Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
As músicas das lembranças costumam passar na rádio quando estamos dormindo. Sei disso porque tenho insônia e porque, como as passagens de avião são mais baratas na madrugada, vira e mexe tenho que levar alguém para embarque ou desembarque. É neste momento que deslizo pelas ruas da cidade, o deserto de concreto que parece tão suscetível, fraco diante das rodas do carro, doente com aquele silêncio que não se consegue em outro horário.
“I close my eyes”… Essa música me alegra. “Only for a moment, and the moment’s gone”… Dust in the wind, de Kansas. Se alguém me perguntar alguma outra música da banda, não conseguirei lembrar. Mas essa música, que para alguns pode ser velharia, antiquado, estranho, para mim são lembranças em seu estado mais puro. O pior é que eu não sei explicar porque, simplesmente algumas músicas tem cheiro de nossas histórias. É o caso dessa.
A rádio passou mais algumas músicas que me alegraram, mas que não tocavam em minhas recordações. Restou meus assovios descompassados, as batidas leves dos dedos no volante do carro e o som do parabrisa dançando por entre as finas gotas de água. Assim, meu dia poderia nascer melhor.
Continuei pelas estradas molhadas e vazias. Vez ou outra algum carro me ultrapassava, um caminhão aparecia. Mantive-me na segunda faixa até o final da estrada, peguei o viaduto e logo, logo estava perto de casa. A garagem escura, os carros, mais silêncio. Em minha mente, aquela música continuava tocando.
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O hábito de andar pelas ruas próximas começou quando minha cabeça pesava demais dentro do apartamento e a fuligem incomodava a minha tarde. Era como me colocar no varal para que o vento pudesse passar por todos meus cantos, levando o cansaço, a tensão e a apatia que alguns pensamentos teimavam em injetar em mim. Em uma dessas caminhadas despreocupadas, sentei no meio fio próximo à uma floricultura.
Um som, um verso, um refrão caía em meus ouvidos. A distração fez com que eu parasse de descascar o esmalte que envernizava minhas unhas. Ainda não sei dizer se o que faz daquela canção ser tão tocante é culpa de sua melodia perfeita ou dos meus desgastados momentos. Cabia alguma arte dentro de mim?
As janelas no alto pareciam atirar em meu corpo, quase derramado na escuridão do asfalto. Derreti exposta ao sol em uma lava improdutiva. Ainda dei um último trago no cigarro antes de mesclar com o resto de petróleo. Não temi a morte.
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Não lembro o nome do instrumento, nem sei definir os acordes e ritmos. Nem mesmo sei acompanhar uma música sem errar nas primeiras palavras. Eu tenho um problema com a arte em geral. As minhas pinceladas são sérias, tortas e destoantes do plano que antes eu formava com cores claras e limpas. Mas gosto de ver as molduras que guardo no meu quarto, na sala e nas paredes dos museus, nas exposições que circulam e que ainda não vi.
Devo dizer que já pensei sobre o meu estilo, as minhas letras, os meus desenhos. Eu não sei, mas creio que há algo que esvazia quanto mais eu teimo em tentar com isso me preencher.
Fuga, foi o que disse minha mãe. É a toca por onde o coelho nunca nem passou, mas que insisto em dizer que eu o vi, correndo, atrasado, adiantado, em plumas azuis e brancas – mas nem vestidos de aventais eu tenho. É tarde.
Sabe as pintas das peças de dominó? São mais inovadoras. É como ser a vareta negra e deixar se perder – perder a graça. A carta que falta ser um ás de espadas. O pino encravado na saída dos soldados verdes do ludo. Do lúdico. Do lúcido. Do lugar nenhum.
Desafino sem parecer prenda. Canto sem ser para os males – nem para o bem de ninguém. Sugar a minha criatividade diária pode ser o mesmo que construir pílulas anestésicas que não variam na forma, no conteúdo nem no diagnóstico: quatro pela manhã, três à tarde. Nenhuma à noite.
*foto retirada daqui.
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