<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>anacrônicas &#187; São Paulo</title>
	<atom:link href="http://anacronicas.com.br/blog/tag/sao-paulo/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://anacronicas.com.br/blog</link>
	<description>www.anacronicas.com.br</description>
	<lastBuildDate>Wed, 08 Sep 2010 20:28:58 +0000</lastBuildDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.9.2</generator>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<item>
		<title>rimas de são paulo</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2010/09/rimas-de-sao-paulo/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2010/09/rimas-de-sao-paulo/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 03 Sep 2010 21:07:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=730</guid>
		<description><![CDATA[
são paulo passa
como uma farsa
de aço, trilhos, metal
são paulo parte
o seu estandarte
em dias de vendaval
são paulo traz
dos Jardins ao Brás
o seu contraste habitual
são paulo fica
pela poesia ferida
e pede um ponto final
mas antes são paulo reclama pela sua falta de ar, tuberculose, gripe e insônia em um bar ou prostíbulo que escreve em sua parede: sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/3707073"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/09/nada-rima-com-são-paulo.jpg" alt="" title="nada rima com são paulo" width="510" height="210" class="aligncenter size-full wp-image-731" /></a></div>
<p>são paulo passa<br />
como uma farsa<br />
de aço, trilhos, metal</p>
<p>são paulo parte<br />
o seu estandarte<br />
em dias de vendaval</p>
<p>são paulo traz<br />
dos Jardins ao Brás<br />
o seu contraste habitual</p>
<p>são paulo fica<br />
pela poesia ferida<br />
e pede um ponto final</p>
<p>mas antes são paulo reclama pela sua falta de ar, tuberculose, gripe e insônia em um bar ou prostíbulo que escreve em sua parede: sua oportunidade está por chegar.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2010/09/rimas-de-sao-paulo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>(Nor)destinados e Nordesti(nadas)</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2010/07/nordestinados-e-nordestinadas/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2010/07/nordestinados-e-nordestinadas/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 19 Jul 2010 03:28:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Aninha]]></category>
		<category><![CDATA[Nordeste]]></category>
		<category><![CDATA[Preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=636</guid>
		<description><![CDATA[
Olhar o Nordeste de cima parece uma tarefa muito simples e agradável. Estar na parte submissa, aqui embaixo, onde me encontro, com o selo de proveniência apontando o sertão da Bahia, é uma tarefa de estômago forte. Hoje um texto publicado em um blog (e repercutido pelo twitter) fez eu me sentir novamente na representação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/nordestinos.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/nordestinos.jpg" alt="" title="nordestinos" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-637" /></a></div>
<p>Olhar o Nordeste de cima parece uma tarefa muito simples e agradável. Estar na parte submissa, aqui embaixo, onde me encontro, com o selo de proveniência apontando o sertão da Bahia, é uma tarefa de estômago forte. Hoje <strong><a href="http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:cPyMlCPfCxkJ:junkveganfood.blogspot.com/2010/07/desabafo.html+http://junkveganfood.blogspot.com/2010/07/desabafo.html&#038;cd=4&#038;hl=pt-BR&#038;ct=clnk&#038;gl=br">um texto publicado em um blog</a> </strong>(e repercutido pelo twitter) fez eu me sentir novamente na representação de baixo pra cima, de cima pra baixo. Esses pequenos “desabafos”, que partem de uma pessoa, mas encontra eco em tantos outros transeuntes de tantos locais (não só São Paulo, e não só longe do Nordeste), são como palcos de lembranças, de tristes lembranças.</p>
<p>Com todas as letras, ouvi um colega de trabalho, quando morei em São Paulo, me explicar porque aquela cidade estava um caos. Ele se referia ao trânsito. A solução encontrada por ele não foi na malha de metrô ser ineficiente para uma cidade daquela proporção, ou que o sistema de ônibus precisava de investimento, e não de cortes, como havia ocorrido em tantas linhas. A resposta que ele me deu foi perguntando de onde eu vinha. Sim, a solução que ele me apresentou foi dizer que se cada um ficasse na sua cidade – no caso, eu era uma intrusa em São Paulo – a dele não ficaria naquela barbárie.</p>
