Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Cópia da cópia da cópia …

Postado em Aninha em 23/07/2010

Sempre que tenho insônia, sinto que o Edward Norton está ao meu lado com um feixe de luz de máquina de xerox passando lentamente. É como se ele sussurrasse para mim: “Everything is a copy of a copy of a copy.” Hoje foi mais um dia desses, cujo atraso do sono não consegui tirar no decorrer do tempo e que, portanto, mal tive atenção para ler os livros que estão empilhados na escrivaninha. Só consegui ler literatura e mesmo assim com dificuldade. No mais, preparar um chá e ver televisão.

Já são raros os momentos que me coloco no sofá da sala com o controle remoto a buscar alguma programação útil. Pior ainda se levar em conta que tenho acesso apenas aos canais abertos. Consegui prestar atenção no primeiro bloco da novela, mas a chamada no intervalo me deixou constrangida.

A matéria que ia veicular em um programa local, matéria essa ali anunciada para chamar a atenção de toda pessoa que teve a bondade de assistir a mais um capítulo previsível de uma novela brasileira, teve a ousadia de me dizer que iria discorrer sobre o bazar entre amigas. Claro que eu não tenho nada contra bazar, muito menos se feito na companhia de quem você tem confiança, mas o argumento que sustentava o sucesso dessa prática foi tão… medieval.

Penso se sou esquisita demais ao estranhar que o jornalista queira chamar minha atenção dizendo que o bazar entre amigas é ótimo não pelas trocas e conversas, pelos momentos de amigas, mas sim porque você, caríssima mulher, arranja uma tarefa para fazer no domingo a tarde, horário sagrado do futebol do seu marido. Na hora, me senti nas mãos do jornalista assim como uma peça quadrada na mão de uma criança que esperneia na tentativa de fazer passá-la pela cavidade dos objetos triangulares.

De fato, poderia ter sido mais pré-histórica essa visão do relacionamento conjugal. Poderia ser uma receita de algum petisco para a doméstica afetiva do marido poder servi-lo com maior graciosidade nos intervalos dos jogos. Mas independente do grau jurássico de tais possibilidades, o que deixa sem palavras é pensar em que tipo de relacionamento se estabelece a partir de tais premissas? O cotidiano impregnado de gordura da cozinha. Ânsias.

Não apenas esses estereótipos, que são os desenhos mal feitos e desengonçados da pior parte de cada um, como todos os outros jogos que alimentam tal distúrbio deveriam ir para a inquisição (já que é para recuar no tempo, que seja bem feito!). Junto com todos os kits de panelas para crianças, contos de fada melancólicos e romantismos de receitas. Todos derretidos, tornando-se aos poucos sabão em barra.

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