Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Ontem

Postado em Contos e Crônicas em 08/10/2009
Ontem

Ainda não sei bem se a dor maior foi morrer ou descolar de meu corpo. Não apenas pelo costume de estar sempre enquanto matéria, mas pela ardência de descolar assim dela. No percurso da bala até minha testa, o que de fato não levou tanto tempo assim, vi que o clichê era real. Como um filme – ainda que com narrativa bem novelística – vi os momentos mais marcantes, honrados e vergonhosos de minha vida passarem em minha mente. Como ateu, pensei que só cabia agora aos vermes virem ao banquete, mas a surpresa foi ver que, enquanto o projétil perfurava minha máquina, um sopro de alma de mim saia.

Sentir-se não-matéria não deveria ser descrito, pois ironicamente só consigo recorrer a sensações materiais. Foi algo como uma perna dormente misturada com uma cãibra que ataca você no meio da piscina. Tem também uma pitada da dor de ouvido quando o avião aterrissa e um pouco de queimadura de gelo na pele. Na verdade, não tem nada disso, tem o fundo imaterial de cada detalhe que construí nesta vida.

Pensei em rir do clarão que se abriu. Achei pastelão demais aquela produção. Deveriam contratar alguém com conceitos estéticos mais inovadores. Prendi as risadas para não ofender o homem de roupa marrom escura e cordão na cintura que aparecera para me conduzir pelo vazio infinito.

A fila estava grande, o que me desanimou. Será que não teria outra forma mais conveniente e simples de, enfim, se desfazer da vida? Parecia que não. Horas de espera, minha ficha cadastral não era das piores. Era um rapaz simpático, dava bom dia para os porteiros, já plantei um Pau-Brasil no sete de setembro e doava minhas roupas antigas para o asilo da esquina. Apesar do cigarro e do álcool serem vistos com maus olhos.

O senhor disse que eu era muito desligado da minha vida espiritual. Mas que cargas d´água ele queria? Eu não enxerguei em momento nenhum algum sinal de divina fé no cotidiano. E julgava que dois mil anos seriam suficientes para uma boa administração renovada pelo filho ter melhorias contundentes. Enfim, não discuti com o velhinho. Perdoei. Ele não sabia o que dizia.

O moço disse, depois de tantos protocolos e autenticações, que eu precisava revigorar minha fé. Fé? Era engraçado até ouvir isso. Cansei. Lembrei da fumaça dos cigarros que eu desenhava em meus momentos introspectivos. Meu copo de cerveja, meu cotidiano, minha vida. Para mim, fechava a conta, passava a régua. Fiz a leve reclamação aos céus: por favor, me abençoem! O fim não é tragédia, é destino.

trupe de quinta – fé
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter. ;)

amanda oliveiraandré pachecoizabel pompermayerlara marxnati boaventurarafael glassrodrigo casalesvictor godoi

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Tarjas rosas

Postado em Hemeroteca em 18/08/2009
Tarja rosa

Olhar pelas janelas deixou de ser algo desejado nos dias de sol. Na verdade, melhor ser debaixo de uma grande tempestade. As gotículas pregadas no vidro distorcem o que vejo além da sacada. Assim, posso me enfeitar com as mesmas promessas de liberdade que me fazem diariamente, da capacidade individual, incongestionável mesmo nesta cidade sempre parada.

Um par de cortinas. No final do mês, pagaria a última prestação. Estampada com flores que lembram o cerrado, sinto-me mais agradável trancada do lado de cá. Sou a melhor companhia para os ladrilhos tortos do mosaico da cozinha. Os tacos de madeira do escritório sentem-se mais felizes quando posso, sozinha, deslizar com um par de meias grossas.

Uma taça de vinho me transforma em imperadora. Mesmo que não tenha como nem porquê exercer qualquer poder.

Sei que essa minha particularidade me faz plural em tantos outros. Desde que não sequem esta janela, continuarei dopada dentro de meu frasco de alegria. Sei ainda que me chamam de iludida, fracassada ou estranha. Mas a ânsia de ser viva pode vir a causar uma morte quase instantânea.

Caso continuem a lamentar a minha rotina cronometrada, penso que vão em breve achar uma bela solução. Ainda não vendam na rede, mas já anunciaram hoje a tarde no programa da televisão. Creio que um mundo de gotas grossas e esparsas na vidraça seja a preferência de tantos, pois um pacote fácil pode ser comprado – onde o inimigo traça agora o acordo final. Se queres saber, quando vier a liquidação ninguém mais enxergará qualquer mal.

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