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	<title>anacrônicas &#187; Humano</title>
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		<title>Descaso</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jun 2010 14:53:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
O arroz esquecido no fundo do saco do mercado. Talvez um pouco úmido, um pouco cinza, mal descascado. É este arroz que merece vir todos os dias ao meu prato, com ou sem feijão, com ou sem farinha, com ou sem água. É esta a parte que me cabe de todos os grãos, cereais, vísceras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Descaso.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Descaso.jpg" alt="" title="Descaso" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-573" /></a></div>
<p>O arroz esquecido no fundo do saco do mercado. Talvez um pouco úmido, um pouco cinza, mal descascado. É este arroz que merece vir todos os dias ao meu prato, com ou sem feijão, com ou sem farinha, com ou sem água. É esta a parte que me cabe de todos os grãos, cereais, vísceras e mastigações.</p>
<p>Nem o mais vil dos seres me inveja. Não represento dano, sufoco, raiva, ódio nem amor. Não represento sua vida, seus ganhos, suas bebidas, seus vícios, seu maior desconforto diante da espera. Não sou melhor que um salto despretensioso de uma janela alta, do percurso que se faz um corpo antes de rachar a pele ao cair no chão. Não quero ver meu crânio aberto nem seus olhos fixos em mim depois de uma ou outra frase roubada de um antigo livro de canções.</p>
<p>Acho que cabe a mim ser a bengala que sustenta o olhar vazio do velho na praça. O que pensam os vermes antes de se esconderem nas migalhas? Eu sei que passo o dia neste silêncio, tombando nos barulhos mais inquietos que só o grave e o agudo de nossos corpos conseguem produzir.</p>
<p>É assim, preto e branco, foto envelhecida, resto de pinga perdida na garrafa que passa por mim. È assim mesmo, tão excessivamente péssimo, tão cheio de contrastes dispersos, com o rosto ainda marcado do lençol da cama. É exatamente assim, com o corpo dormente em febre, a parede marcada de durex, o pé da cama comido por dentes de um ou outro rato que aqui se diverte.</p>
<p>Sabe, exatamente por isso, por tudo isso, aprendo ao passar dos dias o que me resta de solidão e descaso. Não sei se duro até o próximo ano, mês, semana, dia. Não quero me prender entre calendários, nem astrologias. Sou o resto de todos, todos os dias. </p>
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		<title>Vidros Escuros</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Apr 2010 01:11:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
O vestido vermelho da vitrine era a última peça e o tamanho era único. A atendente pediu para que eu experimentasse o mesmo modelo em outra cor, para não desmanchar o manequim. Sem problemas. O problema é que o tal do tamanho único, normalmente, não é o tamanho de ninguém. Ficou largo, não levei.
Saí da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/04/Vidros-Escuros.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/04/Vidros-Escuros.jpg" alt="" title="Vidros Escuros" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-409" /></a></div>
<p>O vestido vermelho da vitrine era a última peça e o tamanho era único. A atendente pediu para que eu experimentasse o mesmo modelo em outra cor, para não desmanchar o manequim. Sem problemas. O problema é que o tal do tamanho único, normalmente, não é o tamanho de ninguém. Ficou largo, não levei.</p>
<p>Saí da galeria e vi que aqueles dez minutos que passei no provador foram suficientes para começar uma fina chuva. O dia, que tinha amanhecido quase quente e com céu limpo, brincava de contrários nesta noite. As gotas eram inofensivas, ao menos.</p>
<p>Fui ao cinema sozinha, gesto que não acho solitário, mas desbravador. Consigo me ater nos gestos, comentários e precauções do público ao meu redor. Sabe uma coisa que sempre me incomoda? Nunca na vida saber como é que é ter aquela vida de mim tão distante &#8211; no sentido mais humano que poderia dizer.</p>
<p>Olho o rapaz lá na frente, parece entretido com os amigos. Nunca saberei sobre o que falavam, com que passado se carregam, com que presente se desenham. São as milhares de possibilidades que piscam em mim por alguns segundos.</p>
<p>Volto ao prédio e ninguém sequer me cumprimenta. Boa noite, sussurro quase que também não querendo cumprimentar. Aqui, surgem os vidros escuros. Mal se vê, nesse momento a nós mesmos.</p>
<p>Agora, tomo um chá de camomila com mel ao som de choro &#8211; não o das lágrimas, o da música. Eles, outros, não sei. Posso imaginar. Alguém ainda poderia, nesse momento, estar escrevendo descompromissadamente sobre o meu papel, o meu observar, o meu par de sapatos sujos na sala de cinema. Vou tomar mais chá enquanto eles me encaram em silêncio.</p>
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		<title>Descolar</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Nov 2009 22:18:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Desespero]]></category>
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		<category><![CDATA[Trupe de Quinta]]></category>

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		<description><![CDATA[
Desfiou minha córnea suavemente. Era uma dança que a pinça fazia ao beliscar aquela fina película que envolvia meu olho direito. Sentia um asco quando o rapaz levantava rapidamente o lábio superior quando conseguia descamar mais um pedaço da minha córnea. Um feixe de sombra invadia impacientemente minha visão.