<p>Este foi apenas um dos episódios que vivenciei que tentaram me colocar no meu lugar, no meu nor-destino. Ser nordestino é quase um erro, era a impressão que eu tinha de tantos discursos e apontamentos. Era como eu ter sotaque, como característica intrínseca do nordestino, e apenas dele, e esse mesmo sotaque me retirar de uma entrevista de emprego. Era como as perguntas sobre o quão desenvolvido era esse meu “primeiro-país”, o Nordeste. Se eu conheço kiwi, se eu conheço <em>foie gras</em> (que tipo de pessoa valoriza tanto esses conhecimentos esdrúxulos?). E que tal as piadas e expressões cotidianas? Afinal, baiano não é apenas o adjetivo de quem nasceu na Bahia, certo?</p>
<p>Ser nordestino é viver dentro de um determinismo geográfico. Ultrapassado, inútil, burro, preconceituoso. Ser nordestino é receber os outros como se fosse um favor eles visitarem sua terra, pois eles se acharão como os responsáveis por circular dinheiro naquela terra. Será que deixarão uma gorjeta para nós no jantar? </p>
<p>Ser nordestino é ter o sangue da preguiça, a vocação para o ócio, a tarefa da procrastinação, desde que esqueçam a força dos nossos braços para a construção do país, o esforço intelectual e artístico que somamos enquanto nação, as inovações em programas que criamos para ajudar tantos, independente dos traços inventados pelos homens para separar as porções de terras. Aos nossos méritos, o esquecimento parece mais adequado aos que nos julgam antemão de qualquer interesse em entender essa prévia posição.</p>
<p>Mas parece que é isso mesmo, as pessoas que se dizem modernas conseguem defender o bairrismo em um texto que supostamente defende a globalização. Conseguem pensar o espaço público apenas de uma perspectiva privada (minha cidade, meus prédios, meu patrimônio, minha Pasárgada). Sim, pois na Pasárgada és amigo do rei. Rei este que aprisiona na barriga, após engoli-lo. Mas sequer percebe que a coroa arranhara sua garganta, e não há como cantar sem inflamar os sulcos rasgados por suas pontas.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2010/07/nordestinados-e-nordestinadas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Uma Ana</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2010/02/uma-ana/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2010/02/uma-ana/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 17 Feb 2010 13:12:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=367</guid>
		<description><![CDATA[
Quando o dia não rendia e o tédio era a única certeza com o passar das horas, ela percorria o olhar pelas linhas retas e longas das persianas do quarto. Na cozinha, dissolvia o açúcar no café com paciência e demoradamente, para que o tilintar da colher na xícara repousasse como música por alguns instantes. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/11/Uma-Ana.jpg" alt="Uma Ana" title="Uma Ana" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-366" /></div>
<p>Quando o dia não rendia e o tédio era a única certeza com o passar das horas, ela percorria o olhar pelas linhas retas e longas das persianas do quarto. Na cozinha, dissolvia o açúcar no café com paciência e demoradamente, para que o tilintar da colher na xícara repousasse como música por alguns instantes. Um lapso de ritmo em uma manhã oca.</p>
<p>Na varanda, esperava as nuvens passearem até que o azul incomodasse seus olhos. Segurava no parapeito e lançava algumas folhas secas das velhas flores que enfeitavam a sacada.</p>
<p>As águas escorriam do chuveiro em suas costas. O banheiro se desenroscava em uma paisagem de brancos azulejos e de vapor quente &#8211; na aquarela passageira do vidro, escrevia seu nome: &#8220;Ana&#8221;. Três letras apenas que pareciam não combinar, mas, de tão comuns, tem-se por harmônicas.</p>
<p>Espremia os dedos das mãos um por um, no barulho que variava do conforto ao incômodo. Circulava as pás do ventilador desligado. Olhava pelo espelho os cabelos curtos, castanhos e sem jeito que pareciam desafiar os olhos calmos e grandes.</p>
<p>Jogou o livro que começara a ler na noite passada no fundo da mesa &#8211; &#8220;desisto desta leitura aborrecedora&#8221;. Sentou na mesma cadeira tediosa. Começou a olhar as linhas da persiana. Novamente. Não havia passado mais do que quinze minutos.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2010/02/uma-ana/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Fôlego</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/11/folego/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2009/11/folego/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 20 Nov 2009 01:09:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Desespero]]></category>
		<category><![CDATA[Líquido]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Trupe de Quinta]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=309</guid>
		<description><![CDATA[
Cada gota de suor que saia da minha nuca escorrendo pelas minhas costas se esfriavam rapidamente. Eram leves e tenras, sempre arranhando o leito de suas corridas. Quando percebi que estava mais fria do que o normal, senti que minha visão entrava em um destino turvo, sem saber distinguir as realidades dos sonhos, as exatidões [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/11/folego.jpg" alt="Fôlego" title="Fôlego" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-308" /></div>
