Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Sobre a consistência humana

Postado em Contos e Crônicas em 20/08/2009
Consistência

A água que lavava meu rosto estava fria. Derramava a jarra de louça branca dentro da bacia. Lavava meus pés todos os dias pela manhã. Calçando a sandália de couro, percorria os degraus que desaguavam no calçado do prédio. Eu precisava muito me mudar daquele apartamento, que carregava muitas angústias e poucas alegrias. Minha boca ainda estava manchada do corante forte do vinho barato que tomava todas sextas-feiras.

Lembro que achava cedo demais, em um sábado nublado, para começar a ver as cenas esdrúxulas e, por vezes, azedas, que o mundo engarrafado dentro de uma cidade grande poderia oferecer. Via, tristemente, a cena de um homem, um senhor de idade, com cabelos curtos e grisalhos, apenas com um vestido amarelo. Ele, assim travestido, mais me parecia como uma figura ridícula de algum cabaré que estaria se desintegrando entre a luxúria e o absinto.

A boca que gritava, os lábios expansivos daquele senhor, me mostravam – como uma tela de arte clássica – que o mundo escolhia a barbárie cotidiana, muito mais confortante que a mudança constante. Já não me importava, tampouco me interessava se eles, meros transeuntes, queriam conquistar mentes e corações, queriam hastear bandeiras de verdadeiras igualdades, de fins de dominações. Eu preferia assistir ao espetáculo da desordem, em seus mais inacreditáveis esquetes diários, disponíveis e gratuitos em qualquer pedaço de calçada livre.

Aquele homem, aquele senhor de cabelos grisalhos, tampouco sabia o que gritava e nem sabia se era alguém. Dava para sentir o cheiro do álcool a uma certa distância e eu só podia afirmar que eu queria ficar longe dele, mas precisava de sua presença. Ele era a prova que meu dia poderia ser melhor do que o de alguém e que minha existência, tão insignificante e sem pretensão nenhuma de ser o reverso, estava ao menos longe das barras de um vestido que nem mesmo em um brechó se encontra, em um tom de amarelo que mais parecia doença.

Aquela cena, sem nenhuma novidade cromática, absolutamente cotidiana e perfeitamente encaixada em uma cidade que, de tantas pessoas presentes, se imergia em uma melancólica depressão, me parecia ganhar uma alma. Talvez fosse a minha, que certamente esqueci em um pedaço de asfalto descascado. Alguma alma, alguma aura, algum raio iluminava aquele momento que seria tão ridiculamente ignorado.

Já estava hipnotizada e não podia descolar as lentes dos meus olhos daquela dança, que na verdade era contorcionismo de quem não é nada neste mundo, nem si mesmo. E aquele desespero parecia me esquentar, por ser algo aparentemente humano, talvez emocional, talvez encoberto em pele quente.

O homem, o senhor que tinha a pele que parecia elástico, que se sustentava com dificuldade num resto de sobriedade que abraçava suas pernas, enrugava o rosto no desespero que era viver em um mundo intensamente incomum. Não conseguiu mergulhar em nenhum poço de justiça, não encontrou nenhum grão de dignidade, não lhe foi ofertada nenhuma sorte a seguir. Seu destino era uma sina, daquelas enfardadas de autoritarismo, cujo único mando é a debilidade.

Quanto mais aquele homem ensaiava o seu grito, que na garganta estava entalada, mais eu via o seu contorno ser vívido. Ele não gritava, pois o vazio era incapaz de emitir qualquer som. Ele não berrava, porque lhe fora proibido ter o direito de se manifestar, ele não comia, porque a carne e seus músculos precisavam se desnutrir. Para que fosse homem, precisava sumir. Era incapaz de o ser totalmente em uma plateia que era capaz de percebê-lo, mas o negava. A paleteia o via, e se forçava a esquecer, a tornar aquilo tão presente em seus arredores em uma mera, pura e simples paisagem.

Cada desprezo que ele sofria, cada pessoa que se esbarrava em seu ombro como se fosse carne podre, era suficientemente sensível para me desintegrar. Quis, por um instante, subir as escadas e voltar para casa, quis apagar as aparências estranhas, as essências dilacerantes que me furavam. Era impossível, naquela cena agora tão bela, tão ardorosamente límpida, negar o que era. Meu joelho começara a escoar, meu corpo se desfez. Eram as sensações. Condenadas sejam todas elas. Quando meus olhos escorreram pelo esgoto, me senti plenamente humana. Acho que ouvi o grito do homem. Mas não sei o que ele dizia. Ainda.

* A ilustração foi retirada do site da artista Macy Awad.

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