Na íris, injetou três gotas de ácido. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/11/Descolar.jpg" alt="Descolar" title="Descolar" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-282" /></div>
<p>Desfiou minha córnea suavemente. Era uma dança que a pinça fazia ao beliscar aquela fina película que envolvia meu olho direito. Sentia um asco quando o rapaz levantava rapidamente o lábio superior quando conseguia descamar mais um pedaço da minha córnea. Um feixe de sombra invadia impacientemente minha visão.</p>
<p>Na íris, injetou três gotas de ácido. Ela petrificou-se. Ardia um pouco, incomodava a sensação de sentir as suas bordas queimadas pela química. Novamente, uma pinça &#8211; agora retirando a minha pedra-íris de mim.</p>
<p>Ao fundo do meu globo ocular, encontrou minha retina. Perguntou se eu tinha certeza que ele poderia arrancá-la de mim. &#8220;Imediatamente&#8221;, respondi. E, em uma fração de segundo, ele a sugou. Não havia mais remédio para a falta de imagens que me encharcava.</p>
<p>&#8220;Continua?&#8221;. &#8220;Sim, exatamente como lhe pedi&#8221;, afirmei. Fazia três anos já que esperava aquele dia. Em uma solução perfeita, um colírio de almas secaria meus olhos das barbáries respiradas lá fora.</p>
<blockquote><p><strong>trupe de quinta &#8211; colírio</strong><br />
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no <a href="http://www.twitter.com/trupedequinta">twitter</a>. <img src='http://anacronicas.com.br/blog/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><a href="http://amandaoliveira.wordpress.com/">amanda oliveira</a> • <a href="http://eu-quero-saber.blogspot.com/">andré pacheco</a> • <a href="http://elisafranca.wordpress.com/">elisa frança</a> • <a href="http://www.flickr.com/photos/belpompermayer">izabel pompermayer</a> • <a href="http://laramarx.wordpress.com">lara marx</a> • <a href="http://elementarmeucaroblog.wordpress.com/">nati boaventura</a> • <a href="http://www.diarioinbordo.blogspot.com/">rafael glass</a> • <a href="http://faixademobius.blogspot.com">rodrigo casales</a> • <a href="http://naoestasendofacil.wordpress.com ">victor godoi</a></p></blockquote>
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		<title>Me compondo</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/10/me-compondo/</link>
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		<pubDate>Wed, 14 Oct 2009 00:03:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Música]]></category>

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Não lembro o nome do instrumento, nem sei definir os acordes e ritmos. Nem mesmo sei acompanhar uma música sem errar nas primeiras palavras. Eu tenho um problema com a arte em geral. As minhas pinceladas são sérias, tortas e destoantes do plano que antes eu formava com cores claras e limpas. Mas gosto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/10/Me-compondo.jpg" alt="Me compondo" title="Me compondo" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-242" /></div>
<p>Não lembro o nome do instrumento, nem sei definir os acordes e ritmos. Nem mesmo sei acompanhar uma música sem errar nas primeiras palavras. Eu tenho um problema com a arte em geral. As minhas pinceladas são sérias, tortas e destoantes do plano que antes eu formava com cores claras e limpas. Mas gosto de ver as molduras que guardo no meu quarto, na sala e nas paredes dos museus, nas exposições que circulam e que ainda não vi.</p>
<p>Devo dizer que já pensei sobre o meu estilo, as minhas letras, os meus desenhos. Eu não sei, mas creio que há algo que esvazia quanto mais eu teimo em tentar com isso me preencher.</p>
