Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Azul, nos tons mais sublimes que aquela tela podia comportar. Era assim que se desenhavam o filme, a mensagem, os efeitos. Este azul se explodia em mais cores, em mais vidas, em mais tons dentro de Pandora. Este encanto, tal qual a caixa mitológica, verá os males despertados e apenas a esperança encravada no colo da mulher-deusa que havia todas pragas libertado. Neste redemoinho de tragédia e ambição, os olhos distantes dos espectadores se perturbam com o enredo.
Qual o ponto mais denso desta angústia que comprime as poltronas do cinema? Reconhece nos desenhos das ações dos chamados vilões a atitude mesquinha que reproduzimos incessantemente no nosso cotidiano? Seria difícil achar um exemplo de um mina que se transformou em jazidas de um povo? Seria difícil achar um pensamento que julgasse como atraso os passos de povos originários? Estaria a lua de Polifemo orbitando em algum lugar realmente distante de nossos próprios pés?
Avatar disseca um homem alienado da natureza. O filme mostra a alienação do homem pelo homem. O que todos reconheceram nos fictícios seres azuis passa despercebido por tantos atos de nossas próprias mãos. As nossas riquezas pareciam ofuscadas por uma lua tão belamente projetada por mentes humanas. A cultura deles – rica em magia, em crenças, em fé – parecia receber nossa cumplicidade por mais que o reino que criamos todo dia seja erguido em intolerância. Era como olhar pelo espelho, mas encontrar, do lado de lá, o fantástico, o extraordinário, o espantoso.
Um vazio pode preencher todas as suas veias saindo daquela caixa – a esperança pode até mesmo parecer vacilante quanto a sua firme posição. Pensar em fugir para Pandora é um novo tormento. Querer viver Pandora, uma nova vontade. A real aspiração de todos parece um uníssono: queremos viver nosso avatar. A Terra, agora, apenas apagada, abandonada em sua insignificante diversidade, em sua saturada natureza, já tão sem brilho e sem magia, parece funcionar como uma fonte que deve a todos ser capaz de levar, claro, à Pandora. Nossa terra, nosso chão, nossa história, tão alienadamente azuis, já não querem mais oxigenar neste planeta. Para esses anseios, é a frase de Quaritch que deve repousar na mente: “Como você se sente traindo a sua própria espécie?”.
Tags: Avatar, Humanidade 2
Dizem que existe uma vale esquecido cheio de paisagens e riquezas a nos dar. Uma casa branca de janelas azuis esperam alguém para hospedar. A renda estendida na mesa redonda da sala é agradável, bem fiada e macia. Uma jarro em curvas sustenta uma única rosa branca, nem completamente aberta nem toda fechada – assim, delicada.
A janela tem uma cortinha de tecido grosso, feita para enrolar entre argolas de madeira. Quando faz sol lá fora, deixe-a aberta que o vento visita docemente os corredores e brinca entre todos os cômodos. O céu, quando finda o dia, deixa o lilás e o azul se beijarem. E tudo isto é disfarçado pela primeira grande estrela-planeta que desponta no céu e convoca a presença da lua, em qualquer uma de suas mil e uma fases.
Diz que lá não se pode andar calçado. É que esqueceram, com o tempo, a textura das folhas secas em uma terra batida. O som natural que se faz quando a pele grossa da sola do pé – que nem por isso deixou de ser delicada – deita no manto seco. Penso que deve ser como o som do açúcar chacoalhando-se nos dentes.
Falaram para mim ontem sobre este lugar. Contaram-me em sonhos. Busco pela casa esquecida, perdida por entre rios e árvores, em cantos e chuvas que compõem uma orquestra de harmonia infinita. Vê, já nem consigo parar de ter os olhos perdidos em um lugar fixo qualquer, a abstrair e pensar naquele vale. Quem dera.
Tags: Desespero, Humanidade, Liberdade, Tempo 3
Como a espuma das ondas do mar. Qual sabor deve ter? Da paz que se faz quando se observa, da fúria que devasta quando menos se espera. Alguns segredos escondidos, prontos para insurgirem mais uma vez, rachar todas as naus e todos os portos que não são abertos para os sonhos passarem.
Você – tal qual a espuma do mar – esconde a força que lhe carrega com destreza. Não esconde por desejo teu, certamente. Esconde porque eles não compreendem que nunca se separou da força das ondas, nem mesmo teu corpo foi além disto, nem tua vida.
Os sais a derramar serão chamas a te lembrar. Ardem as águas ao enfrentarem as rochas. Partem as pedras que pensam lhe desafiar. Mas sabes, é bem verdade, que teu último sorriso neste banho líquido é uma promessa que os tridentes do além-mar ainda farão ressoar.
Tags: Amor, Humanidade, Liberdade, Saudade 3
“A maior prova que existe vida inteligente em outros planetas é eles ainda não terem feito contato.”
Extraído da peça Cabaret das Utopias
Acordo em um horário não muito apropriado para tomar um café não muito cafeinado. Escuto uma música mal arranjada, dou sorrisos para a vizinha mal arrumada. Desço as escadas não muito bem limpadas, reclamo do elevador nunca consertado. Atravesso a rua bem mal humorado, aperto todas as quinas do meu rosto quadrado.
Compro o pão da promoção – está semi-mofado. Frito um ovo e coloco sal, assim estará temperado. Canso das rimas dos meus pensamentos, sempre tão equivocados. Hesito, erro, tropeço – eis mais um novo predicado.
Sinto um prego atravessando a sola do meu sapato. Não levarei ao sapateiro, que me cobrará bons trocados. Olho o céu apenas uma vez, dele já estou farto. O seu cinza não me comove nem aos novos namorados.
E passa o tempo do meu dia, assim todo ritmado. Sem graça e sem poesia, é tudo encenado. Quando a noite entra, penso que é a hora adequada, para pedir ao homem da nave me fazer um alienado.
Tags: cotidiano, Humanidade, São Paulo, Tempo 3