Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Dentro

Postado em Contos e Crônicas em 27/01/2010
Dentro

Eu me olho em você. E me penso em você. Parece até que minha pele se desgruda em algum instante e, por longos segundos, me registro em pedaços distante de mim, com uma textura que seca e arranha, imediatamente seguida por um contorno macio e tenro. É estranho, delicadamente estranho, inatingivelmente estranho.

Repulsa de meus cabelos aos ventos, tão longos e desgrenhados, tão desvinculados, desidratados, desavergonhados. E desses desdéns que não se calam, se grita no fundo de alguma alma o calor que perpassa entre os dedos que pensam: doces, sedosos, macios. Feitos de mel, fio a fio, como deslizam nas peles que, em bolhas, se queimam de arrepios.

É do contraste que desenha as linhas dos estômagos, é das lâmpadas que se acendem nos faróis distantes, é isso tudo que constrói os nossos dois lados, o doce e o amargo, o negro e o alvo. Nas ondas daquele além-mar, sem beijo azul e sem turquesa a brilhar, sei que reina o vento, forte sopro, que não cala as velas e silencia a paz – é no fruto deste fervor de furacão que o equilíbrio se enconde e ri.

Palavras que pintam a língua das crianças, montadas em lenços estampados nas costas das mães. Sol que ilumina, perverso, desafia a ilusão e crava as unhas nos olhos ofuscados, que já não separam o sonho da razão. O óleo se mistura na água, evapora e chove nas copas das árvores: não sei quando sou eu, quando não sou, quando me desprendo da pele e viro essa fera, destemida e tímida, calada e eloquente, que a muitos me alcunham simplesmente de coração.

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Anarquia verbal

Postado em Contos e Crônicas em 15/11/2009
Anarquia Verbal

Fibras claras que se enlaçam. Superfície. Risco rápido que não machuca. Suporte. Canto alto que não se escuta. Música. Todos dias revirados. Passado. Se em mais de uma grampeadas. Relatos. E um dia que não lhe usam. Ofusca.

Rasga o verso de desespero que acordou engasgado. Desperte na poesia apenas as rimas descompassadas. Quem iria se importar com a ordem planificada? Sem hierarquias e prontidões, reina a vontade instantânea daqueles que não encontram diversões – nem na liberdade nem na privação.

Quebra linha, quebra lápis, quebra página. Quebra o vidro e a vidraça. Quebra os anjos, os santos, o altar. Quebra as profecias e as profanadas, as previsões e as datas erradas, as desilusões, as soluções e as gargalhadas. Quebra também o sujeito e o predicado, a exclamação, o particípio e o verbo desconjugado.

trupe de quinta – verbo
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter. ;)

amanda oliveiraandré pachecoelisa françaizabel pompermayerlara marxnati boaventurarafael glassrodrigo casalesvictor godoi

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Glub-Glub

Postado em Contos e Crônicas em 26/10/2009
Glub-GLub

Odeio inspeções. Portanto, odeio a rodoviária da minha cidade. É que para cada viagem que eu preciso fazer, tenho que passar por um corredor onde são perguntadas e anotadas coisas sobre minha vida e meu comportamento, além de vasculhados todos os meus pertences. Acho incômodo.

O relógio marcava três horas da tarde e meu ônibus sairia dali a vinte minutos. Estava na fila de espera do corredor de vistoria. Eu, uma mala vermelha e uma bolsa preta com os documentos pessoais e, como não podia deixar de ser, a passagem.

Minha vez.

Primeiro, entreguei meus documentos e bilhete. Foram bem verificados. A moça, uma jovem baixinha de nariz arredondado começou a me fazer as perguntas. Sua voz conseguia ser levemente mais irritante do que a sua ocupação.

Perguntou se eu estava transportando espécies de nossa flora ou fauna. Não.
Perguntou se eu tinha alergia a algum produto. Não.
Perguntou se eu já tive passagem pela polícia. Mais um vez, não.
Perguntou se era minha primeira viagem. Não…
Perguntou se eu participava de alguma organização política terrorista. Não. Insistiu. Já disse que não.
Perguntou se eu menti em alguma pergunta, “especialmente na anterior”. Não, não, não.

Lançou seus olhos dos meus pés até minha cabeça. Conferiu a minha mala vermelha. Abriu minha bolsa. Sorriu com a boca mal pintada de vermelho. Agradeceu a minha colaboração com o serviço.

Mala no bagageiro, passagem conferida, poltrona encontrada. Olhava de dentro do ônibus aquela moça. Acenava para ela. O que ela não sabia mesmo é que eu tinha um peixe no bolso. Saí sorrindo, vitoriosa.

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Deita aqui

Postado em Contos e Crônicas em 21/10/2009
Deita aqui

Dizem que existe uma vale esquecido cheio de paisagens e riquezas a nos dar. Uma casa branca de janelas azuis esperam alguém para hospedar. A renda estendida na mesa redonda da sala é agradável, bem fiada e macia. Uma jarro em curvas sustenta uma única rosa branca, nem completamente aberta nem toda fechada – assim, delicada.

A janela tem uma cortinha de tecido grosso, feita para enrolar entre argolas de madeira. Quando faz sol lá fora, deixe-a aberta que o vento visita docemente os corredores e brinca entre todos os cômodos. O céu, quando finda o dia, deixa o lilás e o azul se beijarem. E tudo isto é disfarçado pela primeira grande estrela-planeta que desponta no céu e convoca a presença da lua, em qualquer uma de suas mil e uma fases.

Diz que lá não se pode andar calçado. É que esqueceram, com o tempo, a textura das folhas secas em uma terra batida. O som natural que se faz quando a pele grossa da sola do pé – que nem por isso deixou de ser delicada – deita no manto seco. Penso que deve ser como o som do açúcar chacoalhando-se nos dentes.

Falaram para mim ontem sobre este lugar. Contaram-me em sonhos. Busco pela casa esquecida, perdida por entre rios e árvores, em cantos e chuvas que compõem uma orquestra de harmonia infinita. Vê, já nem consigo parar de ter os olhos perdidos em um lugar fixo qualquer, a abstrair e pensar naquele vale. Quem dera.

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