Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

(Nor)destinados e Nordesti(nadas)

Postado em Aninha em 19/07/2010

Olhar o Nordeste de cima parece uma tarefa muito simples e agradável. Estar na parte submissa, aqui embaixo, onde me encontro, com o selo de proveniência apontando o sertão da Bahia, é uma tarefa de estômago forte. Hoje um texto publicado em um blog (e repercutido pelo twitter) fez eu me sentir novamente na representação de baixo pra cima, de cima pra baixo. Esses pequenos “desabafos”, que partem de uma pessoa, mas encontra eco em tantos outros transeuntes de tantos locais (não só São Paulo, e não só longe do Nordeste), são como palcos de lembranças, de tristes lembranças.

Com todas as letras, ouvi um colega de trabalho, quando morei em São Paulo, me explicar porque aquela cidade estava um caos. Ele se referia ao trânsito. A solução encontrada por ele não foi na malha de metrô ser ineficiente para uma cidade daquela proporção, ou que o sistema de ônibus precisava de investimento, e não de cortes, como havia ocorrido em tantas linhas. A resposta que ele me deu foi perguntando de onde eu vinha. Sim, a solução que ele me apresentou foi dizer que se cada um ficasse na sua cidade – no caso, eu era uma intrusa em São Paulo – a dele não ficaria naquela barbárie.

Este foi apenas um dos episódios que vivenciei que tentaram me colocar no meu lugar, no meu nor-destino. Ser nordestino é quase um erro, era a impressão que eu tinha de tantos discursos e apontamentos. Era como eu ter sotaque, como característica intrínseca do nordestino, e apenas dele, e esse mesmo sotaque me retirar de uma entrevista de emprego. Era como as perguntas sobre o quão desenvolvido era esse meu “primeiro-país”, o Nordeste. Se eu conheço kiwi, se eu conheço foie gras (que tipo de pessoa valoriza tanto esses conhecimentos esdrúxulos?). E que tal as piadas e expressões cotidianas? Afinal, baiano não é apenas o adjetivo de quem nasceu na Bahia, certo?

Ser nordestino é viver dentro de um determinismo geográfico. Ultrapassado, inútil, burro, preconceituoso. Ser nordestino é receber os outros como se fosse um favor eles visitarem sua terra, pois eles se acharão como os responsáveis por circular dinheiro naquela terra. Será que deixarão uma gorjeta para nós no jantar?

Ser nordestino é ter o sangue da preguiça, a vocação para o ócio, a tarefa da procrastinação, desde que esqueçam a força dos nossos braços para a construção do país, o esforço intelectual e artístico que somamos enquanto nação, as inovações em programas que criamos para ajudar tantos, independente dos traços inventados pelos homens para separar as porções de terras. Aos nossos méritos, o esquecimento parece mais adequado aos que nos julgam antemão de qualquer interesse em entender essa prévia posição.

Mas parece que é isso mesmo, as pessoas que se dizem modernas conseguem defender o bairrismo em um texto que supostamente defende a globalização. Conseguem pensar o espaço público apenas de uma perspectiva privada (minha cidade, meus prédios, meu patrimônio, minha Pasárgada). Sim, pois na Pasárgada és amigo do rei. Rei este que aprisiona na barriga, após engoli-lo. Mas sequer percebe que a coroa arranhara sua garganta, e não há como cantar sem inflamar os sulcos rasgados por suas pontas.

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Uma Ana

Postado em Contos e Crônicas em 17/02/2010
Uma Ana

Quando o dia não rendia e o tédio era a única certeza com o passar das horas, ela percorria o olhar pelas linhas retas e longas das persianas do quarto. Na cozinha, dissolvia o açúcar no café com paciência e demoradamente, para que o tilintar da colher na xícara repousasse como música por alguns instantes. Um lapso de ritmo em uma manhã oca.

Na varanda, esperava as nuvens passearem até que o azul incomodasse seus olhos. Segurava no parapeito e lançava algumas folhas secas das velhas flores que enfeitavam a sacada.

As águas escorriam do chuveiro em suas costas. O banheiro se desenroscava em uma paisagem de brancos azulejos e de vapor quente – na aquarela passageira do vidro, escrevia seu nome: “Ana”. Três letras apenas que pareciam não combinar, mas, de tão comuns, tem-se por harmônicas.

Espremia os dedos das mãos um por um, no barulho que variava do conforto ao incômodo. Circulava as pás do ventilador desligado. Olhava pelo espelho os cabelos curtos, castanhos e sem jeito que pareciam desafiar os olhos calmos e grandes.

Jogou o livro que começara a ler na noite passada no fundo da mesa – “desisto desta leitura aborrecedora”. Sentou na mesma cadeira tediosa. Começou a olhar as linhas da persiana. Novamente. Não havia passado mais do que quinze minutos.

