Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

O frasco da ampulheta

Postado em Contos e Crônicas em 25/07/2010

Foi por acaso que comecei a conversar com ele. Sentamos no mesmo banco da praça. Sentei-me ali para descansar os pés, pois tinha passado a manhã inteira na fila de um cartório para pegar a senha. Como o atendimento só começava após meio dia, ainda fiz uma caminhada pelas ruas do centro, para ver as novidades do comércio. O senhor que estava sentado ao meu lado me disse que estava ali desde cedo, ainda sentia alegria em ver o povo alimentando aqueles pombos que circulavam por ali.

A sua pele era bastante seca, enrugada pelo tempo. Tinha muitas manchas e seus pelos eram absolutamente todos brancos e poucos. Era, possivelmente, o senhor mais velho que vi em minha vida. Quando olhei bem os seus olhos, o reconheci. Ele era o senhor que os jornais citavam como o mais velho do mundo, apesar dele nunca revelar a exata idade.

“Fui esquecido pela morte”, me disse, quando me confirmou ser ele mesmo o senhor que passava as vezes na televisão. Mas há muito tempo ninguém ouviu falar dele, estava meio esquecido. Eu até mesmo tinha pensado que finalmente – desculpe a expressão, não é desejo de maldade, mas sim de lógica com a natureza humana – ele havia partido.

“Deve ser muito bom poder ter uma ampulheta infinita, penso eu”, disse ao senhor. “O senhor deve ter experiências fantásticas que só foram permitidas ao senhor, ter visto grande parte de sua família nascer, ter encontrado os mais diferentes caminhos para provar!” A minha fascinação com o tempo eterno não encontrou retorno no rosto daquele senhor. Ele continuava com o olhar fosco, sem muita atenção em mim e, possivelmente, ouvindo as impressões alheias sobre sua possível eternidade pela milésima vez. “Desculpe se lhe pareço enfadonho”, completei.

“Não, meu filho, não há nenhum erro em pensar tudo isso, aliás, é o que a maioria pensa. Mas posso lhe dizer o seguinte: não há só sorrisos nem só tristezas em nenhum momento que vivo. Vivo a cada novo dia, mas cada novo dia é uma nova limitação, a morte não vem, mas a idade não falta com suas obrigações.” Olhou, pela primeira vez ao fundo dos meus olhos. “Você tem razão, rapaz. Vi muitos familiares nascerem, mas aos poucos perdi o laço que tinha com a família, era como se eu não pertencesse mais a lugar algum. E não valeu a dor de ter que enterrar todos os de antes.”

Aos poucos, o excesso de vida parecia se configurar como um sofrimento para ele. “Não é excesso de vida, é excesso de tempo”, ele me corrigiu. “A vida só vale pelos seus encontros… um encontro meu perdido com o fim de mim mesmo me faz viver perdido nesse sem-fim de desencontrar-me.” Agradeci a atenção do senhor e me despedi. Era hora do cartório abrir. Senti-me perdido o resto do dia.

***

Notinha:

Hoje é o dia do escritor. Parabéns a todas e todos que ousam um verso no guardanapo, uma carta sincera, uma prosa de inspiração, um best-seller nas prateleiras, um nobel na cabeceira. Fuçando por aí vi que abriram um concurso de contos e crônicas sobre o homenageado do dia. Confere lá, tem que mandar o texto até o dia 31 de julho. :]

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Canta o pássaro

Postado em Contos e Crônicas em 15/05/2010

Ela estava encostada no sofá da sala. A televisão desligada – só assiste a novela das seis, mesmo achando que os finais das novelas são sempre os mesmos, sem graça alguma. No teu corpo, a marca que o médico fez para a radioterapia que começará na próxima semana. São dez sessões ao todo. Ela pergunta a data, “catorze de maio”, respondo. “Hoje eu faria sessenta e três anos de casada.”

