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	<title>anacrônicas &#187; Tempo</title>
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		<title>O frasco da ampulheta</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Jul 2010 00:08:24 +0000</pubDate>
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Foi por acaso que comecei a conversar com ele. Sentamos no mesmo banco da praça. Sentei-me ali para descansar os pés, pois tinha passado a manhã inteira na fila de um cartório para pegar a senha. Como o atendimento só começava após meio dia, ainda fiz uma caminhada pelas ruas do centro, para ver as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/3083028"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/o-frasco-da-ampulheta.jpg" alt="" title="o frasco da ampulheta" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-669" /></a></div>
<p>Foi por acaso que comecei a conversar com ele. Sentamos no mesmo banco da praça. Sentei-me ali para descansar os pés, pois tinha passado a manhã inteira na fila de um cartório para pegar a senha. Como o atendimento só começava após meio dia, ainda fiz uma caminhada pelas ruas do centro, para ver as novidades do comércio. O senhor que estava sentado ao meu lado me disse que estava ali desde cedo, ainda sentia alegria em ver o povo alimentando aqueles pombos que circulavam por ali.</p>
<p>A sua pele era bastante seca, enrugada pelo tempo. Tinha muitas manchas e seus pelos eram absolutamente todos brancos e poucos. Era, possivelmente, o senhor mais velho que vi em minha vida. Quando olhei bem os seus olhos, o reconheci. Ele era o senhor que os jornais citavam como o mais velho do mundo, apesar dele nunca revelar a exata idade.</p>
<p>&#8220;Fui esquecido pela morte&#8221;, me disse, quando me confirmou ser ele mesmo o senhor que passava as vezes na televisão. Mas há muito tempo ninguém ouviu falar dele, estava meio esquecido. Eu até mesmo tinha pensado que finalmente &#8211; desculpe a expressão, não é desejo de maldade, mas sim de lógica com a natureza humana &#8211; ele havia partido. </p>
<p>&#8220;Deve ser muito bom poder ter uma ampulheta infinita, penso eu&#8221;, disse ao senhor. &#8220;O senhor deve ter experiências fantásticas que só foram permitidas ao senhor, ter visto grande parte de sua família nascer, ter encontrado os mais diferentes caminhos para provar!&#8221; A minha fascinação com o tempo eterno não encontrou retorno no rosto daquele senhor. Ele continuava com o olhar fosco, sem muita atenção em mim e, possivelmente, ouvindo as impressões alheias sobre sua possível eternidade pela milésima vez. &#8220;Desculpe se lhe pareço enfadonho&#8221;, completei.</p>
<p>&#8220;Não, meu filho, não há nenhum erro em pensar tudo isso, aliás, é o que a maioria pensa. Mas posso lhe dizer o seguinte: não há só sorrisos nem só tristezas em nenhum momento que vivo. Vivo a cada novo dia, mas cada novo dia é uma nova limitação, a morte não vem, mas a idade não falta com suas obrigações.&#8221; Olhou, pela primeira vez ao fundo dos meus olhos. &#8220;Você tem razão, rapaz. Vi muitos familiares nascerem, mas aos poucos perdi o laço que tinha com a família, era como se eu não pertencesse mais a lugar algum. E não valeu a dor de ter que enterrar todos os de antes.&#8221;</p>
<p>Aos poucos, o excesso de vida parecia se configurar como um sofrimento para ele. &#8220;Não é excesso de vida, é excesso de tempo&#8221;, ele me corrigiu. &#8220;A vida só vale pelos seus encontros&#8230; um encontro meu perdido com o fim de mim mesmo me faz viver perdido nesse sem-fim de desencontrar-me.&#8221; Agradeci a atenção do senhor e me despedi. Era hora do cartório abrir. Senti-me perdido o resto do dia.</p>
<p><strong>***</strong></p>
<p><strong>Notinha:</strong></p>
<p>Hoje é o dia do escritor. Parabéns a todas e todos que ousam um verso no guardanapo, uma carta sincera, uma prosa de inspiração, um best-seller nas prateleiras, um nobel na cabeceira. Fuçando por aí vi que abriram um concurso de contos e crônicas sobre o homenageado do dia. <a href="http://bloglivros.com/index.php/2010/07/05/i-concurso-cultural-bloglivros/">Confere lá</a>, tem que mandar o texto até o dia 31 de julho. :]</p>
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		<title>Canta o pássaro</title>
