Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Quando morava em Minas Gerais, uma vez alguém me perguntou como era a saudade que eu sentia da Bahia. O engraçado é que um dia antes da pergunta eu tinha pensado sobre o assunto. É que eu estava a caminhar na beira da lagoa da universidade e comecei a sentir um leve cheiro de mar no ar. Sorri como quem não quer admitir que está sentindo a falta de algo que deixou pra trás. Era o cheiro de tantas manhãs que vivi em Salvador.
- São três sensações que sinto que me fazem perceber que estou com saudades.
- Quais sensações?
- O cheiro de mar, que aqui ainda sinto, apesar de saber que vem da memória e não das águas e do ar. O cheiro da minha colcha de cama, marrom com pequenas estampas, em par com a da minha irmã. E o cheiro – e textura – das mãos da minha mãe, leves com o hidratante barato e cheiroso que ela sempre tinha na pia do banheiro.
- São só cheiros, então?
- Sim… e não. Cheiros e também textura que são apenas uma ilustração daquilo tudo que me pertence, apesar de longe hoje…
Hoje, sinto o cheiro do mar com frequência. A colcha da minha cama já não está mais aqui, nem mesmo a minha cama de madeira, a escrivaninha com prateleiras onde passava a tarde a estudar para as provas do colégio. Minha mãe viajou, mas mesmo quando chegar, não sei se terá tempo para ficar abraçada comigo. E ela trocou a marca do hidratante. Mas acho que não era bem isso que importava.
Tags: Bahia, Diálogo, Infância, Lembranças, Mãe, Salvador, Saudade 2As músicas das lembranças costumam passar na rádio quando estamos dormindo. Sei disso porque tenho insônia e porque, como as passagens de avião são mais baratas na madrugada, vira e mexe tenho que levar alguém para embarque ou desembarque. É neste momento que deslizo pelas ruas da cidade, o deserto de concreto que parece tão suscetível, fraco diante das rodas do carro, doente com aquele silêncio que não se consegue em outro horário.
“I close my eyes”… Essa música me alegra. “Only for a moment, and the moment’s gone”… Dust in the wind, de Kansas. Se alguém me perguntar alguma outra música da banda, não conseguirei lembrar. Mas essa música, que para alguns pode ser velharia, antiquado, estranho, para mim são lembranças em seu estado mais puro. O pior é que eu não sei explicar porque, simplesmente algumas músicas tem cheiro de nossas histórias. É o caso dessa.
A rádio passou mais algumas músicas que me alegraram, mas que não tocavam em minhas recordações. Restou meus assovios descompassados, as batidas leves dos dedos no volante do carro e o som do parabrisa dançando por entre as finas gotas de água. Assim, meu dia poderia nascer melhor.
Continuei pelas estradas molhadas e vazias. Vez ou outra algum carro me ultrapassava, um caminhão aparecia. Mantive-me na segunda faixa até o final da estrada, peguei o viaduto e logo, logo estava perto de casa. A garagem escura, os carros, mais silêncio. Em minha mente, aquela música continuava tocando.
Tags: Lembranças, Música, Saudade 5Eu morava em uma cidade do interior, quando ainda bem cedo o único movimento da rua era uma moto com frascos de vidro em um compartimento acoplado. Os frascos guardavam o leite. Não sei de onde vinha, mas sempre esperava o leiteiro passar porque eu pegava carona na garupa até o final da rua e voltava correndo. Diversão de criança é feita com coisa pouca.
Ainda naquela cidade, vivi a espera na rua por outro carro. Agora era o gás de cozinha, com uma música melosa e enjoativa, a gente escutava e sabia no ato que era o carro do gás. Eram essas as passagens nas ruas dos meus dias ali. Então eu me mudei para a capital.
No bairro residencial bem longe do centro, achava divertido como o rapaz do carro que circulava nas tardes das quartas anunciava o camarão pistola. Minha mãe nunca comprou o camarão que ele vendia, mas lembro perfeitamente de como eram as palavras, a entonação, e até mesmo o carro.
Tinha ainda o carro da pamonha. Fresquinha e saborosa, dizia a musiquinha. Essa eu também nunca experimentei. Preferia o São João chegar com os milhos colhidos da roça e a pamonha feita pela minha mãe. Doces e salgadas.
O mais peculiar de todos, para mim, é o vendedor de taboca. Taboca é uma casquinha doce oca, vendida em forma de cilindros. Ela é guardada em uma lata de metal azul, levada como se fosse uma mochila pelo vendedor, que em momento algum anuncia a mercadoria. Ele sempre está com um triângulo e toca o mesmo ritmo de todos os dias. Quem vem de fora não tem ideia do que é aquilo, mas para quem vive aqui, não há razão para explicações.
E sempre foi assim pelas ruas que morei. Panos de prato, sacos de laranjas, cana de açúcar cortada em uma bacia, amendoim cozido, polpas de fruta, detergentes feitos em casa… Mas hoje, confesso, ouvir o anúncio novo da rua me deixou surpresa.
Passou o carro com a voz anunciando. Era um concurso público que acabara de anunciar o edital. O produto a ser vendido eram as aulas preparatórias para o concurso. Sei que o choque pode ter sido desproporcional, não era um erro que eu encontrava ali, era apenas a saudade dos fracos de leite, talvez.
Tags: Infância, Lembranças, Ruas, Saudade 3Era sua última semana em Paris e não eram mais as aulas de francês as suas prioridades. Deixou a língua irmã de lado para poder se aventurar no coração da Europa, em um sonho de passado e futuro, de presente reinventado, de histórias que já se foram, mas ainda pulsam viva em algum canto daquela cidade. Ficou apenas com a lembrança da tarefa que a professora havia dado: na sexta-feira, cada um deveria descrever o país de origem através para os outros aprenderem um pedaço visto por seus colegas.
Após três dias sem aparecer na escola, voltou à cadeira de estudante. Pediu licença à professora e aos colegas, que já sabiam de sua partida mais tarde. Convivera pouco tempo com eles, mas o suficiente para se apegar. Disse à professora que, apesar do sumiço, não esquecera da tarefa proposta e iria sim descrever o país de onde viera para todos presentes, ainda que em seu restrito domínio do francês.
Na lousa, escreveu uma palavra. Saudade. Palavra esta usada como símbolo do português, que encobre a sua língua materna de docilidade e sentimentalismos, de romantismos e belezas, que jogam confetes para as pronúncias desenhadas pelo latim. Saudade, a palavra sem tradução. Começou a contar:
- Quando o rei de Portugal, Dom Sebastião, partiu rumo a Marrocos em uma de tantas batalhas que faziam naquela época, deixou um povo à sua espera. Mas ele não voltou. Ali a estória poderia terminar em um sentimento de profunda tristeza daqueles que sentiam falta do rei. Mas a morte de Sebastião não foi testemunhada por ninguém. Junto a tristeza da partida, havia a esperança do retorno. Convivia, assim, no sentimento português a melancolia de uma perda, com a alegria de um reencontro. Era esse o sentimento de quem acreditava na volta do rei, era isso então o sentimento chamado de saudade. Saudade é agora o que sinto por vocês.
Deixou Paris, voltara ao Brasil. Na espera dele, do outro lado, um coração em saudade – exatamente assim, banhado em uma tristeza do tempo, angústia da espera, alegria do retorno. Vieram os seus olhos matar aquela saudade vibrante, que daria espaço a tantas outras saudades de um passado vívido de bons encontros.
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