Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Pássaro de metal

Postado em Contos e Crônicas em 08/06/2010

Tinha algumas latas velhas jogadas ao lado do rio. Não havia ninguém comigo até onde meus olhos conseguiam ver. Era eu, o verde distante dos pastos, o rio e as latas deixadas a céu aberto, mais alguns poucos pedaços e rodas de madeira. Caminhei a manhã inteira até chegar ali, com a sede me matando e a fome de quem tinha na barriga apenas a lembrança da janta de ontem.

As latas penduradas na roda me pareciam pássaros de metal. Com o vento a passar, giravam, e as sombras voavam pela terra aquela dança circular. Era bonito, parecia até mesmo ter cor. Subia o cheiro forte da terra em pó, seca, mas mantinha o mato verdejando, acostumado com o castigo do sol.

Lavei o rosto e os braços, tirei os sapatos e entrei na água com a roupa do corpo, única que tinha comigo. Os pássaros de metal pararam de voar. As madeiras e latas do outro lado do rio me pareciam sem forma, não conseguia nada imaginar, jamais me distrairiam. Era triste, parecia restos secos de alguma flor.

Mergulhei, o suor se diluia no rio, a água gelada acalmava meu corpo. Agora ali, estirada, deixei que meu corpo fosse aos poucos levado pela leve correnteza. Quando parei de ouvir o cantar dos pássaros, fechei os olhos.

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Desisti

Postado em Contos e Crônicas em 21/11/2009
Desisti

Apesar do cheiro forte e provocante de páginas amarelas pelo tempo – o que, confesso, me atrai durante uma leitura – e apesar da chuva fina que fechava a tarde na cidade, eu não terminei de ler o livro. Não momentaneamente, eu decidi não saber o resto da história. Na verdade, acredito que desisti de ler ainda nas primeira páginas, quando já não acompanhava com muito fervor o enredo e já não sabia responder direito quem eram aqueles personagens enlaçados na trama que meu olhos, de forma despreocupada, percorriam.

Tal qual uma farpa perfurando o tecido da mão, lá está o livro na cabeceira, ainda implorando para um esforço final. Não, não irei ler. Ficarei sem jamais saber o que as estradas daquele país em desconstrução reformada irão sustentar. Também não me importa se as baleias, quando desembarcam na costa da praia, são fatiadas desesperadamente sem nem mesmo o soluço cessar. E também já não me prendem os trejeitos e estórias que o menino bastardo enuncia a cada novo capítulo. Isto agora é um passado.

Essa história desconhecida e que jamais será pontuada dentro de mim me amedronta. Será que sou assassina de um imaginário partilhado? Será que apenas mantive eles sempre intrigados? Será um crime continuar ou desistir? Posso profanar cada página sem medo de que esta terra sonâmbula possa enfim, entre seus devaneios e pesadelos, me engolir?

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Traçado

Postado em Contos e Crônicas em 28/10/2009
Traçado

Teclas, travas e traçados. Todos enfileirados. Nossa linha de montagem, nossa falta de vontade, nossa coluna é uma engrenagem. Senta, levanta, pisa e chora. Uma janela sem aurora, uma novela sem demora, uma primavera sem amoras.

Este ritmo obsoleto que pulsa novo dentro de mim. Caminho com minério na veia e sem desejos por nada abstrair. Se de vidro, ou de plástico – tanto faz, transparece. A água que vem sem sais de longe me emudece – resta algo dentro das curvas, um suspiro na carne crua. O destino é uma mulher semi-nua.

Caso, laço, caos, acaso… A fita desenrola sem descolar o ontem do amanhã. O hoje é lenda contada para as crianças todas manhãs. Tamanha seja a ordem que gritar o imperador – proclamem a verdade como a mentira sã.

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Palavras finais

Postado em Contos e Crônicas em 15/09/2009
Palavras finais

- Você vai?
- Sim.
- E volta?
- Não sei.
- O que decide?
- O talvez.
- Sou eu?
- Depende.
- Sou eu.
- Como?
- Vá.

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