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		<pubDate>Sat, 15 May 2010 13:11:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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Ela estava encostada no sofá da sala. A televisão desligada &#8211; só assiste a novela das seis, mesmo achando que os finais das novelas são sempre os mesmos, sem graça alguma. No teu corpo, a marca que o médico fez para a radioterapia que começará na próxima semana. São dez sessões ao todo. Ela pergunta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/Canta-o-pássaro.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/Canta-o-pássaro.jpg" alt="" title="Canta o pássaro" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-471" /></a></div>
<p>Ela estava encostada no sofá da sala. A televisão desligada &#8211; só assiste a novela das seis, mesmo achando que os finais das novelas são sempre os mesmos, sem graça alguma. No teu corpo, a marca que o médico fez para a radioterapia que começará na próxima semana. São dez sessões ao todo. Ela pergunta a data, “catorze de maio”, respondo. “Hoje eu faria sessenta e três anos de casada.”</p>
<p>“Faria”, assim, no passado, pois o meu avô já não está mais aqui. “Sessenta e três anos, vó?”. Ela confirma com um sorriso no rosto. “Mas, então, você casou com dezesseis anos?”. Confirma novamente, e completa: “e seu avô com trinta e oito”.</p>
<p>Uma diferença enorme, notável. Diferença essa que o fez partir há dezessete anos por problemas de saúde, que vieram acompanhando a velhice. Lembro que eu era menina quando recebi a ligação do interior, onde moravam, avisando da morte dele.</p>
<p>Eu penteava os cabelos de minha mãe, naquele mesmo canto do sofá. Era bem o dia do meu aniversário. Sete anos para comemorar. Minha mãe desligou o telefone e me contou, sem muitas cerimônias. Ele era uma pessoa lacônica, com mistérios do silêncio sempre o rodeando. Eu, a única criança que ainda brincava com ele, mas não mais que duas vezes por ano.</p>
<p>“O passado parece virar música, não é, minha filha?”, perguntou minha avó para mim. Foi minha vez de sorrir. No vazio silencioso da sala, parecia mesmo que alguma música teimava em cantar em nós.</p>
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		<title>Parada Respiratória</title>
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		<pubDate>Tue, 04 May 2010 01:25:16 +0000</pubDate>
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Que eu me lembre, não são muitas as noites que a escuridão se esfumaça em minha frente. É algo não muito simples, também. A fumaça do cotidiano se faz quando penso que não posso mais suportar alguma solidez excessiva &#8211; e tal solidez nada mais é do que esses obstáculos que realmente fazem diferença nos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/parada-respiratória.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/parada-respiratória.jpg" alt="" title="parada respiratória" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-426" /></a></div>
<p>Que eu me lembre, não são muitas as noites que a escuridão se esfumaça em minha frente. É algo não muito simples, também. A fumaça do cotidiano se faz quando penso que não posso mais suportar alguma solidez excessiva &#8211; e tal solidez nada mais é do que esses obstáculos que realmente fazem diferença nos nossos passos.</p>
<p>É neste instante que eu me descolo do sofá, que meu corpo coça em escamas, que minha mente paralisa e se refresca ao mesmo tempo, em uma sintonia de embriaguez e dormência. São fumaças mentoladas, refrescantes, quentes, de um passado que cutuca o presente e, mesmo decidido neste momento ser congelado, sabe que será peça chave de um futuro.</p>
<p>Esses encontros de tempo são destrutivos dentro de minha lógica cotidiana. Dentro de qualquer lógica, de qualquer cotidiano. Parece que por um instante podem me sufocar com o ar, podem me cegar com as cores, podem me tirar os movimentos por andar. Alguém corta o fio que nos dava corda.</p>
<p>Momentos assim são raros. Não duram mais que alguns minutos, segundos, talvez. É a impressão certeira de que o nada e o tudo se abraçam, que o tempo e a morte são vizinhos, que o amor e a ilusão brincam juntos. Em nenhuma visão saberei se me restava algo a fazer.</p>
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		<title>Espera</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Dec 2009 10:31:26 +0000</pubDate>
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A mesa tinha o formato daquela última vogal. A parte aberta do “U” ficava permanentemente lançada para o pano de projeção, ao passo em que a parte fechada, para uma lousa branca com manchas de textos escritos anteriormente cujo apagador, já carcomido, não conseguia remover. As persianas recebiam o vento pelas frestas das janelas abertas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/12/espera.jpg" alt="espera" title="espera" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-327" /></div>
