Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Descaso

Postado em Contos e Crônicas em 09/06/2010

O arroz esquecido no fundo do saco do mercado. Talvez um pouco úmido, um pouco cinza, mal descascado. É este arroz que merece vir todos os dias ao meu prato, com ou sem feijão, com ou sem farinha, com ou sem água. É esta a parte que me cabe de todos os grãos, cereais, vísceras e mastigações.

Nem o mais vil dos seres me inveja. Não represento dano, sufoco, raiva, ódio nem amor. Não represento sua vida, seus ganhos, suas bebidas, seus vícios, seu maior desconforto diante da espera. Não sou melhor que um salto despretensioso de uma janela alta, do percurso que se faz um corpo antes de rachar a pele ao cair no chão. Não quero ver meu crânio aberto nem seus olhos fixos em mim depois de uma ou outra frase roubada de um antigo livro de canções.

Acho que cabe a mim ser a bengala que sustenta o olhar vazio do velho na praça. O que pensam os vermes antes de se esconderem nas migalhas? Eu sei que passo o dia neste silêncio, tombando nos barulhos mais inquietos que só o grave e o agudo de nossos corpos conseguem produzir.

É assim, preto e branco, foto envelhecida, resto de pinga perdida na garrafa que passa por mim. È assim mesmo, tão excessivamente péssimo, tão cheio de contrastes dispersos, com o rosto ainda marcado do lençol da cama. É exatamente assim, com o corpo dormente em febre, a parede marcada de durex, o pé da cama comido por dentes de um ou outro rato que aqui se diverte.

Sabe, exatamente por isso, por tudo isso, aprendo ao passar dos dias o que me resta de solidão e descaso. Não sei se duro até o próximo ano, mês, semana, dia. Não quero me prender entre calendários, nem astrologias. Sou o resto de todos, todos os dias.

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Vidros Escuros

Postado em Contos e Crônicas em 10/04/2010

O vestido vermelho da vitrine era a última peça e o tamanho era único. A atendente pediu para que eu experimentasse o mesmo modelo em outra cor, para não desmanchar o manequim. Sem problemas. O problema é que o tal do tamanho único, normalmente, não é o tamanho de ninguém. Ficou largo, não levei.

Saí da galeria e vi que aqueles dez minutos que passei no provador foram suficientes para começar uma fina chuva. O dia, que tinha amanhecido quase quente e com céu limpo, brincava de contrários nesta noite. As gotas eram inofensivas, ao menos.

Fui ao cinema sozinha, gesto que não acho solitário, mas desbravador. Consigo me ater nos gestos, comentários e precauções do público ao meu redor. Sabe uma coisa que sempre me incomoda? Nunca na vida saber como é que é ter aquela vida de mim tão distante – no sentido mais humano que poderia dizer.

Olho o rapaz lá na frente, parece entretido com os amigos. Nunca saberei sobre o que falavam, com que passado se carregam, com que presente se desenham. São as milhares de possibilidades que piscam em mim por alguns segundos.

Volto ao prédio e ninguém sequer me cumprimenta. Boa noite, sussurro quase que também não querendo cumprimentar. Aqui, surgem os vidros escuros. Mal se vê, nesse momento a nós mesmos.

Agora, tomo um chá de camomila com mel ao som de choro – não o das lágrimas, o da música. Eles, outros, não sei. Posso imaginar. Alguém ainda poderia, nesse momento, estar escrevendo descompromissadamente sobre o meu papel, o meu observar, o meu par de sapatos sujos na sala de cinema. Vou tomar mais chá enquanto eles me encaram em silêncio.

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Descolar

Postado em Contos e Crônicas em 05/11/2009
Descolar

Desfiou minha córnea suavemente. Era uma dança que a pinça fazia ao beliscar aquela fina película que envolvia meu olho direito. Sentia um asco quando o rapaz levantava rapidamente o lábio superior quando conseguia descamar mais um pedaço da minha córnea. Um feixe de sombra invadia impacientemente minha visão.

Na íris, injetou três gotas de ácido. Ela petrificou-se. Ardia um pouco, incomodava a sensação de sentir as suas bordas queimadas pela química. Novamente, uma pinça – agora retirando a minha pedra-íris de mim.

Ao fundo do meu globo ocular, encontrou minha retina. Perguntou se eu tinha certeza que ele poderia arrancá-la de mim. “Imediatamente”, respondi. E, em uma fração de segundo, ele a sugou. Não havia mais remédio para a falta de imagens que me encharcava.

“Continua?”. “Sim, exatamente como lhe pedi”, afirmei. Fazia três anos já que esperava aquele dia. Em uma solução perfeita, um colírio de almas secaria meus olhos das barbáries respiradas lá fora.

trupe de quinta – colírio
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter. ;)

amanda oliveiraandré pachecoelisa françaizabel pompermayerlara marxnati boaventurarafael glassrodrigo casalesvictor godoi

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Me compondo

Postado em Contos e Crônicas em 13/10/2009
Me compondo

Não lembro o nome do instrumento, nem sei definir os acordes e ritmos. Nem mesmo sei acompanhar uma música sem errar nas primeiras palavras. Eu tenho um problema com a arte em geral. As minhas pinceladas são sérias, tortas e destoantes do plano que antes eu formava com cores claras e limpas. Mas gosto de ver as molduras que guardo no meu quarto, na sala e nas paredes dos museus, nas exposições que circulam e que ainda não vi.

Devo dizer que já pensei sobre o meu estilo, as minhas letras, os meus desenhos. Eu não sei, mas creio que há algo que esvazia quanto mais eu teimo em tentar com isso me preencher.

Fuga, foi o que disse minha mãe. É a toca por onde o coelho nunca nem passou, mas que insisto em dizer que eu o vi, correndo, atrasado, adiantado, em plumas azuis e brancas – mas nem vestidos de aventais eu tenho. É tarde.

Sabe as pintas das peças de dominó? São mais inovadoras. É como ser a vareta negra e deixar se perder – perder a graça. A carta que falta ser um ás de espadas. O pino encravado na saída dos soldados verdes do ludo. Do lúdico. Do lúcido. Do lugar nenhum.

Desafino sem parecer prenda. Canto sem ser para os males – nem para o bem de ninguém. Sugar a minha criatividade diária pode ser o mesmo que construir pílulas anestésicas que não variam na forma, no conteúdo nem no diagnóstico: quatro pela manhã, três à tarde. Nenhuma à noite.

*foto retirada daqui.

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