“Faria”, assim, no passado, pois o meu avô já não está mais aqui. “Sessenta e três anos, vó?”. Ela confirma com um sorriso no rosto. “Mas, então, você casou com dezesseis anos?”. Confirma novamente, e completa: “e seu avô com trinta e oito”.

Uma diferença enorme, notável. Diferença essa que o fez partir há dezessete anos por problemas de saúde, que vieram acompanhando a velhice. Lembro que eu era menina quando recebi a ligação do interior, onde moravam, avisando da morte dele.

Eu penteava os cabelos de minha mãe, naquele mesmo canto do sofá. Era bem o dia do meu aniversário. Sete anos para comemorar. Minha mãe desligou o telefone e me contou, sem muitas cerimônias. Ele era uma pessoa lacônica, com mistérios do silêncio sempre o rodeando. Eu, a única criança que ainda brincava com ele, mas não mais que duas vezes por ano.

“O passado parece virar música, não é, minha filha?”, perguntou minha avó para mim. Foi minha vez de sorrir. No vazio silencioso da sala, parecia mesmo que alguma música teimava em cantar em nós.

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Parada Respiratória

Postado em Contos e Crônicas em 03/05/2010

Que eu me lembre, não são muitas as noites que a escuridão se esfumaça em minha frente. É algo não muito simples, também. A fumaça do cotidiano se faz quando penso que não posso mais suportar alguma solidez excessiva – e tal solidez nada mais é do que esses obstáculos que realmente fazem diferença nos nossos passos.

É neste instante que eu me descolo do sofá, que meu corpo coça em escamas, que minha mente paralisa e se refresca ao mesmo tempo, em uma sintonia de embriaguez e dormência. São fumaças mentoladas, refrescantes, quentes, de um passado que cutuca o presente e, mesmo decidido neste momento ser congelado, sabe que será peça chave de um futuro.

Esses encontros de tempo são destrutivos dentro de minha lógica cotidiana. Dentro de qualquer lógica, de qualquer cotidiano. Parece que por um instante podem me sufocar com o ar, podem me cegar com as cores, podem me tirar os movimentos por andar. Alguém corta o fio que nos dava corda.

Momentos assim são raros. Não duram mais que alguns minutos, segundos, talvez. É a impressão certeira de que o nada e o tudo se abraçam, que o tempo e a morte são vizinhos, que o amor e a ilusão brincam juntos. Em nenhuma visão saberei se me restava algo a fazer.

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Espera

Postado em Contos e Crônicas em 03/12/2009
espera

A mesa tinha o formato daquela última vogal. A parte aberta do “U” ficava permanentemente lançada para o pano de projeção, ao passo em que a parte fechada, para uma lousa branca com manchas de textos escritos anteriormente cujo apagador, já carcomido, não conseguia remover. As persianas recebiam o vento pelas frestas das janelas abertas e, entre batidas e carícias, faziam o único som a ecoar naquele final de tarde.

Relógio em punho. Minutos que se esgoelam para passar. Um ponteiro, portando a velocidade cronometrada dos segundos, tentava, sem sucesso, inspirar as horas para que elas pudessem se aventurar nos intervalos de tempos sem tamanha precaução.

Pressionava minhas unhas nas palmas das mãos. Era o único instinto que afastaria a vontade de lascá-las entre os dedos. Mordia a parte externa dos lábios levemente com os dentes. Confiei na teoria de não espiar os relógios constantemente. Fracassei.

Alguns vultos continuavam a passar pelo corredor, ignorando minha presença naquele local. Passava um senhor, uma jovem de vestido largo, o porteiro daquela unidade e um homem calvo que, aposto, tentava me ver com sua visão periférica.

Não me recordo quanto tempo passei sem desistir da minha espera, naquele branco cremoso excessivo das paredes da sala. Como um creme denso que assistimos escorrer nas panelas de doces, a parede se desmontou aos poucos. Deitei naquela sala, naquela bacia terna que me engolia.

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