<p>A mesa tinha o formato daquela última vogal. A parte aberta do “U” ficava permanentemente lançada para o pano de projeção, ao passo em que a parte fechada, para uma lousa branca com manchas de textos escritos anteriormente cujo apagador, já carcomido, não conseguia remover. As persianas recebiam o vento pelas frestas das janelas abertas e, entre batidas e carícias, faziam o único som a ecoar naquele final de tarde.</p>
<p>Relógio em punho. Minutos que se esgoelam para passar. Um ponteiro, portando a velocidade cronometrada dos segundos, tentava, sem sucesso, inspirar as horas para que elas pudessem se aventurar nos intervalos de tempos sem tamanha precaução. </p>
<p>Pressionava minhas unhas nas palmas das mãos. Era o único instinto que afastaria a vontade de lascá-las entre os dedos. Mordia a parte externa dos lábios levemente com os dentes. Confiei na teoria de não espiar os relógios constantemente. Fracassei.</p>
<p>Alguns vultos continuavam a passar pelo corredor, ignorando minha presença naquele local. Passava um senhor, uma jovem de vestido largo, o porteiro daquela unidade e um homem calvo que, aposto, tentava me ver com sua visão periférica.</p>
<p>Não me recordo quanto tempo passei sem desistir da minha espera, naquele branco cremoso excessivo das paredes da sala. Como um creme denso que assistimos escorrer nas panelas de doces, a parede se desmontou aos poucos. Deitei naquela sala, naquela bacia terna que me engolia.</p>
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		<title>Deita aqui</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 00:51:30 +0000</pubDate>
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Dizem que existe uma vale esquecido cheio de paisagens e riquezas a nos dar. Uma casa branca de janelas azuis esperam alguém para hospedar. A renda estendida na mesa redonda da sala é agradável, bem fiada e macia. Uma jarro em curvas sustenta uma única rosa branca, nem completamente aberta nem toda fechada – assim, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/10/Vale.jpg" alt="Deita aqui" title="Deita aqui" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-257" /></div>
<p>Dizem que existe uma vale esquecido cheio de paisagens e riquezas a nos dar. Uma casa branca de janelas azuis esperam alguém para hospedar. A renda estendida na mesa redonda da sala é agradável, bem fiada e macia. Uma jarro em curvas sustenta uma única rosa branca, nem completamente aberta nem toda fechada – assim, delicada.</p>
<p>A janela tem uma cortinha de tecido grosso, feita para enrolar entre argolas de madeira. Quando faz sol lá fora, deixe-a aberta que o vento visita docemente os corredores e brinca entre todos os cômodos. O céu, quando finda o dia, deixa o lilás e o azul se beijarem. E tudo isto é disfarçado pela primeira grande estrela-planeta que desponta no céu e convoca a presença da lua, em qualquer uma de suas mil e uma fases.</p>
<p>Diz que lá não se pode andar calçado. É que esqueceram, com o tempo, a textura das folhas secas em uma terra batida. O som natural que se faz quando a pele grossa da sola do pé – que nem por isso deixou de ser delicada – deita no manto seco. Penso que deve ser como o som do açúcar chacoalhando-se nos dentes. </p>
<p>Falaram para mim ontem sobre este lugar. Contaram-me em sonhos. Busco pela casa esquecida, perdida por entre rios e árvores, em cantos e chuvas que compõem uma orquestra de harmonia infinita. Vê, já nem consigo parar de ter os olhos perdidos em um lugar fixo qualquer, a abstrair e pensar naquele vale. Quem dera.</p>
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		<title>Ontem</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Oct 2009 15:00:18 +0000</pubDate>
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Ainda não sei bem se a dor maior foi morrer ou descolar de meu corpo. Não apenas pelo costume de estar sempre enquanto matéria, mas pela ardência de descolar assim dela. No percurso da bala até minha testa, o que de fato não levou tanto tempo assim, vi que o clichê era real. Como um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/10/ontem.jpg" alt="Ontem" title="Ontem" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-236" /></div>