<p>Fuga, foi o que disse minha mãe. É a toca por onde o coelho nunca nem passou, mas que insisto em dizer que eu o vi, correndo, atrasado, adiantado, em plumas azuis e brancas – mas nem vestidos de aventais eu tenho. É tarde.</p>
<p>Sabe as pintas das peças de dominó? São mais inovadoras. É como ser a vareta negra e deixar se perder – perder a graça. A carta que falta ser um ás de espadas. O pino encravado na saída dos soldados verdes do ludo. Do lúdico. Do lúcido. Do lugar nenhum.</p>
<p>Desafino sem parecer prenda. Canto sem ser para os males – nem para o bem de ninguém. Sugar a minha criatividade diária pode ser o mesmo que construir pílulas anestésicas que não variam na forma, no conteúdo nem no diagnóstico: quatro pela manhã, três à tarde. Nenhuma à noite.</p>
<p><em>*foto retirada <a href="http://www.dakotaridgegallery.com/pierrotmen/pages/n6.htm">daqui</a>.</em></p>
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		<title>Fim da Tarde</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Oct 2009 15:26:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Eu trabalho para os cegos. É pelo motivo óbvio. Não quero trabalhar para quem me veja. Assim, deixo de lado as censuras, as estampas, as estruturas. Espero que não lhe incomode que eu diga isto tudo agora, neste final de tarde, assim de supetão. Na verdade, é que este seu par de olhos ativos me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/10/fimdatarde.jpg" alt="Fim da Tarde" title="Fim da Tarde" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-231" /></div>
<p>Eu trabalho para os cegos. É pelo motivo óbvio. Não quero trabalhar para quem me veja. Assim, deixo de lado as censuras, as estampas, as estruturas. Espero que não lhe incomode que eu diga isto tudo agora, neste final de tarde, assim de supetão. Na verdade, é que este seu par de olhos ativos me faz querer contar destas coisas.</p>
<p>A outra parte, tem razão, ela existe. Sou textura, sou pele, sou calor. Esta sensação me inova em cada instante. E me renova dentro de mim mesmo. Mas não é este banho de sentimentos escondidos que mais me apetece, você bem sabe. Creio que sou bem sólido e gélido, isso talvez não se perceba nem entre os que nunca enxergam.</p>
<p>Sabe, seus olhos assim me parecem meio cruéis. Eles ficam me perguntando tudo. E eu fico tentando responder tudo. Gosto de ser um vão. Um vão negro que passa, um vão vazio que toca. </p>
<p>Também acho que não deveria estar falando isto tudo com você agora. Faz quanto tempo mesmo que não nos vemos? Eu vou pedir outro capuccino. </p>
<p>Mas é mais ou menos isso, compreende? Não, eu sei que não. Estou meio perdido dentro dessas luzes diárias. Inusitado? Não, foi apenas uma sinceridade. Desculpe, não deveria ter tocado neste assunto. </p>
<p>Esqueça. A toalha da mesa quadriculada me apetece. Lembra a da casa do campo, não é mesmo? Mas prefiro mesas de madeira às de vidro. Você sabe. Enfim, esqueça-me. Eu lhe disse, eu trabalho com cegos. Eles estão por perto.</p>
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		<title>Ela</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Sep 2009 20:12:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Esqueceu de desligar a luz ao sair de casa. Só fazia isto quando o desespero a tomava. O som dos passos firmes chocava-se nas paredes, ruindo a calma e harmonia que podiam sustentar. Apertou o botão do elevador. Levou a mão até a boca. Descascou o esmalte e roeu insistentemente a mesma unha.
