Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Ainda não sei bem se a dor maior foi morrer ou descolar de meu corpo. Não apenas pelo costume de estar sempre enquanto matéria, mas pela ardência de descolar assim dela. No percurso da bala até minha testa, o que de fato não levou tanto tempo assim, vi que o clichê era real. Como um filme – ainda que com narrativa bem novelística – vi os momentos mais marcantes, honrados e vergonhosos de minha vida passarem em minha mente. Como ateu, pensei que só cabia agora aos vermes virem ao banquete, mas a surpresa foi ver que, enquanto o projétil perfurava minha máquina, um sopro de alma de mim saia.
Sentir-se não-matéria não deveria ser descrito, pois ironicamente só consigo recorrer a sensações materiais. Foi algo como uma perna dormente misturada com uma cãibra que ataca você no meio da piscina. Tem também uma pitada da dor de ouvido quando o avião aterrissa e um pouco de queimadura de gelo na pele. Na verdade, não tem nada disso, tem o fundo imaterial de cada detalhe que construí nesta vida.
Pensei em rir do clarão que se abriu. Achei pastelão demais aquela produção. Deveriam contratar alguém com conceitos estéticos mais inovadores. Prendi as risadas para não ofender o homem de roupa marrom escura e cordão na cintura que aparecera para me conduzir pelo vazio infinito.
A fila estava grande, o que me desanimou. Será que não teria outra forma mais conveniente e simples de, enfim, se desfazer da vida? Parecia que não. Horas de espera, minha ficha cadastral não era das piores. Era um rapaz simpático, dava bom dia para os porteiros, já plantei um Pau-Brasil no sete de setembro e doava minhas roupas antigas para o asilo da esquina. Apesar do cigarro e do álcool serem vistos com maus olhos.
O senhor disse que eu era muito desligado da minha vida espiritual. Mas que cargas d´água ele queria? Eu não enxerguei em momento nenhum algum sinal de divina fé no cotidiano. E julgava que dois mil anos seriam suficientes para uma boa administração renovada pelo filho ter melhorias contundentes. Enfim, não discuti com o velhinho. Perdoei. Ele não sabia o que dizia.
O moço disse, depois de tantos protocolos e autenticações, que eu precisava revigorar minha fé. Fé? Era engraçado até ouvir isso. Cansei. Lembrei da fumaça dos cigarros que eu desenhava em meus momentos introspectivos. Meu copo de cerveja, meu cotidiano, minha vida. Para mim, fechava a conta, passava a régua. Fiz a leve reclamação aos céus: por favor, me abençoem! O fim não é tragédia, é destino.
Tags: cotidiano, Fé, Paz, Tempo, Trupe de Quinta, Vida 3trupe de quinta – fé
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter.![]()
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