Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
A casa acorda ilhada, o chão parece de lama, as luzes são todas queimadas. As mãos sustentam o rosto, tão escasso de expressão. Os olhos, sem brilhos, giram sem nada querer encontrar. A boca faz a orquestra do bocejo sem parar. Multiplicam-se as gotas de chuva espirradas na janela.
Domingo, domingo de chuva, e ninguém pode ir ao parque, os brinquedos não funcionam, os amigos não saem juntos para brincar. O campo de futebol do bairro vira uma grande poça, as pipas lamentam nos armários, a amarelinha perde os contornos de seu desenho feito com giz. Não há risos lá fora.
No verão, a chuva vem passageira, para refrescar as brincadeiras. No inverno, como agora, ela vem com o peso do frio, cinza como metal, chumbo a cair. As paredes da sala parecem rir do castigo da natureza. Não se pode, com esse tempo, nem ter sorvete de sobremesa.
Tanto tempo se passou, e ela ainda está ali. Chuva que se desmonta e constrói o tédio em mim. Já lá no fim do dia, ela afina, como quem ainda sorri – leva a vitória do meu dia perdido. Amanhã, bem cedo, me acorda a segunda-feira, com chuva ou com sol, estarei mais distante de mim.
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