“Boa tarde”, desejou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/09/Maos.jpg" alt="Ela" title="Ela" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-208" /></div>
<p>Esqueceu de desligar a luz ao sair de casa. Só fazia isto quando o desespero a tomava. O som dos passos firmes chocava-se nas paredes, ruindo a calma e harmonia que podiam sustentar. Apertou o botão do elevador. Levou a mão até a boca. Descascou o esmalte e roeu insistentemente a mesma unha.</p>
<p>“Boa tarde”, desejou ao senhor que já estava no elevador. Apertou o térreo. Três, quatro passos. Parou. Ia chover. Voltou correndo pelas escadas. Seis, sete lances de escadas. Abriu a porta, irritou-se com as lâmpadas acesas. Pegou o guarda-chuva, desligou o interruptor, uma, duas voltas de chave na porta.</p>
<p>No térreo, os passos firmaram-se mais. Protegeu-se da chuva, caminhou pelos quarteirões. Chamou o táxi. “Parque da cidade”, disse. “Se é que ainda fazem parques nas cidades”, sussurrou para si. Notas, moedas, trocados. Sapatos encharcados.</p>
<p>Sozinha, entre as copas de árvores, entre as damas de ouros, chorou. Dezoito, dezenove, vinte lágrimas. Escorria tanto de si por entre o sal e a água. Perfurava tanto de si as gotas densas que já a molhavam. Afundou-se no instante. Prendeu a respiração. Três, dois, um. Voltou a respirar.</p>
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		<title>Negra</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Sep 2009 00:25:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Desigualdade]]></category>
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		<description><![CDATA[
Negra, sua pele carrega um passado de metais. Com o sangue banhado em terra, teve a veia arrancada dos sonhos que ainda, com resistência, regava. Sua boca costurou-se com o banzo amaldiçoado. Caiu no chão da senzala onde lhe enfiaram.
Negra, a fuga lhe cegava. Só a penumbra iluminava os olhos de jabuticaba. Ouvia o canto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/09/negra.jpg" alt="Negra" title="Negra" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-196" /></div>
<p>Negra, sua pele carrega um passado de metais. Com o sangue banhado em terra, teve a veia arrancada dos sonhos que ainda, com resistência, regava. Sua boca costurou-se com o banzo amaldiçoado. Caiu no chão da senzala onde lhe enfiaram.</p>
<p>Negra, a fuga lhe cegava. Só a penumbra iluminava os olhos de jabuticaba. Ouvia o canto dos tambores varrido entre os mares. A sua fome de ser já então lhe sufocava.</p>
<p>Negra, teu presente cabe bem no teu passado. Negam-lhe que enxergam em você a escrava, a mucamba. Não te pagam as chibatadas, não lhe pedem como ordem nada, não te tampam com tralhas nem te comparam com a desalmada?</p>
<p>Canta, que teu canto ainda é arma. Mostra, pois insistem em encobrir a injustiça escancarada. E luta, negra, como os anjos profanados e os deuses deserdados do passado.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Arquétipo</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/09/arquetipo/</link>
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		<pubDate>Fri, 11 Sep 2009 17:46:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Falsidade]]></category>
		<category><![CDATA[Humano]]></category>
		<category><![CDATA[Liberdade]]></category>
		<category><![CDATA[Moldes]]></category>

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		<description><![CDATA[
Um ventre estéril. Mãos secas. Não sente o áspero no choro do seu irmão? Braços galvanizados para ajudar. Olhos blindados contra tamanha distorção. Nessas veias de asfalto são derramados os sangues daqueles que sustentam a fartura, que ignoram o grito dos seus pilares. A doença do egoísmo rasga as rachaduras de suas fracas percepções.
