Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

A mesa tinha o formato daquela última vogal. A parte aberta do “U” ficava permanentemente lançada para o pano de projeção, ao passo em que a parte fechada, para uma lousa branca com manchas de textos escritos anteriormente cujo apagador, já carcomido, não conseguia remover. As persianas recebiam o vento pelas frestas das janelas abertas e, entre batidas e carícias, faziam o único som a ecoar naquele final de tarde.
Relógio em punho. Minutos que se esgoelam para passar. Um ponteiro, portando a velocidade cronometrada dos segundos, tentava, sem sucesso, inspirar as horas para que elas pudessem se aventurar nos intervalos de tempos sem tamanha precaução.
Pressionava minhas unhas nas palmas das mãos. Era o único instinto que afastaria a vontade de lascá-las entre os dedos. Mordia a parte externa dos lábios levemente com os dentes. Confiei na teoria de não espiar os relógios constantemente. Fracassei.
Alguns vultos continuavam a passar pelo corredor, ignorando minha presença naquele local. Passava um senhor, uma jovem de vestido largo, o porteiro daquela unidade e um homem calvo que, aposto, tentava me ver com sua visão periférica.
Não me recordo quanto tempo passei sem desistir da minha espera, naquele branco cremoso excessivo das paredes da sala. Como um creme denso que assistimos escorrer nas panelas de doces, a parede se desmontou aos poucos. Deitei naquela sala, naquela bacia terna que me engolia.
Tags: cotidiano, Líquido, Tempo 2
Dizem que existe uma vale esquecido cheio de paisagens e riquezas a nos dar. Uma casa branca de janelas azuis esperam alguém para hospedar. A renda estendida na mesa redonda da sala é agradável, bem fiada e macia. Uma jarro em curvas sustenta uma única rosa branca, nem completamente aberta nem toda fechada – assim, delicada.
A janela tem uma cortinha de tecido grosso, feita para enrolar entre argolas de madeira. Quando faz sol lá fora, deixe-a aberta que o vento visita docemente os corredores e brinca entre todos os cômodos. O céu, quando finda o dia, deixa o lilás e o azul se beijarem. E tudo isto é disfarçado pela primeira grande estrela-planeta que desponta no céu e convoca a presença da lua, em qualquer uma de suas mil e uma fases.
Diz que lá não se pode andar calçado. É que esqueceram, com o tempo, a textura das folhas secas em uma terra batida. O som natural que se faz quando a pele grossa da sola do pé – que nem por isso deixou de ser delicada – deita no manto seco. Penso que deve ser como o som do açúcar chacoalhando-se nos dentes.
Falaram para mim ontem sobre este lugar. Contaram-me em sonhos. Busco pela casa esquecida, perdida por entre rios e árvores, em cantos e chuvas que compõem uma orquestra de harmonia infinita. Vê, já nem consigo parar de ter os olhos perdidos em um lugar fixo qualquer, a abstrair e pensar naquele vale. Quem dera.
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Ainda não sei bem se a dor maior foi morrer ou descolar de meu corpo. Não apenas pelo costume de estar sempre enquanto matéria, mas pela ardência de descolar assim dela. No percurso da bala até minha testa, o que de fato não levou tanto tempo assim, vi que o clichê era real. Como um filme – ainda que com narrativa bem novelística – vi os momentos mais marcantes, honrados e vergonhosos de minha vida passarem em minha mente. Como ateu, pensei que só cabia agora aos vermes virem ao banquete, mas a surpresa foi ver que, enquanto o projétil perfurava minha máquina, um sopro de alma de mim saia.
Sentir-se não-matéria não deveria ser descrito, pois ironicamente só consigo recorrer a sensações materiais. Foi algo como uma perna dormente misturada com uma cãibra que ataca você no meio da piscina. Tem também uma pitada da dor de ouvido quando o avião aterrissa e um pouco de queimadura de gelo na pele. Na verdade, não tem nada disso, tem o fundo imaterial de cada detalhe que construí nesta vida.
Pensei em rir do clarão que se abriu. Achei pastelão demais aquela produção. Deveriam contratar alguém com conceitos estéticos mais inovadores. Prendi as risadas para não ofender o homem de roupa marrom escura e cordão na cintura que aparecera para me conduzir pelo vazio infinito.
A fila estava grande, o que me desanimou. Será que não teria outra forma mais conveniente e simples de, enfim, se desfazer da vida? Parecia que não. Horas de espera, minha ficha cadastral não era das piores. Era um rapaz simpático, dava bom dia para os porteiros, já plantei um Pau-Brasil no sete de setembro e doava minhas roupas antigas para o asilo da esquina. Apesar do cigarro e do álcool serem vistos com maus olhos.
O senhor disse que eu era muito desligado da minha vida espiritual. Mas que cargas d´água ele queria? Eu não enxerguei em momento nenhum algum sinal de divina fé no cotidiano. E julgava que dois mil anos seriam suficientes para uma boa administração renovada pelo filho ter melhorias contundentes. Enfim, não discuti com o velhinho. Perdoei. Ele não sabia o que dizia.
O moço disse, depois de tantos protocolos e autenticações, que eu precisava revigorar minha fé. Fé? Era engraçado até ouvir isso. Cansei. Lembrei da fumaça dos cigarros que eu desenhava em meus momentos introspectivos. Meu copo de cerveja, meu cotidiano, minha vida. Para mim, fechava a conta, passava a régua. Fiz a leve reclamação aos céus: por favor, me abençoem! O fim não é tragédia, é destino.
Tags: cotidiano, Fé, Paz, Tempo, Trupe de Quinta, Vida 1trupe de quinta – fé
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter.![]()
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Esqueceu de desligar a luz ao sair de casa. Só fazia isto quando o desespero a tomava. O som dos passos firmes chocava-se nas paredes, ruindo a calma e harmonia que podiam sustentar. Apertou o botão do elevador. Levou a mão até a boca. Descascou o esmalte e roeu insistentemente a mesma unha.
“Boa tarde”, desejou ao senhor que já estava no elevador. Apertou o térreo. Três, quatro passos. Parou. Ia chover. Voltou correndo pelas escadas. Seis, sete lances de escadas. Abriu a porta, irritou-se com as lâmpadas acesas. Pegou o guarda-chuva, desligou o interruptor, uma, duas voltas de chave na porta.
No térreo, os passos firmaram-se mais. Protegeu-se da chuva, caminhou pelos quarteirões. Chamou o táxi. “Parque da cidade”, disse. “Se é que ainda fazem parques nas cidades”, sussurrou para si. Notas, moedas, trocados. Sapatos encharcados.
Sozinha, entre as copas de árvores, entre as damas de ouros, chorou. Dezoito, dezenove, vinte lágrimas. Escorria tanto de si por entre o sal e a água. Perfurava tanto de si as gotas densas que já a molhavam. Afundou-se no instante. Prendeu a respiração. Três, dois, um. Voltou a respirar.
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