Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Carlos Cardoso Vive!

Postado em Aninha em 03/06/2010

Não vou mentir: fiquei muito envergonhada em não saber quem tinha sido, na história de Moçambique, Carlos Cardoso. Foi passando por uma das ruas da cidade que vi escrito “Carlos Cardoso Vive!”. Um amigo me perguntou se eu conhecia a história dele e, percebendo que eu não tinha a mínima ideia de quem tinha sido ele na história local, começou a me explicar a vida do jornalista.

Uma história marcada pelas batalhas que se travavam em território da África austral, tanto em sua terra natal, Moçambique, como na terra em que estudara, África do Sul. Viveu os processos de independência de um, e do fim do apartheid no outro. Nesse fervor de mudanças, teve a audácia de pautar um jornalismo centrado no combate à corrupção – a ferida viva de ambos países.

Na época, Moçambique era governada por Chissano, segundo presidente do país pela Frelimo. E foi justamente a Frelimo uma das “vítimas” de seu jornalismo investigativo. Pioneiro na mídia independente do país, acompanhou, ainda, o processo de privatização do Banco de Moçambique. O tema fica ainda mais delicado com a presença do filho de Chissano nos interesses desta negociação.

O final desta história repetiu tantas outras. O lado mais fraco da corda partiu. Uma emboscada esperava Cardoso ao final do expediente. Era dia 22 de novembro de 2000. Cardoso saia do jornal Metical em seu carro, quando fora fechado por outros dois veículos. Dois homens desceram do automóvel, cada um com uma metralhadora. Execução sumária: as armas foram descarregadas completamente em Cardoso e seu motorista.

Demorou dois anos, mas a justiça moçambicana fez o julgamento do caso. O principal suspeito do caso, Aníbal Antônio dos Santos Júnior, aguardava o julgamento em uma prisão de alta segurança. Vinte dias antes de sair a decisão judicial, porém, conseguiu fugir da prisão. Documentos da própria polícia revelaram que pessoas internas facilitaram a fuga de Aníbal. O assassino deixaria, ainda, uma frase sobre o crime: “os verdadeiros autores morais são indivíduos ligados ao nosso partido Frelimo”.

A falta de resposta dos dirigentes da Frelimo sobre o caso, a impunidade e a pressão internacional para averiguar o crime foram marcas do processo. Carlos Cardoso, calado em sua morte, deixava a lição sobre a arma que era ter um jornal, fazer jornalismo investigativo e ter uma escrita destemida.

* Este foi o último post desta série de textos inspirados na viagem que fiz à África do Sul e Moçambique. Muito ficou a contar, mas muito não consegue ser escrito. :]

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O povo e a machamba

Postado em Aninha em 02/06/2010

A terra, a machamba. Seja na discussão na sombra de uma reserva natural no interior da África do Sul, ou debaixo dos cajuzeiros da província austral de Moçambique. O pedaço de terra para viver, produzir, plantar e colher. Esta era uma conversa recorrente entre os povos dos dois lugares.

Do lado de Moçambique, as terras foram tomadas pelos portugueses. Com a independência, tornou-se posse do Estado. Para conseguir um pedaço de terra você precisa de uma concessão de uso. Comprar com dinheiro mesmo, não.

Do lado da África do Sul, a invasão inglesa deixou bem claro desde o princípio: as terras eram deles, quem mexia nela antes até que podia continuar por ali, desde que trabalhando para a toda poderosa metrópole. Hoje em dia, é na base das verdinhas, com uma reforma agrária em passos tão lentos que mais parece parada.

Os dois países, tão diferentes, trazem na terra uma similariedade: a dificuldade de estabilizar o povo nelas. Pois em Moçambique, a terra pode até ser estatal, mas de nada adianta quando falamos de um Estado absurdamente corrupto, que acabou de fazer a concessão das terras para grandes empresas transnacionais (pode ler com todas as letras, entre elas, a Vale) onde povos originários viviam e, ao mesmo tempo, dificulta a posse da terra ao campesinato.

Já pela África do Sul, o governo parece estar no mesmo jogo. As grandes indústrias vão acumulando terra e a justiça com os povos despossuídos pela severa colonização quase inexiste. Como pensar um país onde 80% da população é negra, mas 80% das terras ou estão com brancos ou com o Estado? Desde a libertação de Mandela, nem 5% das terras passaram por uma reforma agrária.

Para entender o que é tirado de um povo quando lhe recusam o direito à terra, basta ver a festa com que fui recebida em Marracuene pelos campesinos. A festividade era porque eles tiveram a terra regularizada naquele dia, estavámos indo entregar os documentos do Estado.

* O youtube não colaborou e não consegui colocar o vídeo da entrega, com a celebração. Quando eu subir, irei por no twitter, ok? ;)

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O retrato proibido

Postado em Aninha em 02/06/2010

Na semana que eu cheguei em Maputo, os tapumes das ruas, os painéis, os postes, enfim, todo lugar visível e de circulação tinha a foto do então presidente Guebuza. Reeleito, ele iria tomar posse em um ou dois dias. Escreveria mais um capítulo governamental em Moçambique, que sempre foi governado pela Frente de Libertação de Moçambique, a Frelimo, que após a independência se transformou em partido.