<p>Cada gota de suor que saia da minha nuca escorrendo pelas minhas costas se esfriavam rapidamente. Eram leves e tenras, sempre arranhando o leito de suas corridas. Quando percebi que estava mais fria do que o normal, senti que minha visão entrava em um destino turvo, sem saber distinguir as realidades dos sonhos, as exatidões dos incompreensíveis.</p>
<p>Um lapso do meu tempo foi esquecido. Fui escorada em ombros de quem nem me recordo o nome. Sentada na cadeira do ônibus, aguardei seu esvaziamento. Meus braços estavam imóveis, imersos em cãibras que me agoniavam e me deixavam mais afastadas do meu cotidiano. O desespero batia firme em meu coração, que poderia a qualquer instante ver um sopro se tornar um furacão.</p>
<p>Com o pisca-alerta ligado e com a mão intensamente na buzina, o ônibus desgovernou-se da lógica diária para ir rumo ao hospital mais próximo. Consegui mexer meus dedos, consegui eu mesma tomar água e secar minhas lágrimas com as mãos. </p>
<p>A cadeira do hospital me guiou por instantes pelas ruas e corredores. Atendimento, senha número 53. É tarde, há tarefas lá fora. Consultório, previsão de 381 minutos. É muito, há vida lá fora. Guardei aquele pedaço dentro de meu suor, da aflição comum e silenciosa que nos ronda diariamente. Afoguei aqueles instantes como quem não percebe o último gole de água.</p>
<blockquote><p><strong>trupe de quinta &#8211; afogamento</strong><br />
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no <a href="http://www.twitter.com/trupedequinta">twitter</a>. <img src='http://anacronicas.com.br/blog/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><a href="http://amandaoliveira.wordpress.com/">amanda oliveira</a> • <a href="http://eu-quero-saber.blogspot.com/">andré pacheco</a> • <a href="http://elisafranca.wordpress.com/">elisa frança</a> • <a href="http://www.flickr.com/photos/belpompermayer">izabel pompermayer</a> • <a href="http://laramarx.wordpress.com">lara marx</a> • <a href="http://elementarmeucaroblog.wordpress.com/">nati boaventura</a> • <a href="http://www.diarioinbordo.blogspot.com/">rafael glass</a> • <a href="http://faixademobius.blogspot.com">rodrigo casales</a> • <a href="http://naoestasendofacil.wordpress.com ">victor godoi</a></p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2009/11/folego/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Ubuntu</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/11/ubuntu/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2009/11/ubuntu/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 08 Nov 2009 23:19:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=286</guid>
		<description><![CDATA[
Café nem sempre tem aquele doce amargo que esperamos. A culpa não vem do adoçante nem do açúcar, talvez nem do café ou da balconista. Pode ser até mesmo da minha saliva, ou o músculo anestesiado da minha língua. Custou três moedas. A asa da xícara era arredondada e bem pequena, de um jeito que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/11/Ubuntu.jpg" alt="Ubuntu" title="Ubuntu" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-285" /></div>
<p>Café nem sempre tem aquele doce amargo que esperamos. A culpa não vem do adoçante nem do açúcar, talvez nem do café ou da balconista. Pode ser até mesmo da minha saliva, ou o músculo anestesiado da minha língua. Custou três moedas. A asa da xícara era arredondada e bem pequena, de um jeito que segurá-la significava espremer a louça branca entre os meus dedos. O que me agrada no café expresso é a cor de creme, a textura macia de onde vem o vapor.</p>
<p>A poltrona vermelha ficava no corredor das salas de cinema. Aguardava minha sessão. Ia começar dentro de uma hora. Levei um livro já premeditando isto e encostei-me em uma poltrona vermelha individual, logo ao lado do balcão de cigarros. De onde estava, conseguia ver o restaurante na parte superior do cinema, onde uma salada simples era servida para uma loira, acompanhada de um casal de amigos dividindo uma garrafa de vinho.</p>
<p>Minha concentração é muito defasada, e aquelas teorias da comunicação e da cultura que me davam fortes botes e que tanto me instigavam eram, por vezes, trocadas pelos miúdos acontecimentos temporários que se desenrolavam naquele corredor de cinema. Em minha frente, alguns sofás brancos acolchoados deitavam-se em tapetes de cores fortes. O ambiente era bem iluminado, e as lajotas claras deixavam sempre um ar de frescor e limpeza.</p>
<p>Encrustada naquela região nobre em que as películas são selecionadas pela elegância, sempre existe uma boa exposição de fotos. Ali, naquele mesmo corredor em que eu me sentava na poltrona e me deliciava com o vazio insistente do domingo. A exposição era recente, não me recordo o nome da fotógrafa, mas lembro do título: Ubuntu. Não sabia o significado, mas achei a sonoridade forte.</p>
