. Só parecia completo se você percebesse ao mesmo tempo os seus olhos graúdos em jabuticabas. Doces e afiados, convidavam e repudiavam que fossem vistos por muito tempo.
Era um pulsar gélido dentro de mim, diante daquele olhar que me despia, me cobrava e me ridicularizava em minha posição. Tinha todo um texto a terminar, era meu monólogo, meu ato, minha tragédia. A dama petulante conseguira desatar as cordas de meu personagem de mim. Senti-me nu. Proferi as últimas frases com um alívio típico dos suspenses, com uma nota que não combinava com meus gestos.
A luz baixou. Fim da peça. O suor do calor das lâmpadas se agrava com minha ofegante respiração. Minhas mãos gelam. Olho para a plateia. Busco a moça de preto. Não deixou sequer o rastro de seu batom barato. Não está mais ali a minha provocação. Insolente, foi-se. Deixou-me ali – ator, ato, atado.
*Foto tirada daqui.
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Dos novos bebês que nasciam na cidade, sentia-se o fedor de placenta apodrecida, coágulos de sangue e látex. Sim, látex. Era insuportável o cheiro de plástico, borracha, limpa-vidros que exalava de cada novo ser. E não era tão estranho que assim fosse, pois as camadas de pele não existiam, as crianças possuíam, em seu lugar, uma densa textura de balão de festa.
A única diferença é que não possuíam o bico, onde haveria de se encher mais ou de retirar um pouco do ar. Como é que funcionaria o metabolismo destas crianças novas? As peles, enrugadas e borrachentas, pareciam ter uma plasticidade maior. seria um avanço genético? Seria um sinal do fim dos tempos.
Pouco importava o motivo para as mães. Recusaram uma a uma, não seriam capaz de produzir tal anomalia. Esperavam a alta do doutor e iam para casa, como se nunca tivessem entrado naquela maternidade.
Por trás das lentes de seus óculos escuros, a única gota capaz de escorrer seria a do suor para desalojar aquele corpo estranho das entranhas de seus ventres. Nada mais.
As crianças choravam um choro fino e lépido, suas bochechas vibravam. Clamavam pelo prometido instinto maternal e todas as benesses que proviam dele. Nada, nada, nada. Ninguém socorreria seus corpos exóticos nesta noite.
Descartados, no outro dia seriam varridos pelos corredores do hospital. Caixas, seringas, merda, fralda e corpos. Agora, murchos.
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