Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Os sonhos que não foram

Postado em Contos e Crônicas em 05/07/2010

Lembro quando acordei e era de tarde. Chovia bastante, estava um pouco frio. Tomei banho, separei uma roupa e comecei a me arrumar para ir a um bar no fim do dia. Essa ida ao bar, que despertara junto comigo naquela tarde, era nítida em minha memória: lembrava perfeitamente do convite, dos sorrisos, da hora marcada e das confirmações de presença.

Quando cheguei à sala, minhas amigas com quem eu dividia a casa se espantaram com o fato de eu estar arrumada para sair. Pensei que era por causa da chuva forte que fazia e, já que não tínhamos carro, iríamos cancelar a nossa ida. Mas hei que o engano estava em toda a história. Afinal, nunca houvera o convite, os sorrisos, a hora marcada, tampouco presenças a confirmar.

O problema estava na minha incapacidade em diferenciar sonhos e realidade. E já não era a primeira vez que aquilo acontecia. Cenas prosaicas iam se mesclando em minha mente, mas eram falsas verdades, passado imaginado que não pertencia ao meu dia a dia. Era eu mesma sendo incapaz de discernir o real do imaginário, era eu mesma capaz de me enganar sem nenhum parte de mim se divertir.

A minha insônia agudizou. Meus olhos iam se afundando. Era como se a cama fosse uma prisão da minha realidade, perfurando minha mente com estacas afiadas. Eu temia meus sonhos, pois temia não saber mais de que passado eu era feita ao acordar.

Eram poucas as horas que eu dormia por dia. Consumida pela loucura da incompreensão (principalmente da auto-incompreensão), duvidei de mim mesma. Eu, minha principal inimiga. Minhas recordações foram postas em xeque: esta infância que tanto me recordo me pertence ou é apenas feita de sonhos que tomei como verdade?

Cada novo dia, uma nova dificuldade, uma nova possibilidade, um peso de sonolência. Meu coração acelerava só de pensar que aquela que evitava seus sonhos, botes de falsas realidades, poderia mais cedo ou mais tarde acordar deste pesadelo. Como desejar acabar com os sonhos se já não se sabe o que é real?

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