Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Na sacola de feira, listrada em azul, laranja, verde e vermelho, iam as flores colhidas bem cedinho no quintal da casa. A tesoura traçava o fio do caminho daquele jardim até as casas dos bairros nobres, felicitando as aniversariantes, agradando as amantes, recordando os mortos que ainda comovem.
Descem os pés cansados, rachados pelo calor, castigados pelo sol. Os olhos sempre para baixo, na triste atenção dada aos ladrilhos e ao suor. Cansados, pesam sobre os pés, arrastam-se ao chão.
Na feira, desfaz a sacola, expõe as pétalas, as cores, os cheiros. Os sabores do lírios, margaridas, cravos e azaleias. Vão-se as flores, vem as pratas. Teus sonhos continuam parados dentro de si.
A sacola volta vazia da feira, sem a carne, sem o arroz, sem a farinha, sem o feijão. Amanhã o café é água, o almoço é pão. Descerá mais uma vez a ladeira para a feira, e as únicas cores do dia se desmancham pela estampa e pelas flores, que ela já não percebe o cheiro. Sua única música é o compasso da respiração.
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