Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
A pronúncia da palavra suicídio é afiada. O som das letras juntas, uma por uma, parece o fio de uma faca, os lados prateados espelhando quem a maneja. Um corte feito no ar, um corte feito para sangrar. É quase uma palavra proibida, a ser queimada a língua daquele que a pronunciar.
Suicídios são clichês. Até porque não tem muito o que se inventar mesmo. É a corda amarrada no alto do quarto e o tamburete caído ao chão. A mão fechada denunciando que buscou se segurar em algo antes da queda de tantos metros do vão. Os comprimidos da caixa de tarja preta dissolvendo em excesso no estômago daquele que se encontra no sofá da sala.
O meu suicídio não foi inovador, exceto pela razão. Se até mesmo os adolescentes que descobrem que o mundo é feito no silenciar das questões existenciais sabem passar em gestos leves e não profundos a lâmina em seus pulsos, em muitos suicídios buscam nestas mesmas questões as maiores razões. A desconfortável tarefa de saber viver.
Quando não isso, a mais desconfortável ainda tarefa de viver a vida que vivemos. Aí deixa de ser a vida a vilã, e sim suas circunstâncias. Algo como os problemas que passam por sua vida, ou os triunfos que passam por você – sim, não são só as tristezas que nos colocam em xeque. A cobrança de si põe você mesmo em risco seja em qual parte dos opostos você esteja.
Mas não foram minhas derrotas nem minhas conquistas, minhas circunstâncias nem minha vida. Tampouco o mero experimento que fizeram de mim um corpo em suicídio. É uma bomba-relógio que mora dentro da gente que nos obriga a partir para suportar a nós mesmos, enquanto parte de carne e de sangue. Nem sei se era bem o que eu queria, nem sei se fui eu mesma que decidi. Mas ontem a noite o meu corpo era assim, substantivo-suicídio, e ninguém duvidou do excêntrico em mim.
Tags: Desespero, Excêntrico, suicídio, Vida 4Lembro quando acordei e era de tarde. Chovia bastante, estava um pouco frio. Tomei banho, separei uma roupa e comecei a me arrumar para ir a um bar no fim do dia. Essa ida ao bar, que despertara junto comigo naquela tarde, era nítida em minha memória: lembrava perfeitamente do convite, dos sorrisos, da hora marcada e das confirmações de presença.
Quando cheguei à sala, minhas amigas com quem eu dividia a casa se espantaram com o fato de eu estar arrumada para sair. Pensei que era por causa da chuva forte que fazia e, já que não tínhamos carro, iríamos cancelar a nossa ida. Mas hei que o engano estava em toda a história. Afinal, nunca houvera o convite, os sorrisos, a hora marcada, tampouco presenças a confirmar.
O problema estava na minha incapacidade em diferenciar sonhos e realidade. E já não era a primeira vez que aquilo acontecia. Cenas prosaicas iam se mesclando em minha mente, mas eram falsas verdades, passado imaginado que não pertencia ao meu dia a dia. Era eu mesma sendo incapaz de discernir o real do imaginário, era eu mesma capaz de me enganar sem nenhum parte de mim se divertir.
A minha insônia agudizou. Meus olhos iam se afundando. Era como se a cama fosse uma prisão da minha realidade, perfurando minha mente com estacas afiadas. Eu temia meus sonhos, pois temia não saber mais de que passado eu era feita ao acordar.
Eram poucas as horas que eu dormia por dia. Consumida pela loucura da incompreensão (principalmente da auto-incompreensão), duvidei de mim mesma. Eu, minha principal inimiga. Minhas recordações foram postas em xeque: esta infância que tanto me recordo me pertence ou é apenas feita de sonhos que tomei como verdade?
Cada novo dia, uma nova dificuldade, uma nova possibilidade, um peso de sonolência. Meu coração acelerava só de pensar que aquela que evitava seus sonhos, botes de falsas realidades, poderia mais cedo ou mais tarde acordar deste pesadelo. Como desejar acabar com os sonhos se já não se sabe o que é real?
Tags: Desespero, Excêntrico, Memória, Pessoal, Realidade, Sonho 2Começou em uma segunda-feira. Acordou e não sabia onde estava. Manta listrada, abajur de palha, cômoda com cinco gavetas e uma televisão pequena no canto do quarto. No criado mudo, o relógio marcava dez horas. Era fato que não deveria ter dormido até aquele horário, mas por que será que não acordou? E se acordasse, para onde iria?
- Para onde eu iria?
Ecoava a pergunta em sua mente. Não tinha ideia e quando menos pode perceber, já não se recordava sua idade. Foi para a cozinha esquentar a água para o chá. Sensação esquisita de reconhecer as paredes, os tapetes e as louças, mas de não conseguir se entender dentro daquele ambiente (sendo que não o considerava hostil).
Sentou-se na cadeira da cozinha e deixou a água fervendo. Não conseguiu se lembrar com o oque trabalha, o que estudou nesta vida, quais livros havia lido e quantos amores tinha vivido. Olhou para as mãos, elas esfriavam com tantos espasmos de memórias perdidas. A testa não poderia estar mais enrugada.
Desistiu do chá. Ligou a televisão e não entendia o que a apresentadora dizia, ainda que soubesse que era a mesma língua que ele há dez minutos balbuciou em uma pergunta ainda sem resposta. O silêncio, pouco a pouco, virou ruído em sua mente. Não havia música em esquecer de tudo – o que na verdade era esquecer de si.
Não quis ligar para ninguém, nem mesmo teria a quem. Não quis escrever, nem sair do apartamento, nem lavar o rosto, nem nada comer. Olhou o mundo pela janela e não sabia que cidade era aquela. Em uma fração de segundo, esteve convicto de que também não se lembraria da quebra de seus ossos no impacto de uma queda.
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Eu me olho em você. E me penso em você. Parece até que minha pele se desgruda em algum instante e, por longos segundos, me registro em pedaços distante de mim, com uma textura que seca e arranha, imediatamente seguida por um contorno macio e tenro. É estranho, delicadamente estranho, inatingivelmente estranho.
Repulsa de meus cabelos aos ventos, tão longos e desgrenhados, tão desvinculados, desidratados, desavergonhados. E desses desdéns que não se calam, se grita no fundo de alguma alma o calor que perpassa entre os dedos que pensam: doces, sedosos, macios. Feitos de mel, fio a fio, como deslizam nas peles que, em bolhas, se queimam de arrepios.
É do contraste que desenha as linhas dos estômagos, é das lâmpadas que se acendem nos faróis distantes, é isso tudo que constrói os nossos dois lados, o doce e o amargo, o negro e o alvo. Nas ondas daquele além-mar, sem beijo azul e sem turquesa a brilhar, sei que reina o vento, forte sopro, que não cala as velas e silencia a paz – é no fruto deste fervor de furacão que o equilíbrio se enconde e ri.
Palavras que pintam a língua das crianças, montadas em lenços estampados nas costas das mães. Sol que ilumina, perverso, desafia a ilusão e crava as unhas nos olhos ofuscados, que já não separam o sonho da razão. O óleo se mistura na água, evapora e chove nas copas das árvores: não sei quando sou eu, quando não sou, quando me desprendo da pele e viro essa fera, destemida e tímida, calada e eloquente, que a muitos me alcunham simplesmente de coração.
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