Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Quando morava em Minas Gerais, uma vez alguém me perguntou como era a saudade que eu sentia da Bahia. O engraçado é que um dia antes da pergunta eu tinha pensado sobre o assunto. É que eu estava a caminhar na beira da lagoa da universidade e comecei a sentir um leve cheiro de mar no ar. Sorri como quem não quer admitir que está sentindo a falta de algo que deixou pra trás. Era o cheiro de tantas manhãs que vivi em Salvador.
- São três sensações que sinto que me fazem perceber que estou com saudades.
- Quais sensações?
- O cheiro de mar, que aqui ainda sinto, apesar de saber que vem da memória e não das águas e do ar. O cheiro da minha colcha de cama, marrom com pequenas estampas, em par com a da minha irmã. E o cheiro – e textura – das mãos da minha mãe, leves com o hidratante barato e cheiroso que ela sempre tinha na pia do banheiro.
- São só cheiros, então?
- Sim… e não. Cheiros e também textura que são apenas uma ilustração daquilo tudo que me pertence, apesar de longe hoje…
Hoje, sinto o cheiro do mar com frequência. A colcha da minha cama já não está mais aqui, nem mesmo a minha cama de madeira, a escrivaninha com prateleiras onde passava a tarde a estudar para as provas do colégio. Minha mãe viajou, mas mesmo quando chegar, não sei se terá tempo para ficar abraçada comigo. E ela trocou a marca do hidratante. Mas acho que não era bem isso que importava.
Tags: Bahia, Diálogo, Infância, Lembranças, Mãe, Salvador, Saudade 4Eu morava em uma cidade do interior, quando ainda bem cedo o único movimento da rua era uma moto com frascos de vidro em um compartimento acoplado. Os frascos guardavam o leite. Não sei de onde vinha, mas sempre esperava o leiteiro passar porque eu pegava carona na garupa até o final da rua e voltava correndo. Diversão de criança é feita com coisa pouca.
Ainda naquela cidade, vivi a espera na rua por outro carro. Agora era o gás de cozinha, com uma música melosa e enjoativa, a gente escutava e sabia no ato que era o carro do gás. Eram essas as passagens nas ruas dos meus dias ali. Então eu me mudei para a capital.
No bairro residencial bem longe do centro, achava divertido como o rapaz do carro que circulava nas tardes das quartas anunciava o camarão pistola. Minha mãe nunca comprou o camarão que ele vendia, mas lembro perfeitamente de como eram as palavras, a entonação, e até mesmo o carro.
Tinha ainda o carro da pamonha. Fresquinha e saborosa, dizia a musiquinha. Essa eu também nunca experimentei. Preferia o São João chegar com os milhos colhidos da roça e a pamonha feita pela minha mãe. Doces e salgadas.
O mais peculiar de todos, para mim, é o vendedor de taboca. Taboca é uma casquinha doce oca, vendida em forma de cilindros. Ela é guardada em uma lata de metal azul, levada como se fosse uma mochila pelo vendedor, que em momento algum anuncia a mercadoria. Ele sempre está com um triângulo e toca o mesmo ritmo de todos os dias. Quem vem de fora não tem ideia do que é aquilo, mas para quem vive aqui, não há razão para explicações.
E sempre foi assim pelas ruas que morei. Panos de prato, sacos de laranjas, cana de açúcar cortada em uma bacia, amendoim cozido, polpas de fruta, detergentes feitos em casa… Mas hoje, confesso, ouvir o anúncio novo da rua me deixou surpresa.
Passou o carro com a voz anunciando. Era um concurso público que acabara de anunciar o edital. O produto a ser vendido eram as aulas preparatórias para o concurso. Sei que o choque pode ter sido desproporcional, não era um erro que eu encontrava ali, era apenas a saudade dos fracos de leite, talvez.
Tags: Infância, Lembranças, Ruas, Saudade 5As decepções de quando somos crianças são pinceladas de humor quando nossas lembranças, subitamente, voltam à mente. Estava sentada no banco de uma avenida esperando uma amiga chegar. Foi nesse instante que, sem motivo nenhum para tal recordação, lembrei de um álbum de folhas plásticas, daqueles de guardar papel de carta, que ganhei quando bem pequena.
Era vermelho, revestido em um plástico macio, bem gostoso de passar a mão. Eu, porém, tinha pouquíssimos papéis de carta, a maioria dada por amigas que compravam dezenas repetidas para depois trocar no pátio da escola. Para mim, os papéis decorados eram lindos, sim, porém caros.
Mas o meu álbum, presente de uma tia, era lindo e eu o guardava com afeto. Lembro que quis recortar o desenho da capa dele para ter sempre comigo. Ao fundo do desenho feito pela tesoura, tamanha tristeza, estava um papelão áspero e sem graça, o menos infantil que podemos pensar.
Na minha ingenuidade – a tal idiotez da meninice – era impossível estragar aquele álbum, e retirar o desenho da capa era apenas uma possibilidade de toda sua beleza. Rejeitei o álbum, não guardei meu recorte, fiquei com a imagem do papelão azedo em minha cabeça. Nunca colecionei papéis de carta.
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