Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

O rei entediado

Postado em Contos e Crônicas em 20/07/2010

Olha só, não fiz nenhuma despedida daquela cidade, nem dos amigos que ali eu tinha, simplesmente para evitar aqueles exageros da hora de dizer adeus. Eu tenho uma relação muito simples com a partida: é dada a hora, que mal faz? Cada qual segue para um canto e, aquilo que tiver que durar, não duvides, dura.

Eu nunca gostei muito de reencontrar pessoas que não duraram nas calçadas da vida. Por exemplo, faz mais de dez anos que terminei a faculdade. Se é difícil ser simpático com aquele ex-colega que sequer lembro a voz de tão pouco que conversamos, imagine como é constrangedor quando tenho que dar atenção aqueles ex-colegas da escola. Esses eu nem arrisco o nome, nem me preocupo em rebater as perguntas que me fazem – que sei, em nada lhe interessam – com o casual “e você?”. Simples: não tem você, encurtemos o momento e sigamos em nossas linhas. Se por acaso tais linhas se encontraram faz anos, por qual motivo elas deveriam ficar se enlaçando sempre? Sou defensor das paralelas finitas.

Fui então para outra cidade, o que eu fazia de tempos em tempos. Não é uma doença ou um transtorno em ter que me mudar quase todos anos. É apenas uma inquietude de quem se cansa fácil da monotonia do mundo, mesmo sabendo que logo logo eu irei me fartar dos cotidianos de algures, não vejo razão de não tentar perceber as minúcias que farão tais dias mais inovadores.

Na nova cidade, porém, fui recebido de uma forma muito estranha. No segundo dia, por incrível que pareça, fui nomeado rei daquele vilarejo. Era então a minha chance de remodelar aqueles cotidianos quando bem eu quisesse. Poderia baixar uma nova lei, dizendo que as casas mudassem de cor de mês em mês. A receita do pão que vendiam na feira, borrachudo e pouco corado, ordenei que mudassem. Agora vinha com pedaços de cereais. Proibi que houvessem crianças sem brinquedos, que chovesse no final da tarde, que as folhas caíssem no outono, que os ventos soprassem areia para dentro das casas.

Aos poucos, de lei em lei, ia mudando o dia a dia. Revogava uma, inventava outra, proibia aqui, permitia acolá. Era como soprar os dias como balões, até o momento que eles não aguentavam mais de tão cheios e… estouravam em brisas suaves no amanhã. Mas chegou o dia que eu já estava cansado de mim. Não quis mais ser rei, era muito enjoativo isso de mandar aqui e obedecerem lá. Também já não sabia mais o que seria possível inventar, nenhuma nova ideia conseguia entrar em minha mente. E eram muitos pedidos de todos os cantos de leis que eu já não sabia se eram boas ou ruins, se deixariam os dias mais monótonos ou mais radiantes. Leis por leis não me interessavam. Reis por reis, também não.

Parti mais uma vez. Nomeei como meu sucessor todos aqueles que nasceram naquele vilarejo. Antes de cruzar a estrada da saída da cidade, vi um vendaval de confusões. De leis que inventavam e que outros, em seu cargo de tão igual nobreza, revogavam imediatamente. Ah, se bem querem saber, me arrependo de ter passado assim meu reinado para todos aqueles que agora gozavam do poder. Era mais interessante ter extinto de uma vez essa história de reinado, para ver como os sonhos ali iriam crescer.

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