Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

A mesa tinha o formato daquela última vogal. A parte aberta do “U” ficava permanentemente lançada para o pano de projeção, ao passo em que a parte fechada, para uma lousa branca com manchas de textos escritos anteriormente cujo apagador, já carcomido, não conseguia remover. As persianas recebiam o vento pelas frestas das janelas abertas e, entre batidas e carícias, faziam o único som a ecoar naquele final de tarde.
Relógio em punho. Minutos que se esgoelam para passar. Um ponteiro, portando a velocidade cronometrada dos segundos, tentava, sem sucesso, inspirar as horas para que elas pudessem se aventurar nos intervalos de tempos sem tamanha precaução.
Pressionava minhas unhas nas palmas das mãos. Era o único instinto que afastaria a vontade de lascá-las entre os dedos. Mordia a parte externa dos lábios levemente com os dentes. Confiei na teoria de não espiar os relógios constantemente. Fracassei.
Alguns vultos continuavam a passar pelo corredor, ignorando minha presença naquele local. Passava um senhor, uma jovem de vestido largo, o porteiro daquela unidade e um homem calvo que, aposto, tentava me ver com sua visão periférica.
Não me recordo quanto tempo passei sem desistir da minha espera, naquele branco cremoso excessivo das paredes da sala. Como um creme denso que assistimos escorrer nas panelas de doces, a parede se desmontou aos poucos. Deitei naquela sala, naquela bacia terna que me engolia.
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Cada gota de suor que saia da minha nuca escorrendo pelas minhas costas se esfriavam rapidamente. Eram leves e tenras, sempre arranhando o leito de suas corridas. Quando percebi que estava mais fria do que o normal, senti que minha visão entrava em um destino turvo, sem saber distinguir as realidades dos sonhos, as exatidões dos incompreensíveis.
Um lapso do meu tempo foi esquecido. Fui escorada em ombros de quem nem me recordo o nome. Sentada na cadeira do ônibus, aguardei seu esvaziamento. Meus braços estavam imóveis, imersos em cãibras que me agoniavam e me deixavam mais afastadas do meu cotidiano. O desespero batia firme em meu coração, que poderia a qualquer instante ver um sopro se tornar um furacão.
Com o pisca-alerta ligado e com a mão intensamente na buzina, o ônibus desgovernou-se da lógica diária para ir rumo ao hospital mais próximo. Consegui mexer meus dedos, consegui eu mesma tomar água e secar minhas lágrimas com as mãos.
A cadeira do hospital me guiou por instantes pelas ruas e corredores. Atendimento, senha número 53. É tarde, há tarefas lá fora. Consultório, previsão de 381 minutos. É muito, há vida lá fora. Guardei aquele pedaço dentro de meu suor, da aflição comum e silenciosa que nos ronda diariamente. Afoguei aqueles instantes como quem não percebe o último gole de água.
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é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter.![]()
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Pela manhã, a noite me visitou. Era o céu nublado, em tons de azul, cinza e roxo. O branco era o clarão que rasgava inesperadamente em raios, e trovoadas que selavam o som com a luz. O cabo do meu guarda-chuva era certamente ínfimo na proporção das gotas que invadiam minhas meias, meu tênias, minha calça e bolsa. O rosto se comprimia para que os olhos pudessem atravessar o líquido ar.
Um labirinto de mares de formava entre as esquinas da cidade, o asfalto era o leito caudaloso que abarcava as naus de gente. As luzes se acenderam nesta noite matinal – as trevas comeram o sol e a escuridão brotava das lâmpadas.
A roda de borracha ameaçava nas proximidades. O contorno dos pés já não existiam – se desmanchavam com a água, se diluíam nas poças e, agora dissolvidos, mal deixavam o passo ter firmeza para chegar em seu destino.
Amolecida, a terra cedia. A lama crescia. O trânsito se comprimia. O som se alastrava. O caos reinava. A agonia me sequestrava lentamente, ameaçando a terça-feira, comprometendo a quarta e amordaçando a quinta.
Secos, os tacos de madeira me aguardavam. Enxuta, a roupa de cama me aquece. Úmido, bate na janela o importuno, a lembrar que lá fora ainda há trânsito e lama, água e rostos, vidas e mortes.
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Passei três horas olhando fixamente para aquela aberração e não iria sair dali sem a devida anotação. Era muito interessante a exatidão das ciências, a métrica dos números, a certeza das equações. E olhar para aquela rolha dentro da garrafa me provocava náuseas. Pelo vidro, não conseguia ver se havia uma pequena parte da rolha banhada na água ou se era apenas um golpe de vista dos reflexos, dos côncavos, dos retos, dos convexos.
Eu não tinha mais controle sobre isso. Antes tinha, sabia informar através do nível do líquido se aquela bendita rolha estaria encharcada, úmida, seca, lavada. Já não mais. Que tormenta.
Meus músculos se remexiam naquela agonia e meu suor já descia pelas linhas de meu corpo. A minha testa já estava toda grampeada em pedaços de pele, agora semelhante a uma colcha dobrada no sofá. Quanto tempo mais poderia suportar?
Continuaria a minha observação. Nenhum barulho pela vizinhança me atrapalhava. Talvez fosse mesmo este silêncio que me cobrava, me criticava e me extorquia os últimos pedaços de confiança que tinha nas suposições criadas na mente. Agora, todas estavam apagadas.
Sinto a solidez do banco preto em que me encontro desde esta manhã. Não é muito confortável. Vejo bem pela lente do copo. Vejo bem a cor do vidro. Percebo até mesmo o cheiro daquela rolha, entre o seco e o molhado. Afundo as minhas desconfianças em pensamentos.
Sinto-me perdido. Homem-peixe. Peixe-homem. Onde afogaram toda a minha razão?
* A imagem é um fragmento de um fotografia de Elena Kalis.
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