Guebuza é o terceiro presidente do país e o partido sempre venceu com ampla porcentagem. Eles teimam a se gabar muito disso, mesmo o voto não sendo obrigatório e menos da metade da população comparecendo às urnas. Mas em Moçambique todo mundo é Frelimo, até mesmo por uma questão de convivência. Claro que generalizar é um pecado, visto que Resistência Nacional de Moçambique, a Renamo, ainda tenta bradar contra a Frelimo.

Não foram poucos os relatos de jovens moçambicanos que pensavam em deixar o país porque discordavam do que acontecia na política ali. Eles, porém, são até filiados à Frelimo. É realmente uma questão de abrir o convívio. Quando não era por causa disso, a resposta do apoio àquele partido estava apenas vinculada na história. Quer queira, quer não, a Frelimo foi crucial no processo de independência do país – e a isto todos reconhecem.

Chocante foi perceber como as eleições – e a posse presidencial – transparecem que o partido se assemelha bastante a uma empresa. As capulanas (como disse em outro relato, algo como as nossas chitas) chegam a ter a estampa do rosto do presidente. Até as buzinas para celebrar a posse tem o rótulo do partido. Tudo distribuído à população na época de campanha. Um show de brindes.

Passei pela praça da Independência na semana da posse. As faixas me chamaram a atenção. Ela saudavam o presidente em várias línguas: português, inglês e francês.

Pensei em tirar uma foto daquela cena e, precavida das comuns proibições de tirar foto de prédios históricos, resolvi perguntar ao policial se eu poderia fotografar o ambiente. Alguém duvida da resposta?

- Não, é proibido fotografar esta praça.

O sentimento do veto, seja esse qual for, é angustiante. A vontade é rebater e perguntar o porquê. Mas em terras que não se percebem diálogos, o risco de se falar assusta. Apenas mantive minha máquina na bolsa.

No dia seguinte, voltei àquela praça para ver a posse do presidente. Demais presidentes africanos compareceram, como o da Zâmbia e África do Sul. Já o respeitado Nelson Mandela não pôde comparecer naquele dia. Como Mandela é casado com uma moçambicana (fofoca histórica: ex-mulher de Samora Machel e, portanto, dona do récorde de ter sido primeira-dama de dois países), nutri a esperança de vê-lo. Mas acabei vendo apenas sua casa, que ocupa um quarteirão inteiro. Fico devendo a foto, por motivos óbvios.

Para a posse presidencial, foram gastos rios de dinheiro. A imprensa reservava míseros minutos à oposição. Fiquei bastante surpresa com a preocupação jornalística na cobertura. O maior comentário era sobre a escolha das roupas para a cerimônia.

Anunciaram no microfone que a imprensa estava cadastrada. Pensei: mais uma vez não tirarei fotos. Aos poucos, transeuntes, assim como eu, sacavam a máquina para as fotos, principalmente com a chegada dos outros presidentes e autoridades. Como o clima foi se transformando em festa, resolvi que também tiraria algumas.

O calor já estava sufocante, o discurso de Guebuza tratava sobre o combate à pobreza. Mas ninguém comentava o que a gerava, de onde ela vinha e porque ela existia. Era como um fantasma que rondava por Moçambique, na espera de ser caçado.

* Foto das crianças que iam dançar na posse. Detalhe para a mensagem (malufista, não?) da Frelimo. Na outra foto, uma das faixas ao presidente em francês: “Viva os povos amantes da paz e do desenvolvimento”.

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Marrabenta

Postado em Aninha em 01/06/2010

A primeira vez que fui a uma festa moçambicana, fiquei surpreendida com a dança. Independente do sexo, todos arriscavam uma música ou outra lá na pista. Eu não conseguiria jamais imitar aqueles passos, nem em três gerações de aulas. Fiquei encantada.

- Mas vocês tem o samba, me consolou uma moçambicana.

- O samba é fácil.

Sentia uma dor em dizer isso, porque bem sei a dificuldade que tive para não parecer ridícula ao som da música que marcava o meu país. E quantas vezes o samba era apenas o som ao fundo de uma cena que continha eu sentada numa mesa de lata, tomando uma cerveja e apenas assistindo às mulheres que se arriscavam naqueles passos.

- Como é mesmo o nome dessa dança?, perguntei.

- Marrabenta.

Extremamente moçambicana, criada pela região de Maputo, na época em que esta ainda se chamava Lourenço Marques, nome de um comerciante português. O nome vem da língua colonizadora. Marrabenta surge do verbo rebentar, também conhecido como arrabentar. Faz sentido.

Dias depois, uns cartazes colados nas ruas anunciavam: Festival Marrabenta. Garantir o ingresso não era o mais difícil, visto que o evento era em uma casa de cultura francesa (!) e o ingresso custava algo em torno de duzentos meticais (com um real você compra cerca de doze meticais, mas não vale converter, tente pensar como quem ganha menos de mil meticais por mês, realidade da maioria).

Parecia o encontro dos ongueiros europeus em Moçambique. Falo europeu quase me incluindo. Eram tantas as ongs europeias no país que, mesmo que meu sotaque denunciasse a brasilidade e eu explicasse anteriormente minha naturalidade, sempre me apresentavam como “Ana Maria, que veio da Espanha”.

Quando voltei ao Brasil, lembrei constantemente da marrabenta. Lembro até hoje. Ainda vejo o cantor de mais de sessenta anos se levantando para arriscar uns passos da dança. Não se dança marrabenta sem sorrir.

Para fechar, uma poesia moçambicana ao instrumento mais forte que pulsa naquele país.

Quero Ser Tambor
José Craveirinha

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

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