Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Uma vez, em um conversa sobre literatura, conversávamos sobre alguns contos de Borges. Lembro que alguém me recomendou o “Emma Zunz”. O meu marcador de texto da antologia pessoal dele, coincidência ou não, estava descansando exatamente na página inicial de tal conto. Semana retrasada relembrei daquela prosa pós-reunião.
Lembrava que havia outra jornalista na mesa e que era responsável pela revisão de uma revista e de um jornal. E com muito gosto pelo serviço, vai entender. Foi quando um amigo começou a contar a história de um livro.
Muito me interessou. Era baseada na intrigante busca de um homem por todos os nomes do mundo, numa exatidão de definições que o levava a este vício incansável de nomear, arquivar, organizar todos, todos e todos os nomes. Lembro que ele me disse que o livro se chamava “Todos os nomes”, de José Saramago.
Achei o livro facilmente, visto que com a recente morte do escritor todas as livrarias reservaram um pedacinho para expor sua obra. E lá estava “Todos os nomes”. Mas a história que o tal amigo me contou foi apresentada em outro livro. A surpresa, porém, valeu toda a viagem literária.
“Todos os nomes” é mais um dos livros em que Saramago pede licença para abusar da maestria. O personagem principal, único a ser nomeado na história, é o Sr. José. Ele está ancorado na burocracia da Conservatória Geral do Registro Civil. Anos e anos de trabalho, de vida modesta, de cotidiano, até se colocar uma distração de colecionar os dados de pessoas famosas. O descuido de pegar, por engano, a ficha de uma anônima qualquer, porém, consegue ir fatiando a história em momentos de metáforas, de labirintos, de busca, onde podemos aos poucos nos transpor para a obra.
Não foi a história que eu procurei, mas foi a que eu encontrei. E enquanto sigo sem saber qual era o título real da história a mim indicada, fico com o deslumbre da surpresa de Saramago.
* A imagem no topo do post é de Escher. Surpresa boa saber que nas edições antigas era ele que ilustrava a capa de tal livro!
Tags: José Saramago, Livros, Todos os nomes 2Quando José Saramago, para mim, era apenas um nome estampado nas capas de livros, eu achava simplesmente poética a pronúncia do nome. Dos livros, conhecia apenas as capas e os nomes, que muitas vezes me prendia a atenção nas prateleiras de livrarias e bibliotecas. Mas tardei demais o nosso encontro.
Saramago foi mesclando aos poucos os bons sentimentos que eu poderia ter de uma literatura. Era um prazer ler seus livros, que mantinha o português de sua origem, em tramas de crítica, de desconcerto, de desnudez do mundo como ele sempre fora, do homem para além do que ele parecia ser.
Foi em seus livros que reaprendi a adiar as últimas páginas, para manter as interrogações e a angústia das respostas dentro de mim, mérito que antes só um autor russo me roubara. Ali, em minha língua – nossa, melhor dizer – sentia suas páginas como por dentro da pele.
Tanto tempo se passou e uma surpresa tive um dia ao abrir a página de contatos do jornal onde trabalhei. Entre os nomes de pessoas públicas, sorria ao ler “Suassuna” e “Boal”, este que entre nós também já não está mais. Mas ficou mesmo a alegria desmedida em ver o “José Saramago”. Um número, com prefixo estrangeiro, estava ali para uma conversa profissional.
Nunca liguei para ele, nunca pude ouvir a voz doce e fraca, feroz e forte, daquele que marcou eternamente a nossa literatura. Penso apenas que, se tivesse um dia feito, talvez, assim como o próprio, devesse voltar a rever e remarcar o meu tempo em um antiquado relógio.
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