<p>Era uma moça esguia em um lindo vestido azul. Uma tiara forrada em pano quadriculado a coroava. Tinha passos suaves e deslizava em seus cabelos castanhos e lisos. Acompanhada de outra mulher, esta mais velha, não menos elegante em um estilo mais colorido e que desenhava uma aquarela agradável aos que a assistiam. Entre as páginas teóricas e o desfile das moças, fiz uma suposição – as fotos.</p>
<p>Aquelas fotos eram invasoras de uma realidade. A imagem de uma Africa através de suas pessoas, de sua cor negra – que ali se resumia a balconista que me entregou o café. A Africa bela nas lentes da fotógrafa. Beleza esta extremamente estética, inócua em social. E era essa a intermediação possível naquele momento, naquele instante, naquele local. O ardor era ver que o “ubuntu” tornou-se este invólucro de agressividade passiva, porque, antes de tudo, era retrato, imagem, textura.</p>
<p>Ubuntu. A palavra martelou em minha cabeça ainda durante a sessão. Repeti mil vezes para mim mesma para que decorasse e pesquisasse sobre este nome, exposição, valor, o que for. Pensei ser uma semente, uma árvore, uma cultura. Ubuntu, palavra forte. Ubuntu. “Humanidade para todos”, grafou-se.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2009/11/ubuntu/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Aqui dentro, chove</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/09/aqui-dentro-chove/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2009/09/aqui-dentro-chove/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 08 Sep 2009 22:58:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hemeroteca]]></category>
		<category><![CDATA[Chuva]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Líquido]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=129</guid>
		<description><![CDATA[
Pela manhã, a noite me visitou. Era o céu nublado, em tons de azul, cinza e roxo. O branco era o clarão que rasgava inesperadamente em raios, e trovoadas que selavam o som com a luz. O cabo do meu guarda-chuva era certamente ínfimo na proporção das gotas que invadiam minhas meias, meu tênias, minha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/08/Chove-aqui-dentro.jpg" alt="Chove aqui dentro" title="Chove aqui dentro" width="589" height="231" class="aligncenter size-full wp-image-128" /></div>
<p>Pela manhã, a noite me visitou. Era o céu <a href="http://oglobo.globo.com/cidades/sp/mat/2009/09/08/chuva-traz-caos-capital-paulista-provoca-tres-mortes-767516553.asp">nublado</a>, em tons de azul, cinza e roxo. O branco era o clarão que rasgava inesperadamente em raios, e trovoadas que selavam o som com a luz. O cabo do meu <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,sp-teve-70-da-chuva-esperada-para-o-mes-na-manha-desta-3,431400,0.htm">guarda-chuva</a> era certamente ínfimo na proporção das gotas que invadiam minhas meias, meu tênias, minha calça e bolsa. O rosto se comprimia para que os olhos pudessem atravessar o líquido ar.</p>
<p>Um labirinto de mares de formava entre as esquinas da cidade, o asfalto era o leito caudaloso que abarcava as naus de gente. As luzes se acenderam nesta noite matinal – as trevas comeram o sol e a escuridão brotava das lâmpadas.</p>
<p>A roda de borracha ameaçava nas proximidades. O contorno dos pés já não existiam – se desmanchavam com a <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u621011.shtml">água</a>, se diluíam nas poças e, agora dissolvidos, mal deixavam o passo ter firmeza para chegar em seu destino.</p>
<p>Amolecida, a terra cedia. A lama crescia. O <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u621027.shtml">trânsito </a>se comprimia. O som se alastrava. O caos reinava. A agonia me sequestrava lentamente, ameaçando a terça-feira, comprometendo a quarta e amordaçando a quinta.</p>
<p>Secos, os tacos de madeira me aguardavam. Enxuta, a roupa de cama me aquece. Úmido, bate na janela o importuno, a lembrar que lá fora ainda há trânsito e lama, água e rostos, vidas e mortes.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2009/09/aqui-dentro-chove/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Oblíquio-obtusado</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/obliquio-obtusado/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/obliquio-obtusado/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 31 Aug 2009 02:15:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Aspas]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Humanidade]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Tempo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=112</guid>
		<description><![CDATA[

“A maior prova que existe vida inteligente em outros planetas é eles ainda não terem feito contato.”
