Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Traçado

Postado em Contos e Crônicas em 28/10/2009
Traçado

Teclas, travas e traçados. Todos enfileirados. Nossa linha de montagem, nossa falta de vontade, nossa coluna é uma engrenagem. Senta, levanta, pisa e chora. Uma janela sem aurora, uma novela sem demora, uma primavera sem amoras.

Este ritmo obsoleto que pulsa novo dentro de mim. Caminho com minério na veia e sem desejos por nada abstrair. Se de vidro, ou de plástico – tanto faz, transparece. A água que vem sem sais de longe me emudece – resta algo dentro das curvas, um suspiro na carne crua. O destino é uma mulher semi-nua.

Caso, laço, caos, acaso… A fita desenrola sem descolar o ontem do amanhã. O hoje é lenda contada para as crianças todas manhãs. Tamanha seja a ordem que gritar o imperador – proclamem a verdade como a mentira sã.

Tags: , , , , 2

O homem que virou papel

Postado em Contos e Crônicas em 10/09/2009
O homem que virou papel

Esperava passar pela minha rua todos os dias. Quando apontava no final da curva da avenida, meu sorriso se abria. Era a hora esperada do dia em que meu pai finalmente trocava todas as caixas, caixotes e caixinhas pelas moedas que abraçariam todo aquele dia.

Como um camelo-máquina, sua lataria eram seus ossos e suas cartilagens. Tudo aquilo que os outros julgavam nada mais valer, valeria toda a corrida pelas ruas, que valeria todo o pão da manhã, ou ao menos a vontade deste.

Como um camelo-gente, sentia os músculos crescerem e definirem em um esforço intenso. Os pés dos carros arranhavam a capa de petróleo e as faíscas brilhavam por todo o percurso daquela infindável rotina.

Como um camelo-pai, não ria. Nem chorava. A prece fazia antes de sair e olhava aos céus com desconfiança e culpa, com acusações e súplicas, com respeito e afronta. E fazia o sinal da cruz.

As células, celulose. Definhava para se alimentar. A pele, amadeirada. Ventríloquo programado para nunca mudar. Desdobrou-se o caminhão de papel, nas rolagens esquecidas da paisagem.

trupe de quinta – caminhão de papel
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter. ;)

amanda oliveiraandré pachecoizabel pompermayerlara marxnati boaventurarafael glassrodrigo casalesvictor godoi

Tags: , , , , , 5
[2009 anacronicas.com.br] | conteúdo sob licença Creative Commons
design: André Pacheco | tecnologia: WordPress