Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

O Palco

Postado em Contos e Crônicas em 18/10/2009
Palco

O palco era em círculo, todo mundo poderia me ver ao mesmo tempo e em ângulos diferentes. Eu começava no centro, uma luz me iluminava. A música intensa. As lâmpadas do teatro esquentam, faz calor, começava a suar. Isso era como respirar o palco que pulsava dentro de mim. Antes de começar a recitar, prendia cordas entre as escadas. Cada escada, na verdade, era um pedaço da arquibancada.

Este era o único momento que eu poderia olhar para eles, que a todo instante me notavam. E, como disse, em todos os ângulos. Amarrei a primeira corda. Uma senhora de vestido azul me olhava com medo, ou seria apenas seriedade. Eu fixei meus olhos no fundo dos dela, ela ficou com a mesma reação.

A segunda corda eu amarrei rapidamente. Mal deu para notar que o rapaz que estava na terceira cadeira a minha esquerda sorria para mim. Talvez fosse melhor assim, eu poderia me inebriar a dúvida sobre o que poderia causar tão impacto dentro de todo o drama que eu começara a recitar?

A terceira corda, uma menina de preto dos pés à cabeça. Mas no lábios um vermelho discreto, um batom vaidoso de quem nunca sai de casa, que esconde aquela maquiagem – certamente um presente de um parente. O contorno de seus lábios era um sorriso misterioso. Só parecia completo se você percebesse ao mesmo tempo os seus olhos graúdos em jabuticabas. Doces e afiados, convidavam e repudiavam que fossem vistos por muito tempo.

Era um pulsar gélido dentro de mim, diante daquele olhar que me despia, me cobrava e me ridicularizava em minha posição. Tinha todo um texto a terminar, era meu monólogo, meu ato, minha tragédia. A dama petulante conseguira desatar as cordas de meu personagem de mim. Senti-me nu. Proferi as últimas frases com um alívio típico dos suspenses, com uma nota que não combinava com meus gestos.

A luz baixou. Fim da peça. O suor do calor das lâmpadas se agrava com minha ofegante respiração. Minhas mãos gelam. Olho para a plateia. Busco a moça de preto. Não deixou sequer o rastro de seu batom barato. Não está mais ali a minha provocação. Insolente, foi-se. Deixou-me ali – ator, ato, atado.

*Foto tirada daqui.

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