Extraído da peça Cabaret das Utopias
Acordo em um horário não muito apropriado para tomar um café não muito cafeinado. Escuto uma música mal arranjada, dou sorrisos para a vizinha mal arrumada. Desço as escadas não muito bem limpadas, reclamo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/08/a-esquina.jpg" alt="Obtuso" title="Oblíquio-obtusado" width="510" height="240" class="aligncenter size-full wp-image-111" /></div>
<p></p>
<blockquote><p>“A maior prova que existe vida inteligente em outros planetas é eles ainda não terem feito contato.”<br />
Extraído da peça Cabaret das Utopias</p></blockquote>
<p>Acordo em um horário não muito apropriado para tomar um café não muito cafeinado. Escuto uma música mal arranjada, dou sorrisos para a vizinha mal arrumada. Desço as escadas não muito bem limpadas, reclamo do elevador nunca consertado. Atravesso a rua bem mal humorado, aperto todas as quinas do meu rosto quadrado.</p>
<p>Compro o pão da promoção – está semi-mofado. Frito um ovo e coloco sal, assim estará temperado. Canso das rimas dos meus pensamentos, sempre tão equivocados. Hesito, erro, tropeço – eis mais um novo predicado.</p>
<p>Sinto um prego atravessando a sola do meu sapato. Não levarei ao sapateiro, que me cobrará bons trocados. Olho o céu apenas uma vez, dele já estou farto. O seu cinza não me comove nem aos novos namorados.</p>
<p>E passa o tempo do meu dia, assim todo ritmado. Sem graça e sem poesia, é tudo encenado. Quando a noite entra, penso que é a hora adequada, para pedir ao homem da nave me fazer um alienado.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/obliquio-obtusado/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Sobre a consistência humana</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/sobre-a-consistencia-humana/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/sobre-a-consistencia-humana/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2009 22:37:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Grito]]></category>
		<category><![CDATA[Humanidade]]></category>
		<category><![CDATA[Realidade]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=83</guid>
		<description><![CDATA[
A água que lavava meu rosto estava fria. Derramava a jarra de louça branca dentro da bacia. Lavava meus pés todos os dias pela manhã. Calçando a sandália de couro, percorria os degraus que desaguavam no calçado do prédio. Eu precisava muito me mudar daquele apartamento, que carregava muitas angústias e poucas alegrias. Minha boca [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/08/consistencia.jpg" alt="Consistência" title="Consistência" width="510" height="260" class="aligncenter size-full wp-image-82" /></div>
<p>A água que lavava meu rosto estava fria. Derramava a jarra de louça branca dentro da bacia. Lavava meus pés todos os dias pela manhã. Calçando a sandália de couro, percorria os degraus que desaguavam no calçado do prédio. Eu precisava muito me mudar daquele apartamento, que carregava muitas angústias e poucas alegrias. Minha boca ainda estava manchada do corante forte do vinho barato que tomava todas sextas-feiras. </p>
<p>Lembro que achava cedo demais, em um sábado nublado, para começar a ver as cenas esdrúxulas e, por vezes, azedas, que o mundo engarrafado dentro de uma cidade grande poderia oferecer. Via, tristemente, a cena de um homem, um senhor de idade, com cabelos curtos e grisalhos, apenas com um vestido amarelo. Ele, assim travestido, mais me parecia como uma figura ridícula de algum cabaré que estaria se desintegrando entre a luxúria e o absinto.</p>
<p>A boca que gritava, os lábios expansivos daquele senhor, me mostravam &#8211; como uma tela de arte clássica &#8211; que o mundo escolhia a barbárie cotidiana, muito mais confortante que a mudança constante. Já não me importava, tampouco me interessava se eles, meros transeuntes, queriam conquistar mentes e corações, queriam hastear bandeiras de verdadeiras igualdades, de fins de dominações. Eu preferia assistir ao espetáculo da desordem, em seus mais inacreditáveis esquetes diários, disponíveis e gratuitos em qualquer pedaço de calçada livre.</p>
