Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Anarquia verbal

Postado em Contos e Crônicas em 15/11/2009
Anarquia Verbal

Fibras claras que se enlaçam. Superfície. Risco rápido que não machuca. Suporte. Canto alto que não se escuta. Música. Todos dias revirados. Passado. Se em mais de uma grampeadas. Relatos. E um dia que não lhe usam. Ofusca.

Rasga o verso de desespero que acordou engasgado. Desperte na poesia apenas as rimas descompassadas. Quem iria se importar com a ordem planificada? Sem hierarquias e prontidões, reina a vontade instantânea daqueles que não encontram diversões – nem na liberdade nem na privação.

Quebra linha, quebra lápis, quebra página. Quebra o vidro e a vidraça. Quebra os anjos, os santos, o altar. Quebra as profecias e as profanadas, as previsões e as datas erradas, as desilusões, as soluções e as gargalhadas. Quebra também o sujeito e o predicado, a exclamação, o particípio e o verbo desconjugado.

trupe de quinta – verbo
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter. ;)

amanda oliveiraandré pachecoelisa françaizabel pompermayerlara marxnati boaventurarafael glassrodrigo casalesvictor godoi

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Fim da Tarde

Postado em Contos e Crônicas em 06/10/2009
Fim da Tarde

Eu trabalho para os cegos. É pelo motivo óbvio. Não quero trabalhar para quem me veja. Assim, deixo de lado as censuras, as estampas, as estruturas. Espero que não lhe incomode que eu diga isto tudo agora, neste final de tarde, assim de supetão. Na verdade, é que este seu par de olhos ativos me faz querer contar destas coisas.

A outra parte, tem razão, ela existe. Sou textura, sou pele, sou calor. Esta sensação me inova em cada instante. E me renova dentro de mim mesmo. Mas não é este banho de sentimentos escondidos que mais me apetece, você bem sabe. Creio que sou bem sólido e gélido, isso talvez não se perceba nem entre os que nunca enxergam.

Sabe, seus olhos assim me parecem meio cruéis. Eles ficam me perguntando tudo. E eu fico tentando responder tudo. Gosto de ser um vão. Um vão negro que passa, um vão vazio que toca.

Também acho que não deveria estar falando isto tudo com você agora. Faz quanto tempo mesmo que não nos vemos? Eu vou pedir outro capuccino.

Mas é mais ou menos isso, compreende? Não, eu sei que não. Estou meio perdido dentro dessas luzes diárias. Inusitado? Não, foi apenas uma sinceridade. Desculpe, não deveria ter tocado neste assunto.

Esqueça. A toalha da mesa quadriculada me apetece. Lembra a da casa do campo, não é mesmo? Mas prefiro mesas de madeira às de vidro. Você sabe. Enfim, esqueça-me. Eu lhe disse, eu trabalho com cegos. Eles estão por perto.

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Palavras finais

Postado em Contos e Crônicas em 15/09/2009
Palavras finais

- Você vai?
- Sim.
- E volta?
- Não sei.
- O que decide?
- O talvez.
- Sou eu?
- Depende.
- Sou eu.
- Como?
- Vá.

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Um sorriso

Postado em Aspas em 13/09/2009
um sorriso

Pensei que meus dentes estavam colados. Acordei assim, com este gosto de grude na boca. Ainda que os lábios se movessem, os dentes pareciam ficar juntos em paredes grossas plásticas. Era elástico ainda,mas não tão flexível e nem capaz de se romper em um esforço maior.

Salivava. A agonia começou quando a vontade de cuspir era cessada pela placa dentária. Minha língua – já mais áspera que o usual – tentava inutilmente sair da cavidade. Deitei. Pensei “Por que acordar assim hoje?”. Fechei suavemente os lábios e não me movi.

Momentos depois, passei a língua na parede dos dentes. Ela lixava, em sua aspereza, mas a placa se reconstituía suavemente e com a mesma consistência. Respirei fundo. Quis gritar. Pela primeira vez, em tantos ano, quis gritar.

Sem mover meus músculos em nenhum sinal de consternação, levantei-me. Tirei o pijama azul. Camisa listrada, gravata lisa, tênis lustrado. Fui ao trabalho. Mais tarde, marcaria um dentista. Sentia saudade do gosto amargo do café.

“O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de as subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras.”
- Bourdieu

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