Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Pleno vazio ou 11 minutos de perguntas sem fim

Postado em Contos e Crônicas em 08/05/2010

Ensinaram-me que os lápis de cor ficam dentro de uma caixa e que devem ser enfileirados de acordo com a tonalidade. Ensinaram-me também que os meninos são proibidos de usar saia, a não em uma país distante que eu possivelmente nunca visitarei. Ensinaram ainda que para me casar eu teria que usar um vestido branco e subir no altar da igreja.

Ensinaram-me que Plutão é o último planeta do nosso sistema. Depois ensinaram que ele nem planeta era. Ensinaram-me que o céu é azul por causa do oxigênio. Outros me disseram que era por causa do reflexo do mar – ou será que foi ao contrário?

Ensinaram-me que existem quatro estações. Que as flores se abrem na primavera e que se fecham no verão. Ensinaram-me que todo mundo um dia divide seu coração. E todo mundo um dia também chora de decepção. Que nunca a vida é tão bela, mas jamais também tão amarga.

Guardei em cada ensinamento uma interrogação. E cada interrogação, guardei um um pote vazio. Agora, assim, cheia desses potes vazios em mim, quase sufocada, mal consigo me mover. Alguém, por favor, me ensina como eu posso me mover?

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Crachá

Postado em Contos e Crônicas em 09/11/2009
cracha

Permita-me confessar que era tempo difícil aquele, por mais incolor que esta expressão possa lhe parecer. Realmente, foram muitos infortúnios. Na época do recadastramento de cidadãos legítimos, foram dezessete filas para poder receber o certificado e ser reconhecida pelo Estado. Não enfrento mais os problemas na hora da revista da casa, tampouco tenho medo de ser abordada pelos donos da ordem e conduta.

Ainda tenho alguns parentes que se escondem das institucionalidades. Vivem tal como ratos, sem saber ao certo como agir, visto que podem a qualquer instante ser entregues aos homens de azul, em seus capacetes agudos que enfatizam a brutalidade de seus poderes. Foi quando começaram estas regras, estas caixas que nos fecham e deixam farpas dentro de nós para sempre, que perdi a intensidade dos momentos que mantinha com sacrifício na transição das normas.

Faltava-me apenas um registro, mas que não era prioritário nem poderia me render sanções legais. Era esta a pendência que eu precisava resolver naquela semana. Fui até o ministério dos afazeres desnecessários. Lá, me enviaram para o setor de burocracias entediantes. Passei três horas presa em uma sala toda em temas de cinza, do rodapé de madeira velha até o vaso de cerâmica ao fundo do corredor.

Perto da hora do almoço, recebi ordens em prosseguir meu cadastramento. Para isso, foi-me fornecido um crachá. Eu só poderia ter acesso à parte responsável pela catalogação dos cidadãos se usasse o crachá, peça indispensável para minha identificação. Retirá-lo significaria minha remoção e possível penalidade pela absurda infração.

Assim, pressionei o salto do sapato pelos tacos de madeira que forravam o ministério. Agora, na parte de reconhecimento, estava a um passo da conclusão da minha ficha de documentos imprescindíveis ao Estado. Esperei mais alguns minutos nas cadeiras azuis. A televisão me distraiu durante algum tempo. Fui chamada.

Uma senhora pediu para que eu me dirigisse até a sala ao fundo, “aquela de porta azul silvestre”. Não sabia da existência daquela tonalidade, mas não comentei. Uma placa dizia: “Proibido entrar com crachá”. Ameacei tirar meu crachá para entrar naquele departamento quando o policial interviu: “Se retirar o crachá, será presa”. “Mas eu não posso entrar ali com crachá. Ou posso?”. “Não sabe ler?”, provocaram lá de dentro da sala. A voz azeda disse que sanções piores eu sofreria se entrasse com o crachá.

Fiquei no dilema, um impasse incoerente e irracional. Ainda, não poderia deixar meu crachá sem mim naquela sala de espera, tenho certeza que aquele policial ia dar um jeito de escondê-lo. Meu futuro estaria, de qualquer modo, dentro de uma sala de acusação. E nestas salas, a burocracia, a demora e o desespero são ainda mais agoniantes que o peso diário da opressão que vivia.

Cansada, ainda mais agora que não conseguia distinguir as cores do ambiente – se eram verdes, amarelas ou azul silvestre, pouco importa. Despi-me de mim mesma, me dividi em duas e não entrei em sala alguma.

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Traçado

Postado em Contos e Crônicas em 28/10/2009
Traçado

Teclas, travas e traçados. Todos enfileirados. Nossa linha de montagem, nossa falta de vontade, nossa coluna é uma engrenagem. Senta, levanta, pisa e chora. Uma janela sem aurora, uma novela sem demora, uma primavera sem amoras.

Este ritmo obsoleto que pulsa novo dentro de mim. Caminho com minério na veia e sem desejos por nada abstrair. Se de vidro, ou de plástico – tanto faz, transparece. A água que vem sem sais de longe me emudece – resta algo dentro das curvas, um suspiro na carne crua. O destino é uma mulher semi-nua.

Caso, laço, caos, acaso… A fita desenrola sem descolar o ontem do amanhã. O hoje é lenda contada para as crianças todas manhãs. Tamanha seja a ordem que gritar o imperador – proclamem a verdade como a mentira sã.

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Flor d’água

Postado em Aspas em 21/09/2009
Flor d'água

O véu de estrelas no céu, a grinalda cintilante em pétalas. Teus pés ao pousarem sobre o vermelho inicia a procissão de um vida. Os bancos de madeira se levantam para ver teu sorriso passar por entre os corredores e labirintos deste corredor. As escadas te elevam, finalmente.

Teu braço agora é empossado, suas luvas são esquecidas para que a coroem com o ouro reluzente. Eis a oferenda do seu dia. Das frases que sussuram e das promessas que nem entendes, esquecerás.

O desenho da silhueta em um preto, chumbo, cinza. Esconde a nudez do mundo com as colunas da casa de hipocrisias. Alinhados para as convenções. Voará as flores que os acompanharam. Sorrirá a criança em vestido rosa e sapatos de boneca.

Narram as quedas com luxo,traçam os fracassos com maestria e pintam as tristezas com poesias. Lava cada pedaço de teu corpo com os ditados, persegue sua consciência com um argumento falso e acredita que garimpa numa mina a felicidade de seu dia – perdida entre pedras e diamantes, esquece o mais puro dever de se lapidar, de se permitir, de profanar.

“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia mais.”
- José Saramago

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