Essa ácida [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/09/Arquétipo.jpg" alt="Arquétipo" title="Arquétipo" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-152" /></div>
<p>Um ventre estéril. Mãos secas. Não sente o áspero no choro do seu irmão? Braços galvanizados para ajudar. Olhos blindados contra tamanha distorção. Nessas veias de asfalto são derramados os sangues daqueles que sustentam a fartura, que ignoram o grito dos seus pilares. A doença do egoísmo rasga as rachaduras de suas fracas percepções.</p>
<p>Essa ácida escada que separa a identidade, impõe vírgulas ritmadas, segrega o todo, desfaz a união. Esses conceitos rudes, encaixotam por gênero, separam por cor, delimitam os escravos dos cifrões. Quebrar as paredes que sabem se sustentar em tanta contradição, apenas com martelos fortes de consciência – ter o ser humano em sua maior concepção.</p>
<p>Entender-se enquanto um, mas sendo único. Respeitar o plural da unidade. Ser construtor e construído dentro da maior rede de humanidade. A sua pele é continuação da minha, retalhos cortados que se alinhavam pelos sentidos, mas se desfazem pelas incongruências. Encoberta o mundo frio, insípidos dias que nevam nos ombros dos esquecidos.</p>
<p>Onde enterraram nossos valores? Fincam os pêsames em nossas esperanças. A falta que não se enche de signos, palavras, tons. O vão que não se alimenta de promessas, pena, desvios. Mostrar o avesso do veludo, o cortante fio que se esconde por trás de tanta ostentação. A beleza de uma pedra vale a vida de uma criança? O sabor doce perdido aos que rezam pelo estômago.</p>
<p>Perder esse falso discurso. Perder a subserviência ao material. Perder o incômodo comodismo frente aos monótonos monólogos. Queimar os nós dessas vendas, centelha da mudança, faísca de determinação. Cravar a disputa pelo igual, desfazer essa injustificável escassez. Descobrir que nesse embate não há colocação final, sem a ganância por títulos ou prêmios de metal.</p>
<p>(esse texto não é novo nem inédito. foi do concurso de 2007. tem ele <a href="http://unesdoc.unesco.org/images/0015/001576/157625m.pdf">aqui, ó</a>.)</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O homem que virou papel</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/09/o-homem-que-virou-papel/</link>
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		<pubDate>Thu, 10 Sep 2009 13:23:24 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Caminhão de Papel]]></category>
		<category><![CDATA[Desigualdade]]></category>
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		<category><![CDATA[Trupe de Quinta]]></category>

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Esperava passar pela minha rua todos os dias. Quando apontava no final da curva da avenida, meu sorriso se abria. Era a hora esperada do dia em que meu pai finalmente trocava todas as caixas, caixotes e caixinhas pelas moedas que abraçariam todo aquele dia.