<p>Aquele homem, aquele senhor de cabelos grisalhos, tampouco sabia o que gritava e nem sabia se era alguém. Dava para sentir o cheiro do álcool a uma certa distância e eu só podia afirmar que eu queria ficar longe dele, mas precisava de sua presença. Ele era a prova que meu dia poderia ser melhor do que o de alguém e que minha existência, tão insignificante e sem pretensão nenhuma de ser o reverso, estava ao menos longe das barras de um vestido que nem mesmo em um brechó se encontra, em um tom de amarelo que mais parecia doença.</p>
<p>Aquela cena, sem nenhuma novidade cromática, absolutamente cotidiana e perfeitamente encaixada em uma cidade que, de tantas pessoas presentes, se imergia em uma melancólica depressão, me parecia ganhar uma alma. Talvez fosse a minha, que certamente esqueci em um pedaço de asfalto descascado. Alguma alma, alguma aura, algum raio iluminava aquele momento que seria tão ridiculamente ignorado.</p>
<p>Já estava hipnotizada e não podia descolar as lentes dos meus olhos daquela dança, que na verdade era contorcionismo de quem não é nada neste mundo, nem si mesmo. E aquele desespero parecia me esquentar, por ser algo aparentemente humano, talvez emocional, talvez encoberto em pele quente.</p>
<p>O homem, o senhor que tinha a pele que parecia elástico, que se sustentava com dificuldade num resto de sobriedade que abraçava suas pernas, enrugava o rosto no desespero que era viver em um mundo intensamente incomum. Não conseguiu mergulhar em nenhum poço de justiça, não encontrou nenhum grão de dignidade, não lhe foi ofertada nenhuma sorte a seguir. Seu destino era uma sina, daquelas enfardadas de autoritarismo, cujo único mando é a debilidade.</p>
<p>Quanto mais aquele homem ensaiava o seu grito, que na garganta estava entalada, mais eu via o seu contorno ser vívido. Ele não gritava, pois o vazio era incapaz de emitir qualquer som. Ele não berrava, porque lhe fora proibido ter o direito de se manifestar, ele não comia, porque a carne e seus músculos precisavam se desnutrir. Para que fosse homem, precisava sumir. Era incapaz de o ser totalmente em uma plateia que era capaz de percebê-lo, mas o negava. A paleteia o via, e se forçava a esquecer, a tornar aquilo tão presente em seus arredores em uma mera, pura e simples paisagem.</p>
<p>Cada desprezo que ele sofria, cada pessoa que se esbarrava em seu ombro como se fosse carne podre, era suficientemente sensível para me desintegrar. Quis, por um instante, subir as escadas e voltar para casa, quis apagar as aparências estranhas, as essências dilacerantes que me furavam. Era impossível, naquela cena agora tão bela, tão ardorosamente límpida, negar o que era. Meu joelho começara a escoar, meu corpo se desfez. Eram as sensações. Condenadas sejam todas elas. Quando meus olhos escorreram pelo esgoto, me senti plenamente humana. Acho que ouvi o grito do homem. Mas não sei o que ele dizia. Ainda.</p>
<p>* A ilustração foi retirada do site da artista <a href="http://www.macyawad.com/paper019.htm">Macy Awad.</a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/sobre-a-consistencia-humana/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Tarjas rosas</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/tarjas-rosas/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/tarjas-rosas/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2009 23:15:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hemeroteca]]></category>
		<category><![CDATA[Desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[Paz]]></category>
		<category><![CDATA[Realidade]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Solidão]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=68</guid>
		<description><![CDATA[
