Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Quando José Saramago, para mim, era apenas um nome estampado nas capas de livros, eu achava simplesmente poética a pronúncia do nome. Dos livros, conhecia apenas as capas e os nomes, que muitas vezes me prendia a atenção nas prateleiras de livrarias e bibliotecas. Mas tardei demais o nosso encontro.
Saramago foi mesclando aos poucos os bons sentimentos que eu poderia ter de uma literatura. Era um prazer ler seus livros, que mantinha o português de sua origem, em tramas de crítica, de desconcerto, de desnudez do mundo como ele sempre fora, do homem para além do que ele parecia ser.
Foi em seus livros que reaprendi a adiar as últimas páginas, para manter as interrogações e a angústia das respostas dentro de mim, mérito que antes só um autor russo me roubara. Ali, em minha língua – nossa, melhor dizer – sentia suas páginas como por dentro da pele.
Tanto tempo se passou e uma surpresa tive um dia ao abrir a página de contatos do jornal onde trabalhei. Entre os nomes de pessoas públicas, sorria ao ler “Suassuna” e “Boal”, este que entre nós também já não está mais. Mas ficou mesmo a alegria desmedida em ver o “José Saramago”. Um número, com prefixo estrangeiro, estava ali para uma conversa profissional.
Nunca liguei para ele, nunca pude ouvir a voz doce e fraca, feroz e forte, daquele que marcou eternamente a nossa literatura. Penso apenas que, se tivesse um dia feito, talvez, assim como o próprio, devesse voltar a rever e remarcar o meu tempo em um antiquado relógio.
Tags: Despedida, José Saramago, Literatura, Saudade 3O vermelho dos olhos, após um choro da partida, tem o tom vivo escondido pelo fosco sangue. As pálpebras são molduras inchadas, infladas de nós que não conseguiram escorregar pela face. Os cílios se colam, deixam o olhar carregado, expressivo e com mais angústia aparente. É um golpe de tristeza, lágrimas e soluços.
Andar pela rua entre as árvores. O simples se torna fúnebre quando pelas costas avisto teu corpo a se despedir. Lembro quando suas rugas apareceram e quando dos seus filhos esquecera o nome. Lembro que teus cabelos brancos eram sedosos e brilhavam no final da tarde, quando passava pelo corredor da cozinha para tomar dois comprimidos contra a dor.
Jogam-lhe os últimos ramalhetes, pétalas que caem, hastes firmes, verde claro, laços em fita. Todo esse silêncio parece não caber em horas. Mas há aqui as lembranças que cortam toda a vida.
Paro um pouco de andar. Amarro um cadarço de laço desfeito. Sento por instantes na calçada. O choro que desce agora é leve, sem saber se suave ou arranhado, descem as lágrimas que em mim vejo, sinto e percebo. Sei agora em minha pele as rugas que empenho.
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