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Fôlego

Postado em Contos e Crônicas em 19/11/2009
Fôlego

Cada gota de suor que saia da minha nuca escorrendo pelas minhas costas se esfriavam rapidamente. Eram leves e tenras, sempre arranhando o leito de suas corridas. Quando percebi que estava mais fria do que o normal, senti que minha visão entrava em um destino turvo, sem saber distinguir as realidades dos sonhos, as exatidões dos incompreensíveis.

Um lapso do meu tempo foi esquecido. Fui escorada em ombros de quem nem me recordo o nome. Sentada na cadeira do ônibus, aguardei seu esvaziamento. Meus braços estavam imóveis, imersos em cãibras que me agoniavam e me deixavam mais afastadas do meu cotidiano. O desespero batia firme em meu coração, que poderia a qualquer instante ver um sopro se tornar um furacão.

Com o pisca-alerta ligado e com a mão intensamente na buzina, o ônibus desgovernou-se da lógica diária para ir rumo ao hospital mais próximo. Consegui mexer meus dedos, consegui eu mesma tomar água e secar minhas lágrimas com as mãos.

A cadeira do hospital me guiou por instantes pelas ruas e corredores. Atendimento, senha número 53. É tarde, há tarefas lá fora. Consultório, previsão de 381 minutos. É muito, há vida lá fora. Guardei aquele pedaço dentro de meu suor, da aflição comum e silenciosa que nos ronda diariamente. Afoguei aqueles instantes como quem não percebe o último gole de água.

trupe de quinta – afogamento
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter. ;)

amanda oliveiraandré pachecoelisa françaizabel pompermayerlara marxnati boaventurarafael glassrodrigo casalesvictor godoi

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Ubuntu

Postado em Contos e Crônicas em 08/11/2009
Ubuntu

Café nem sempre tem aquele doce amargo que esperamos. A culpa não vem do adoçante nem do açúcar, talvez nem do café ou da balconista. Pode ser até mesmo da minha saliva, ou o músculo anestesiado da minha língua. Custou três moedas. A asa da xícara era arredondada e bem pequena, de um jeito que segurá-la significava espremer a louça branca entre os meus dedos. O que me agrada no café expresso é a cor de creme, a textura macia de onde vem o vapor.

A poltrona vermelha ficava no corredor das salas de cinema. Aguardava minha sessão. Ia começar dentro de uma hora. Levei um livro já premeditando isto e encostei-me em uma poltrona vermelha individual, logo ao lado do balcão de cigarros. De onde estava, conseguia ver o restaurante na parte superior do cinema, onde uma salada simples era servida para uma loira, acompanhada de um casal de amigos dividindo uma garrafa de vinho.

Minha concentração é muito defasada, e aquelas teorias da comunicação e da cultura que me davam fortes botes e que tanto me instigavam eram, por vezes, trocadas pelos miúdos acontecimentos temporários que se desenrolavam naquele corredor de cinema. Em minha frente, alguns sofás brancos acolchoados deitavam-se em tapetes de cores fortes. O ambiente era bem iluminado, e as lajotas claras deixavam sempre um ar de frescor e limpeza.

Encrustada naquela região nobre em que as películas são selecionadas pela elegância, sempre existe uma boa exposição de fotos. Ali, naquele mesmo corredor em que eu me sentava na poltrona e me deliciava com o vazio insistente do domingo. A exposição era recente, não me recordo o nome da fotógrafa, mas lembro do título: Ubuntu. Não sabia o significado, mas achei a sonoridade forte.

Era uma moça esguia em um lindo vestido azul. Uma tiara forrada em pano quadriculado a coroava. Tinha passos suaves e deslizava em seus cabelos castanhos e lisos. Acompanhada de outra mulher, esta mais velha, não menos elegante em um estilo mais colorido e que desenhava uma aquarela agradável aos que a assistiam. Entre as páginas teóricas e o desfile das moças, fiz uma suposição – as fotos.

Aquelas fotos eram invasoras de uma realidade. A imagem de uma Africa através de suas pessoas, de sua cor negra – que ali se resumia a balconista que me entregou o café. A Africa bela nas lentes da fotógrafa. Beleza esta extremamente estética, inócua em social. E era essa a intermediação possível naquele momento, naquele instante, naquele local. O ardor era ver que o “ubuntu” tornou-se este invólucro de agressividade passiva, porque, antes de tudo, era retrato, imagem, textura.

Ubuntu. A palavra martelou em minha cabeça ainda durante a sessão. Repeti mil vezes para mim mesma para que decorasse e pesquisasse sobre este nome, exposição, valor, o que for. Pensei ser uma semente, uma árvore, uma cultura. Ubuntu, palavra forte. Ubuntu. “Humanidade para todos”, grafou-se.

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