Olhar pelas janelas deixou de ser algo desejado nos dias de sol. Na verdade, melhor ser debaixo de uma grande tempestade. As gotículas pregadas no vidro distorcem o que vejo além da sacada. Assim, posso me enfeitar com as mesmas promessas de liberdade que me fazem diariamente, da capacidade individual, incongestionável mesmo nesta cidade sempre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/08/almaembalada.jpg" alt="Tarja rosa" title="Tarja rosa" width="510" height="300" class="aligncenter size-full wp-image-69" /></div>
<p>Olhar pelas janelas deixou de ser algo desejado nos dias de sol. Na verdade, melhor ser debaixo de uma grande tempestade. As gotículas pregadas no vidro distorcem o que vejo além da sacada. Assim, posso me enfeitar com as mesmas promessas de liberdade que me fazem diariamente, da capacidade individual, <a href="http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/politica-economica-de-lula-garante-lucros-aos-bancos">incongestionável </a>mesmo nesta cidade sempre parada.</p>
<p>Um par de cortinas. No final do mês, pagaria a última prestação. Estampada com flores que lembram o cerrado, sinto-me mais agradável trancada do lado de cá. Sou a melhor companhia para os ladrilhos tortos do mosaico da cozinha. Os tacos de madeira do escritório sentem-se mais felizes quando posso, sozinha, deslizar com um par de meias grossas.</p>
<p>Uma taça de vinho me transforma em imperadora. Mesmo que não tenha como nem porquê exercer qualquer poder.</p>
<p>Sei que essa minha particularidade me faz <a href="http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/NoticiasIntegra.asp?id_artigo=7365">plural </a>em tantos outros. Desde que não sequem esta janela, continuarei dopada dentro de meu frasco de alegria. Sei ainda que me chamam de iludida, fracassada ou estranha. Mas a ânsia de ser viva pode vir a causar uma morte quase instantânea.</p>
<p>Caso continuem a lamentar a minha rotina cronometrada, penso que vão em breve achar uma bela solução. Ainda não vendam na rede, mas já anunciaram hoje a tarde no programa da televisão. Creio que um mundo de gotas grossas e esparsas na vidraça seja a preferência de tantos, pois um pacote fácil pode ser comprado &#8211; onde o inimigo traça agora o <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,eua-terao-plano-de-paz-para-o-oriente-medio-em-setembro,420756,0.htm">acordo </a>final. Se queres saber, quando vier a liquidação ninguém mais enxergará qualquer mal.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/tarjas-rosas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Alma embalada</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/alma-embalada/</link>
		<comments>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/alma-embalada/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 15 Aug 2009 21:45:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://anacronicas.com.br/blog/?p=37</guid>
		<description><![CDATA[
Nos primeiros passos da manhã, não me importavam as meias úmidas dentro dos sapatos vermelhos de plástico. As pernas, cansadas, desejavam respirar os raios do sol, que teimavam em se esconder no topo das nuvens. As copas das árvores balançavam com o vento e meus olhos acompanhavam a chuva fina e fria. Em cada gota [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/08/alma.jpg" alt="Alma embalada" title="Alma embalada" /></div>
<p>Nos primeiros passos da manhã, não me importavam as meias úmidas dentro dos sapatos vermelhos de plástico. As pernas, cansadas, desejavam respirar os raios do sol, que teimavam em se esconder no topo das nuvens. As copas das árvores balançavam com o vento e meus olhos acompanhavam a chuva fina e fria. Em cada gota que repousava na minha pele, a fuligem desenhava o poder das chaminés que pulsavam dentro e fora daquela cidade.</p>
<p>Os canos internos de meu nariz pareciam irritados com as circulações esfumaçadas. Não sabia se estavam ressecados ou excessivamente frágeis, a verdade é que às vezes eles sangravam. Precisava me acostumar em ter bacias de água espalhadas pela casa, talvez melhorasse. No trabalho, uma amiga me alertava que sofria do mesmo mal. Talvez fosse algum problema genético, ou uma frescura desmedida que veio me importunar.</p>
