Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Balão

Postado em Contos e Crônicas em 24/11/2009
Balão

Acordei às sete horas da manhã. Ao lavar a caneca do leite quente matinal, senti uma protuberância em meu pescoço raspando em minha pele. Toquei levemente com as pontas dos meus dedos. Era mole e não doía. Larguei a caneca e fui para o banheiro. Acendi a luz embutida no espelho e vi que, no meu pescoço, tinha uma inflamação arredondada e de tom levemente vermelho, quase um rosado.

Ao subir minha mão para tocar novamente aquele caroço vazio, vi que em meu braço nascia um outro sinal de inflamação. Comecei a me preocupar com aquilo. Um caroço começou a brotar debaixo da unha do meu anelar, foi crescendo até um filete de sangue desenlaçar-se em minha mão. Minha unha descolou da pele, senti uma ardência pela perda.

Foi estranho sentir o desespero ao ver aquelas estranhas mudanças em meu corpo e, ao mesmo tempo, me portar com neutralidade e frieza com os acontecimentos. Eu, espectador de mim mesmo.

Assistia a cena de minhas pernas se inchando, a pele foi ficando mais fina, como se um plástico estivesse sendo esticado em sua completa capacidade. As veias eram desenhos rastreados em alguns contorno de pele. Meus dentes começavam a se entortar e a machucar minha gengiva, minha garganta sentia dificuldades em deixar o ar passar para que os alvéolos – estes também já em crosta de inchaço – pudessem bombear meus pulmões e corpo.

Parei de acompanhar as minhas mutações misteriosas quando minha pupila foi delicadamente substituída por uma película rosada. Inflando, minha visão foi tomada pela cegueira absoluta no último golpe da doença. Minha glote deu o suspiro final ao emperrar minhas possibilidades vitais.

Roxo, desmaiado ao chão, nada ouvia, nada sentia e nada pensava. Minhas pernas pareciam feitas de plástico quando , de súbito, comecei a esvaziar lentamente. No tapete, agora, o relógio marcava dez da manhã. Meu leite já havia se esfriado, estava atrasado para o trabalho. Liguei para o táxi.

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Poema escatológico

Postado em Contos e Crônicas em 20/08/2009
Poema

Dos novos bebês que nasciam na cidade, sentia-se o fedor de placenta apodrecida, coágulos de sangue e látex. Sim, látex. Era insuportável o cheiro de plástico, borracha, limpa-vidros que exalava de cada novo ser. E não era tão estranho que assim fosse, pois as camadas de pele não existiam, as crianças possuíam, em seu lugar, uma densa textura de balão de festa.

A única diferença é que não possuíam o bico, onde haveria de se encher mais ou de retirar um pouco do ar. Como é que funcionaria o metabolismo destas crianças novas? As peles, enrugadas e borrachentas, pareciam ter uma plasticidade maior. seria um avanço genético? Seria um sinal do fim dos tempos.

Pouco importava o motivo para as mães. Recusaram uma a uma, não seriam capaz de produzir tal anomalia. Esperavam a alta do doutor e iam para casa, como se nunca tivessem entrado naquela maternidade.

Por trás das lentes de seus óculos escuros, a única gota capaz de escorrer seria a do suor para desalojar aquele corpo estranho das entranhas de seus ventres. Nada mais.

As crianças choravam um choro fino e lépido, suas bochechas vibravam. Clamavam pelo prometido instinto maternal e todas as benesses que proviam dele. Nada, nada, nada. Ninguém socorreria seus corpos exóticos nesta noite.

Descartados, no outro dia seriam varridos pelos corredores do hospital. Caixas, seringas, merda, fralda e corpos. Agora, murchos.

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