Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

“Um dos maiores do ano!”

Postado em Filmes e livros e afins ! em 23/07/2010

Sofro de um efeito oposto ao desejado pelas propagandas. Simples: se uma caixa de bombons tem a frase “o melhor da sua vida” estampada, não dou o mínimo de credibilidade. Assim acontece com todos demais produtos. Acho que é como uma antipatia por pessoas que cantam vitória transferida para o mundo das mercadorias. Talvez eu esteja personalizando demais os pobres doces de cacau, mas é inevitável.

Minha condenação a essas frases topetudas sempre teve suas exceções. Meu namorado, quando voltou de viagem, trouxe um livro lindo de poesia cujo título (veja bem, é o título, não é uma frase solta no livro!) é: “as mais belas páginas da poesia francesa”. Chego torcer o nariz para esses títulos. Sinto arder a presunção dele em minhas mãos. Mas a surpresa de folheá-lo e ver a seleção, a organização, o cuidado da edição, me fez realmente acreditar que aquelas poderiam ser, de fato, as mais belas páginas.

A vez mais recente que a repulsa não funcionou foi na livraria. Fui por causa de um Saramago (nunca vi uma frase dessas em nenhum dos livros dele, amém), mas achei um livro lindo, com uma capa chamativa e um título atraente: “Os Excluídos”, de Yiyun Li. Confesso que segurei por alguns segundo o livro na indecisão de levá-lo por causa da maldita frase impressa ali embaixo da capa: “um dos maiores romances do ano segundo o The New York Times”. Congelei por um instante. Virei o livro e mais frases descreviam as sensações e cenário do livro.

O livro tem a história da China como pano de fundo. Mais especificamente, a Revolução Cultural, quando Mao Tsé-Tung já havia morrido. Dito isto e dito que o livro é aplaudido pelo NY Times, The Observer, The Washing Post, Times e companhia, sabia que a receita seria a condenação de uma contrarrevolucionária e as contradições de tal revolução no país. Óbvio!

Mas não tão óbvio é a leitura do livro. Comecei achando que não ia deslanchar, mas os elos são criados de forma perspicaz, aos poucos você se sente preso na trama. Ia me surpreendendo com as possibilidades da estória a todo instante. Descobri que a autora estava na lista dos escritores com menos de quarenta anos em destaque por uma dessas mil listas que fazem pelos jornais afora. Se é um dos maiores romances do ano, não sei. Mas vale a leitura.

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Leituras, teorias e rabiscos

Postado em Aninha em 22/07/2010

Encontrei, dia desses, no armário da minha mãe, um monte de textos meus. Ela guarda a impressão que fiz de quase todos textos do meu primeiro blog. Junto, ainda, o rascunho e o original de redações que ganharam concursos. Ela também guarda alguns e-mails que mandei para ela, cartinhas que escrevia quando pequena, e usa como marcador de página os cartões de “feliz dia das mães” nos livros, com aqueles desenhos em giz de cera e colagens de papel de carta. Penso em imprimir os outros textos e também os textos deste blog aqui para ela. Não há outro presente que a deixa mais feliz (ao menos, com a minha possibilidade financeira de presentear…).

O mais estranho, porém, é que quando eu releio os textos que eu escrevi eu não consigo me identificar. Tudo bem que tem alguns que são óbvios que fui eu mesma que escrevi, alguns que me marcaram mais ou que se encaixam muito perfeitamente em momentos meus, e não em abstrações. Mas a verdade é que eu estranho muito meus textos, acho repetitivos e negativos (tanto no sentido do texto quanto na escrita – reparem que sempre tem uma frase que começa com “não”, no final do primeiro parágrafo deste texto, por exemplo, lá está ele!).

É constrangedor quando meus amigos falam que eu escrevo para alguém na minha frente. Bom, se você é apresentado a um fotógrafo, pede que ele lhe mostre uma fotografia, se for uma pintora, que lhe mostre um quadro, e se for uma “pessoa que escreve”? Primeiro: as pessoas tendem a decifrar isso como poeta. Segundo: pedem que você recite uma dessas poesias. Apesar de amar poesias e até arriscar algumas, sofro de um bloqueio imenso para decorá-la. Mesmo com cinco anos de teatro nas costas, a dificuldade em decorar textos é imensa em mim. Uma vez apenas decorei um poema que fiz. Mas já esqueci. E sempre passo essa vergonha de não saber dizer os meus versos miúdos. Nem dos outros – já soube, uma vez apenas, um de Florbela Espanca completo, que esqueci, e um do Fagundes Varela, que só sobraram alguns versos ecoando em minha mente.

Mas a descoberta maior está escondida. Quando eu ainda estudava para o vestibular, comecei a escrever uma história. Escrevia compulsivamente, parava por um tempo, voltava a todo vapor. Era um desafio criar a história, pois era de realismo fantástico. O arquivo ultrapassou, aos poucos, as mais de cem páginas em arquivo do word. Eram personagens que eu imaginava em qualquer pensamento perdido de final da tarde. Mas um belo dia de férias, já na faculdade, afastou tudo aquilo de mim. Meu computador foi roubado durante as férias, e junto com ele foram embora as minhas fotos, meus trabalhos acadêmicos, minhas músicas preferidas e, claro, meus textos escritos… Nunca mais quis mexer com essa brincadeira de escrever longos textos em meu computador, nunca mais tive também a ideia sobre o que escrever. Fiquei com meus textos curtos.

Porém, falei de descoberta escondida. De fato, faz muito tempo que comecei a história inacabada. Nem lembro muito como foi o meu processo de criação daquilo tudo. E creio que foi ficando uma história até mesmo interessante, apesar de não mostrar a ninguém. Mas em uma pasta velha que sempre carreguei comigo em mudanças, porque sempre ficaram guardados documentos e contratos, estavam algumas páginas azuis. Nestas páginas, numeradas manualmente com tinta de caneta, está impressa a história que comecei há tempos atrás. Não consigo voltar a ler. É como carregar pedras que já rolaram pelas montanhas. Quem sabe quando terei coragem de queimá-las?

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Desisti

Postado em Contos e Crônicas em 21/11/2009
Desisti

Apesar do cheiro forte e provocante de páginas amarelas pelo tempo – o que, confesso, me atrai durante uma leitura – e apesar da chuva fina que fechava a tarde na cidade, eu não terminei de ler o livro. Não momentaneamente, eu decidi não saber o resto da história. Na verdade, acredito que desisti de ler ainda nas primeira páginas, quando já não acompanhava com muito fervor o enredo e já não sabia responder direito quem eram aqueles personagens enlaçados na trama que meu olhos, de forma despreocupada, percorriam.

Tal qual uma farpa perfurando o tecido da mão, lá está o livro na cabeceira, ainda implorando para um esforço final. Não, não irei ler. Ficarei sem jamais saber o que as estradas daquele país em desconstrução reformada irão sustentar. Também não me importa se as baleias, quando desembarcam na costa da praia, são fatiadas desesperadamente sem nem mesmo o soluço cessar. E também já não me prendem os trejeitos e estórias que o menino bastardo enuncia a cada novo capítulo. Isto agora é um passado.

Essa história desconhecida e que jamais será pontuada dentro de mim me amedronta. Será que sou assassina de um imaginário partilhado? Será que apenas mantive eles sempre intrigados? Será um crime continuar ou desistir? Posso profanar cada página sem medo de que esta terra sonâmbula possa enfim, entre seus devaneios e pesadelos, me engolir?

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