Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Café nem sempre tem aquele doce amargo que esperamos. A culpa não vem do adoçante nem do açúcar, talvez nem do café ou da balconista. Pode ser até mesmo da minha saliva, ou o músculo anestesiado da minha língua. Custou três moedas. A asa da xícara era arredondada e bem pequena, de um jeito que segurá-la significava espremer a louça branca entre os meus dedos. O que me agrada no café expresso é a cor de creme, a textura macia de onde vem o vapor.
A poltrona vermelha ficava no corredor das salas de cinema. Aguardava minha sessão. Ia começar dentro de uma hora. Levei um livro já premeditando isto e encostei-me em uma poltrona vermelha individual, logo ao lado do balcão de cigarros. De onde estava, conseguia ver o restaurante na parte superior do cinema, onde uma salada simples era servida para uma loira, acompanhada de um casal de amigos dividindo uma garrafa de vinho.
Minha concentração é muito defasada, e aquelas teorias da comunicação e da cultura que me davam fortes botes e que tanto me instigavam eram, por vezes, trocadas pelos miúdos acontecimentos temporários que se desenrolavam naquele corredor de cinema. Em minha frente, alguns sofás brancos acolchoados deitavam-se em tapetes de cores fortes. O ambiente era bem iluminado, e as lajotas claras deixavam sempre um ar de frescor e limpeza.
Encrustada naquela região nobre em que as películas são selecionadas pela elegância, sempre existe uma boa exposição de fotos. Ali, naquele mesmo corredor em que eu me sentava na poltrona e me deliciava com o vazio insistente do domingo. A exposição era recente, não me recordo o nome da fotógrafa, mas lembro do título: Ubuntu. Não sabia o significado, mas achei a sonoridade forte.
Era uma moça esguia em um lindo vestido azul. Uma tiara forrada em pano quadriculado a coroava. Tinha passos suaves e deslizava em seus cabelos castanhos e lisos. Acompanhada de outra mulher, esta mais velha, não menos elegante em um estilo mais colorido e que desenhava uma aquarela agradável aos que a assistiam. Entre as páginas teóricas e o desfile das moças, fiz uma suposição – as fotos.
Aquelas fotos eram invasoras de uma realidade. A imagem de uma Africa através de suas pessoas, de sua cor negra – que ali se resumia a balconista que me entregou o café. A Africa bela nas lentes da fotógrafa. Beleza esta extremamente estética, inócua em social. E era essa a intermediação possível naquele momento, naquele instante, naquele local. O ardor era ver que o “ubuntu” tornou-se este invólucro de agressividade passiva, porque, antes de tudo, era retrato, imagem, textura.
Ubuntu. A palavra martelou em minha cabeça ainda durante a sessão. Repeti mil vezes para mim mesma para que decorasse e pesquisasse sobre este nome, exposição, valor, o que for. Pensei ser uma semente, uma árvore, uma cultura. Ubuntu, palavra forte. Ubuntu. “Humanidade para todos”, grafou-se.
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Negra, sua pele carrega um passado de metais. Com o sangue banhado em terra, teve a veia arrancada dos sonhos que ainda, com resistência, regava. Sua boca costurou-se com o banzo amaldiçoado. Caiu no chão da senzala onde lhe enfiaram.
Negra, a fuga lhe cegava. Só a penumbra iluminava os olhos de jabuticaba. Ouvia o canto dos tambores varrido entre os mares. A sua fome de ser já então lhe sufocava.
Negra, teu presente cabe bem no teu passado. Negam-lhe que enxergam em você a escrava, a mucamba. Não te pagam as chibatadas, não lhe pedem como ordem nada, não te tampam com tralhas nem te comparam com a desalmada?
Canta, que teu canto ainda é arma. Mostra, pois insistem em encobrir a injustiça escancarada. E luta, negra, como os anjos profanados e os deuses deserdados do passado.
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Esperava passar pela minha rua todos os dias. Quando apontava no final da curva da avenida, meu sorriso se abria. Era a hora esperada do dia em que meu pai finalmente trocava todas as caixas, caixotes e caixinhas pelas moedas que abraçariam todo aquele dia.
Como um camelo-máquina, sua lataria eram seus ossos e suas cartilagens. Tudo aquilo que os outros julgavam nada mais valer, valeria toda a corrida pelas ruas, que valeria todo o pão da manhã, ou ao menos a vontade deste.
Como um camelo-gente, sentia os músculos crescerem e definirem em um esforço intenso. Os pés dos carros arranhavam a capa de petróleo e as faíscas brilhavam por todo o percurso daquela infindável rotina.
Como um camelo-pai, não ria. Nem chorava. A prece fazia antes de sair e olhava aos céus com desconfiança e culpa, com acusações e súplicas, com respeito e afronta. E fazia o sinal da cruz.
As células, celulose. Definhava para se alimentar. A pele, amadeirada. Ventríloquo programado para nunca mudar. Desdobrou-se o caminhão de papel, nas rolagens esquecidas da paisagem.
Tags: Caminhão de Papel, Desigualdade, Humano, Máquina, Realidade, Trupe de Quinta 5trupe de quinta – caminhão de papel
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter.![]()
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Olhar pelas janelas deixou de ser algo desejado nos dias de sol. Na verdade, melhor ser debaixo de uma grande tempestade. As gotículas pregadas no vidro distorcem o que vejo além da sacada. Assim, posso me enfeitar com as mesmas promessas de liberdade que me fazem diariamente, da capacidade individual, incongestionável mesmo nesta cidade sempre parada.
Um par de cortinas. No final do mês, pagaria a última prestação. Estampada com flores que lembram o cerrado, sinto-me mais agradável trancada do lado de cá. Sou a melhor companhia para os ladrilhos tortos do mosaico da cozinha. Os tacos de madeira do escritório sentem-se mais felizes quando posso, sozinha, deslizar com um par de meias grossas.
Uma taça de vinho me transforma em imperadora. Mesmo que não tenha como nem porquê exercer qualquer poder.
Sei que essa minha particularidade me faz plural em tantos outros. Desde que não sequem esta janela, continuarei dopada dentro de meu frasco de alegria. Sei ainda que me chamam de iludida, fracassada ou estranha. Mas a ânsia de ser viva pode vir a causar uma morte quase instantânea.
Caso continuem a lamentar a minha rotina cronometrada, penso que vão em breve achar uma bela solução. Ainda não vendam na rede, mas já anunciaram hoje a tarde no programa da televisão. Creio que um mundo de gotas grossas e esparsas na vidraça seja a preferência de tantos, pois um pacote fácil pode ser comprado – onde o inimigo traça agora o acordo final. Se queres saber, quando vier a liquidação ninguém mais enxergará qualquer mal.
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