<p>Na hora do almoço, uma bandeja de metal encostou em meu ombro sem querer. Perdoei o rapaz, que sequer pediu tal perdão. Não achei indelicado, pois pedi sem pronunciar, apenas com um gesto simples de mão. Minhas costas sentiam forte dor, não sei se por falta de alongamento, desvio, lordose, tensão, estresse. Será que poderia ser alguma outra coisa? Confesso que senti até mesmo um alívio. Sentia meu corpo mais humano quando era forçado a ter sensações de reflexo e de angústia, como a incursão da bandeja em minha pele, ainda que de forma superficial.</p>
<p>Como o dia estava de chuva, não achei os corpos que costumam se deitar pelas calçadas. Costumava entregar para algum deles a maçã que recebia de cortesia do restaurante. Às vezes, entregava uma moeda. Mas sentia-me meio constrangida, como se estivesse fazendo algo errado. Em um súbito pensamento, até agradeci, pois ficava mais fácil caminhar pela calçada e não sentia aquele cheiro azedo subir quando me aproximava dos corpos – tão pouco importava se homens, mulheres, negros, índios, amarelos, brancos, roxos&#8230;</p>
<p>A tosse costumava aparecer às três horas da tarde. Era pontualíssima. A secretaria do chefe de departamento costumava culpar o ar condicionado. Acredito que era uma jogada dela, que sempre dizia que não poderia aparecer porque acordara muito mal da garganta. Odeio pessoas folgadas. Já a assessora jurídica da empresa teimava em me dizer, com o nariz reto e fino apontando para mim em um singelo tom de petulância, que a culpa era minha, que vivia tomando gelado. Depois das ásperas colocações, tentava ainda sutilmente parecer delicada e recomendava um bom chá de limão com mel.</p>
<p>Para a infernal tosse passar, nem troquei o ar condicionado pelo ventilador – até porque teria de ser uma decisão de toda a empresa – nem deixei de tomar meu sagrado picolé da tarde, tampouco de quebrar o gelo na boca até ele derreter. Em uma conversa de menos de quinze minutos com um taxista muito simpático, encontrei a receita ideal em algumas pílulas. Além de baratas, eram coloridas. Quebravam a monotonia do preto e cinza da minha louça de mesa.</p>
<p>Quando chegava em casa, ligava mecanicamente a televisão e dava boa noite ao apresentador. O sangue escorria do canal televisivo, deveria ter acontecido algum novo massacre esperado, ou um inédito crime repetido. Um anúncio do fim dos tempos, a nova virose passageira que matará toda humanidade, o caos que estoura a cada segundo na esquina de cada cidade. Eu não conseguia mais prestar atenção. Espera ansiosamente alguma programação mais banal, acrítica, impensada e idiotizante. Era quase um xarope que deveria engolir no final de cada dia.</p>
<p>Antes de escovar os dentes, olhava meu rosto no espelho. Minha pele estava cansada, mas não havia mais o que fazer. O médico disse que era natural, afinal eu enfrento horas diárias de condução, além do próprio trabalho, o cigarro depois do café (tentei largar sete vezes), os poros entupidos, a falta de lazer. Isso cansa a pele. Usava um tonificante importado, passava suavemente com um algodão. Tinha também um sabonete especial para peles oleosas. Um creme rejuvenescedor também era aplicado.</p>
<p>Nada adiantava, no outro dia, acordava com olheiras e uma nova acne usualmente vinha me visitar. Não sei qual era o problema, liguei três vezes para os serviços de atendimento ao consumidor, mas nunca me atenderam. Agendei um dermatologista, deste ano não ia passar. Aproveitaria para tirar algumas manchas causadas pelo sol – maldito seja.</p>
<p>No café da manhã, meu iogurte era servido para regular meu intestino. Além disso, era bom pra recompor a flora intestinal. Pela janela, percebia que o dia de hoje seria bem diferente, apto às mudanças. Já não chovia, poderia usar um sapato mais aberto. As meias úmidas do dia anterior estavam separadas para serem lavadas no final de semana. Tomava meu remédio antidepressivo. Duas voltas de chave na porta. Pronto. Era mais um dia da minha vida humana.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://anacronicas.com.br/blog/2009/08/alma-embalada/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