Como um camelo-máquina, sua lataria eram seus ossos e suas cartilagens. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/09/O-homem-que-virou-papel.jpg" alt="O homem que virou papel" title="O homem que virou papel" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-133" /></div>
<p>Esperava passar pela minha rua todos os dias. Quando apontava no final da curva da avenida, meu sorriso se abria. Era a hora esperada do dia em que meu pai finalmente trocava todas as caixas, caixotes e caixinhas pelas moedas que abraçariam todo aquele dia.</p>
<p>Como um camelo-máquina, sua lataria eram seus ossos e suas cartilagens. Tudo aquilo que os outros julgavam nada mais valer, valeria toda a corrida pelas ruas, que valeria todo o pão da manhã, ou ao menos a vontade deste.</p>
<p>Como um camelo-gente, sentia os músculos crescerem e definirem em um esforço intenso. Os pés dos carros arranhavam a capa de petróleo e as faíscas brilhavam por todo o percurso daquela infindável rotina.</p>
<p>Como um camelo-pai, não ria. Nem chorava. A prece fazia antes de sair e olhava aos céus com desconfiança e culpa, com acusações e súplicas, com respeito e afronta. E fazia o sinal da cruz.</p>
<p>As células, celulose. Definhava para se alimentar. A pele, amadeirada. Ventríloquo programado para nunca mudar. Desdobrou-se o <strong>caminhão de papel</strong>, nas rolagens esquecidas da paisagem.</p>
<blockquote>
<p><strong>trupe de quinta &#8211; caminhão de papel</strong><br />
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no <a href="http://www.twitter.com/trupedequinta">twitter</a>. <img src='http://anacronicas.com.br/blog/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><a href="http://amandaoliveira.wordpress.com/">amanda oliveira</a> • <a href="http://eu-quero-saber.blogspot.com/">andré pacheco</a> • <a href="http://www.flickr.com/photos/belpompermayer">izabel pompermayer</a> • <a href="http://laramarx.wordpress.com">lara marx</a> • <a href="http://elementarmeucaroblog.wordpress.com/">nati boaventura</a> • <a href="http://www.diarioinbordo.blogspot.com/">rafael glass</a> • <a href="http://faixademobius.blogspot.com">rodrigo casales</a> • <a href="http://naoestasendofacil.wordpress.com ">victor godoi</a></p></blockquote>
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		<title>Na garganta</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 02:51:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Excêntrico]]></category>
		<category><![CDATA[Humano]]></category>
		<category><![CDATA[Intimidação]]></category>
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Eu tinha que sair daquela cidade. O ar era muito carregado e a poluição fazia com que eu tivesse fortes crises de tosses. Não, as tosses não me incomodam. O que me deixa angustiada são as rolhas. Sim, é que cada vez que eu tossia, uma rolha crespa atravessava minha garganta e eu a cuspia. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/08/cortica.jpg" alt="Na garganta" title="Na garganta" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-118" /></div>
<p>Eu tinha que sair daquela cidade. O ar era muito carregado e a poluição fazia com que eu tivesse fortes crises de tosses. Não, as tosses não me incomodam. O que me deixa angustiada são as rolhas. Sim, é que cada vez que eu tossia, uma rolha crespa atravessava minha garganta e eu a cuspia. O ardor dela arranhando meu tudo digestivo também não me feria, mas era muito insuportável ver que as pessoas se aterrorizavam pelo simples fato de eu expelir uma mísera rolha de cortiça quando tossia.</p>
<p>Não era convencional, bem sei. Mas também nem era tão raro assim. Um tio do primo do irmão de um amigo da minha sobrinha tinha o mesmo mal, se não me engano. E a filha da cozinheira da patroa do vizinho do andar de cima da minha costureira tinha algo ainda mais vergonhoso, penso eu – cada tosse significava um bolha de sabão. O pior que era sabão de má qualidade, amargava mais a boca e tinha mais produtos químicos de baixa qualidade. Não tinha absolutamente nenhum glamour.</p>
<p>Quando o ar ficava carregado, chegava a extrair umas quinze rolhas por dia. Meu recorde foi completar mais de cinco dezenas em um dia. Coleciono as rolhas, escrevo a data da tosse e o horário. Não é para trazer sorte, pois não acredito nessas crendices. É apenas uma mania, como todo mundo tem.</p>
<p>Quando as rolhas completam um ano, jogo fora. Sinto uma certa melancolia, uma saudade daquela cor marrom e bege, que se misturam naquele cilindro tão clássico.</p>
<p>Uso um lenço, sempre um lenço para envolver minha boca no soluço. Mas não é suficiente. Eles percebem. E quando eles me olham, me acusam. E quando me acusam, me entristecem. E minhas rolhas deixam de ser parte de mim e me serram em pedaços.</p>
<p>Hoje, já tossi doze. Amanhã, segundo a previsão de tempo, devo tossir catorze. Eles me olham, eles não gostam, eles me desafiam com tanta repressão calada escancarada. E, pior, eles também tossem. Tossem o tempo todo a tosse. Tossem apenas a tosse. E não se envergonham de tão nefasto gesto.</p>
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