Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Taí uma coisa que sempre incomodou a todos. Nada mais tacanho que viver de comparações. Foi por comparar tanto os sonhos seus com os dos vizinhos que muita gente viveu os passos alheios. Foi por pensar que os sonhos seus eram perfeitos e deveriam seguir em seus filhos que secou sonho a sonho daquele que a obedeceu. Foi por comparar em excessos que viveu em misérias.
Ao escrever um texto qualquer, vão indagar sobre as pitadas de Borges que você imprimiu ao texto. O tom melancólico, em sua mente, teve inspiração na Espanca. Se ideológico (engula este seu conceito morno no jantar, mas não compartilhe comigo), me recordará Saramago. E se queres bem saber, não sei de cor nem os nomes nem os traços das personalidades dos tantos Pessoa.
Bem queria que não me contassem suas vidas, que não dividissem suas vitórias, suas maiores conquistas. Mas não pense que por isso me divertiria ao ouvir seus fracassos, sua ruína. O problema é que todos os fatos já vem antemão regados de uma receita prescrita que só e apenas só me cabe seguir.
A sua pressa em me ver igual aqueles que estão agora sentados à frente da TV, esperando o próximo voo, sorrindo sem motivo enquanto conversa na sala de estar (pouco me importa a situação) apenas me prende na inércia de sentir o meu corpo lento para rebater essa perdição. O que falta em uns, é o ouro de tantos, não vê? E aquilo que ele promete ser o que me maltrata, é o outro que tanto quer.
Antes que caia nos seus “ismos”, que me enquadro na sua escala, peço apenas por um minuto sua atenção. Quero que pense que agora mesmo tem uma menina correndo numa praia, aos doze anos de idade, cabelos em cachos soltos e uma gaita na mão. Saiba que, se não for com ela, não me abalará com nenhuma dessas suas insossas comparações.
Tags: Comparação, Liberdade 2Nasci no centro de um labirinto todo feito de paredes naturais, as chamadas cercas vivas. Tão densas, nunca consegui achar uma fenda que me permitisse bisbilhotar o corredor ao lado. A saída era a busca incessante dos meus passos, dia a dia. Passava a maior parte do meu dia tentando me localizar e me manter ciente dos caminhos errados e das chances que ainda tinha.
A altura das paredes dos corredores não permitia que eu espionasse o desenho do labirinto de maneira alguma, isso era um incômodo que aumentava a dificuldade de minha saída, minha suposta liberdade, meu gesto de fuga daquele viver tão estranho, tão cativeiro, tão surreal.
Gestos de desespero me visitavam, a tentativa de perfurar aquelas folhas e caules, de queimar tudo que me cercava, de romper com esse trato subentendido de que eu deveria chegar ao final de algum daqueles corredores. E se esse labirinto sequer tivesse fim? E se seu ponto de partida fosse o desejo de conquista daqueles que eu encontraria lá fora? Aliás, quem eu encontrarei lá fora, afinal?
Seguia o instinto de sair, simplesmente sair. Sem querer questionar muito os motivos de minhas manhãs dormentes entre os corredores que mais pareciam correntes, mantinha a minha busca. Era apenas isso que me alimentava para continuar ali, saber inventar que algum dia aquilo tudo poderia ser parte de um passado, chave de uma resposta, ponto de partida de um outro fim.
Tags: Excêntrico, Labirinto, Liberdade 3Tinha algumas latas velhas jogadas ao lado do rio. Não havia ninguém comigo até onde meus olhos conseguiam ver. Era eu, o verde distante dos pastos, o rio e as latas deixadas a céu aberto, mais alguns poucos pedaços e rodas de madeira. Caminhei a manhã inteira até chegar ali, com a sede me matando e a fome de quem tinha na barriga apenas a lembrança da janta de ontem.
As latas penduradas na roda me pareciam pássaros de metal. Com o vento a passar, giravam, e as sombras voavam pela terra aquela dança circular. Era bonito, parecia até mesmo ter cor. Subia o cheiro forte da terra em pó, seca, mas mantinha o mato verdejando, acostumado com o castigo do sol.
Lavei o rosto e os braços, tirei os sapatos e entrei na água com a roupa do corpo, única que tinha comigo. Os pássaros de metal pararam de voar. As madeiras e latas do outro lado do rio me pareciam sem forma, não conseguia nada imaginar, jamais me distrairiam. Era triste, parecia restos secos de alguma flor.
Mergulhei, o suor se diluia no rio, a água gelada acalmava meu corpo. Agora ali, estirada, deixei que meu corpo fosse aos poucos levado pela leve correnteza. Quando parei de ouvir o cantar dos pássaros, fechei os olhos.
Tags: Fim, Liberdade, Solidão 3Não vou mentir: fiquei muito envergonhada em não saber quem tinha sido, na história de Moçambique, Carlos Cardoso. Foi passando por uma das ruas da cidade que vi escrito “Carlos Cardoso Vive!”. Um amigo me perguntou se eu conhecia a história dele e, percebendo que eu não tinha a mínima ideia de quem tinha sido ele na história local, começou a me explicar a vida do jornalista.
Uma história marcada pelas batalhas que se travavam em território da África austral, tanto em sua terra natal, Moçambique, como na terra em que estudara, África do Sul. Viveu os processos de independência de um, e do fim do apartheid no outro. Nesse fervor de mudanças, teve a audácia de pautar um jornalismo centrado no combate à corrupção – a ferida viva de ambos países.
Na época, Moçambique era governada por Chissano, segundo presidente do país pela Frelimo. E foi justamente a Frelimo uma das “vítimas” de seu jornalismo investigativo. Pioneiro na mídia independente do país, acompanhou, ainda, o processo de privatização do Banco de Moçambique. O tema fica ainda mais delicado com a presença do filho de Chissano nos interesses desta negociação.
O final desta história repetiu tantas outras. O lado mais fraco da corda partiu. Uma emboscada esperava Cardoso ao final do expediente. Era dia 22 de novembro de 2000. Cardoso saia do jornal Metical em seu carro, quando fora fechado por outros dois veículos. Dois homens desceram do automóvel, cada um com uma metralhadora. Execução sumária: as armas foram descarregadas completamente em Cardoso e seu motorista.
Demorou dois anos, mas a justiça moçambicana fez o julgamento do caso. O principal suspeito do caso, Aníbal Antônio dos Santos Júnior, aguardava o julgamento em uma prisão de alta segurança. Vinte dias antes de sair a decisão judicial, porém, conseguiu fugir da prisão. Documentos da própria polícia revelaram que pessoas internas facilitaram a fuga de Aníbal. O assassino deixaria, ainda, uma frase sobre o crime: “os verdadeiros autores morais são indivíduos ligados ao nosso partido Frelimo”.
A falta de resposta dos dirigentes da Frelimo sobre o caso, a impunidade e a pressão internacional para averiguar o crime foram marcas do processo. Carlos Cardoso, calado em sua morte, deixava a lição sobre a arma que era ter um jornal, fazer jornalismo investigativo e ter uma escrita destemida.
* Este foi o último post desta série de textos inspirados na viagem que fiz à África do Sul e Moçambique. Muito ficou a contar, mas muito não consegue ser escrito. :]
Tags: África, História, Jornalismo, Liberdade, Moçambique, Viagem 3