Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Lembro quando acordei e era de tarde. Chovia bastante, estava um pouco frio. Tomei banho, separei uma roupa e comecei a me arrumar para ir a um bar no fim do dia. Essa ida ao bar, que despertara junto comigo naquela tarde, era nítida em minha memória: lembrava perfeitamente do convite, dos sorrisos, da hora marcada e das confirmações de presença.
Quando cheguei à sala, minhas amigas com quem eu dividia a casa se espantaram com o fato de eu estar arrumada para sair. Pensei que era por causa da chuva forte que fazia e, já que não tínhamos carro, iríamos cancelar a nossa ida. Mas hei que o engano estava em toda a história. Afinal, nunca houvera o convite, os sorrisos, a hora marcada, tampouco presenças a confirmar.
O problema estava na minha incapacidade em diferenciar sonhos e realidade. E já não era a primeira vez que aquilo acontecia. Cenas prosaicas iam se mesclando em minha mente, mas eram falsas verdades, passado imaginado que não pertencia ao meu dia a dia. Era eu mesma sendo incapaz de discernir o real do imaginário, era eu mesma capaz de me enganar sem nenhum parte de mim se divertir.
A minha insônia agudizou. Meus olhos iam se afundando. Era como se a cama fosse uma prisão da minha realidade, perfurando minha mente com estacas afiadas. Eu temia meus sonhos, pois temia não saber mais de que passado eu era feita ao acordar.
Eram poucas as horas que eu dormia por dia. Consumida pela loucura da incompreensão (principalmente da auto-incompreensão), duvidei de mim mesma. Eu, minha principal inimiga. Minhas recordações foram postas em xeque: esta infância que tanto me recordo me pertence ou é apenas feita de sonhos que tomei como verdade?
Cada novo dia, uma nova dificuldade, uma nova possibilidade, um peso de sonolência. Meu coração acelerava só de pensar que aquela que evitava seus sonhos, botes de falsas realidades, poderia mais cedo ou mais tarde acordar deste pesadelo. Como desejar acabar com os sonhos se já não se sabe o que é real?
Tags: Desespero, Excêntrico, Memória, Pessoal, Realidade, Sonho 2Ela estava encostada no sofá da sala. A televisão desligada – só assiste a novela das seis, mesmo achando que os finais das novelas são sempre os mesmos, sem graça alguma. No teu corpo, a marca que o médico fez para a radioterapia que começará na próxima semana. São dez sessões ao todo. Ela pergunta a data, “catorze de maio”, respondo. “Hoje eu faria sessenta e três anos de casada.”
“Faria”, assim, no passado, pois o meu avô já não está mais aqui. “Sessenta e três anos, vó?”. Ela confirma com um sorriso no rosto. “Mas, então, você casou com dezesseis anos?”. Confirma novamente, e completa: “e seu avô com trinta e oito”.
Uma diferença enorme, notável. Diferença essa que o fez partir há dezessete anos por problemas de saúde, que vieram acompanhando a velhice. Lembro que eu era menina quando recebi a ligação do interior, onde moravam, avisando da morte dele.
Eu penteava os cabelos de minha mãe, naquele mesmo canto do sofá. Era bem o dia do meu aniversário. Sete anos para comemorar. Minha mãe desligou o telefone e me contou, sem muitas cerimônias. Ele era uma pessoa lacônica, com mistérios do silêncio sempre o rodeando. Eu, a única criança que ainda brincava com ele, mas não mais que duas vezes por ano.
“O passado parece virar música, não é, minha filha?”, perguntou minha avó para mim. Foi minha vez de sorrir. No vazio silencioso da sala, parecia mesmo que alguma música teimava em cantar em nós.
Tags: Pessoal, Realidade, Tempo 2
O hábito de andar pelas ruas próximas começou quando minha cabeça pesava demais dentro do apartamento e a fuligem incomodava a minha tarde. Era como me colocar no varal para que o vento pudesse passar por todos meus cantos, levando o cansaço, a tensão e a apatia que alguns pensamentos teimavam em injetar em mim. Em uma dessas caminhadas despreocupadas, sentei no meio fio próximo à uma floricultura.
Um som, um verso, um refrão caía em meus ouvidos. A distração fez com que eu parasse de descascar o esmalte que envernizava minhas unhas. Ainda não sei dizer se o que faz daquela canção ser tão tocante é culpa de sua melodia perfeita ou dos meus desgastados momentos. Cabia alguma arte dentro de mim?
As janelas no alto pareciam atirar em meu corpo, quase derramado na escuridão do asfalto. Derreti exposta ao sol em uma lava improdutiva. Ainda dei um último trago no cigarro antes de mesclar com o resto de petróleo. Não temi a morte.
Tags: Música, Realidade 7
Comeu sete cataventos pela manhã, enquanto o sabor do leite ainda colava no céu da boca. A canela por cima do bolo de chafariz convidava para mais uma doçura do dia. Desenhou com a ponta dos dedos uma xícara de louça com curvas e retas. Tomou-a na mão, amassou-a e a fez de puro pó.
Andou com pés de Sucupira. Seguida pelo fogo brando, cuspia pétalas de lírios pelos bosques. Encontrou o rio banhado de estrelas, que reinavam no fundo do leito em busca do mar. Um tridente se erguia e permitia que a ponte de conchas se levantasse para a menina completar a travessia.
As areias coloridas beliscavam seus pés – eram cócegas e provocações. O escorpião, vestido de azul prateado, trazia seu mel para ela experimentar. As listras do céu se afinavam, sinal claro de que o tempo iria acelerar.
Espremida pelos segundos, passou veloz pelo curral, onde humanos relinchavam antes de serem pesados e moídos. Passou ainda pelo corredor das florestas de árvores de graviolas – estas, não mais verdes, nem mesmo ásperas. O sabor era de auroras.
O que incomodou, já perto do seu destino, foi a lasca de sais de prata colados no vidro que a feriu. Um caco de espelho ali perdido deixava o seu mundo agora menos colorido. Não chegou a atrevessar, mas entristeceu-se ao espiar o mundo que construiram do lado de lá.
Tags: Excêntrico, Realidade, Trupe de Quinta 5trupe de quinta – através do espelho
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter.![]()
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