<p>Ainda não sei bem se a dor maior foi morrer ou descolar de meu corpo. Não apenas pelo costume de estar sempre enquanto matéria, mas pela ardência de descolar assim dela. No percurso da bala até minha testa, o que de fato não levou tanto tempo assim, vi que o clichê era real. Como um filme – ainda que com narrativa bem novelística – vi os momentos mais marcantes, honrados e vergonhosos de minha vida passarem em minha mente. Como ateu, pensei que só cabia agora aos vermes virem ao banquete, mas a surpresa foi ver que, enquanto o projétil perfurava minha máquina, um sopro de alma de mim saia.</p>
<p>Sentir-se não-matéria não deveria ser descrito, pois ironicamente só consigo recorrer a sensações materiais. Foi algo como uma perna dormente misturada com uma cãibra que ataca você no meio da piscina. Tem também uma pitada da dor de ouvido quando o avião aterrissa e um pouco de queimadura de gelo na pele. Na verdade, não tem nada disso, tem o fundo imaterial de cada detalhe que construí nesta vida.</p>
<p>Pensei em rir do clarão que se abriu. Achei pastelão demais aquela produção. Deveriam contratar alguém com conceitos estéticos mais inovadores. Prendi as risadas para não ofender o homem de roupa marrom escura e cordão na cintura que aparecera para me conduzir pelo vazio infinito.</p>
<p>A fila estava grande, o que me desanimou. Será que não teria outra forma mais conveniente e simples de, enfim, se desfazer da vida? Parecia que não. Horas de espera, minha ficha cadastral não era das piores. Era um rapaz simpático, dava bom dia para os porteiros, já plantei um Pau-Brasil no sete de setembro e doava minhas roupas antigas para o asilo da esquina. Apesar do cigarro e do álcool serem vistos com maus olhos.</p>
<p>O senhor disse que eu era muito desligado da minha vida espiritual. Mas que cargas d´água ele queria? Eu não enxerguei em momento nenhum algum sinal de divina fé no cotidiano. E julgava que dois mil anos seriam suficientes para uma boa administração renovada pelo filho ter melhorias contundentes. Enfim, não discuti com o velhinho. Perdoei. Ele não sabia o que dizia.</p>
<p>O moço disse, depois de tantos protocolos e autenticações, que eu precisava revigorar minha fé. Fé? Era engraçado até ouvir isso. Cansei. Lembrei da fumaça dos cigarros que eu desenhava em meus momentos introspectivos. Meu copo de cerveja, meu cotidiano, minha vida. Para mim, fechava a conta, passava a régua. Fiz a leve reclamação aos céus: por favor, me abençoem! O fim não é tragédia, é destino. </p>
<blockquote><p><strong>trupe de quinta &#8211; fé</strong><br />
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no <a href="http://www.twitter.com/trupedequinta">twitter</a>. <img src='http://anacronicas.com.br/blog/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><a href="http://amandaoliveira.wordpress.com/">amanda oliveira</a> • <a href="http://eu-quero-saber.blogspot.com/">andré pacheco</a> • <a href="http://www.flickr.com/photos/belpompermayer">izabel pompermayer</a> • <a href="http://laramarx.wordpress.com">lara marx</a> • <a href="http://elementarmeucaroblog.wordpress.com/">nati boaventura</a> • <a href="http://www.diarioinbordo.blogspot.com/">rafael glass</a> • <a href="http://faixademobius.blogspot.com">rodrigo casales</a> • <a href="http://naoestasendofacil.wordpress.com ">victor godoi</a></p></blockquote>
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		<title>Ela</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Sep 2009 20:12:54 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[
Esqueceu de desligar a luz ao sair de casa. Só fazia isto quando o desespero a tomava. O som dos passos firmes chocava-se nas paredes, ruindo a calma e harmonia que podiam sustentar. Apertou o botão do elevador. Levou a mão até a boca. Descascou o esmalte e roeu insistentemente a mesma unha.
“Boa tarde”, desejou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/09/Maos.jpg" alt="Ela" title="Ela" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-208" /></div>
<p>Esqueceu de desligar a luz ao sair de casa. Só fazia isto quando o desespero a tomava. O som dos passos firmes chocava-se nas paredes, ruindo a calma e harmonia que podiam sustentar. Apertou o botão do elevador. Levou a mão até a boca. Descascou o esmalte e roeu insistentemente a mesma unha.</p>
<p>“Boa tarde”, desejou ao senhor que já estava no elevador. Apertou o térreo. Três, quatro passos. Parou. Ia chover. Voltou correndo pelas escadas. Seis, sete lances de escadas. Abriu a porta, irritou-se com as lâmpadas acesas. Pegou o guarda-chuva, desligou o interruptor, uma, duas voltas de chave na porta.</p>
<p>No térreo, os passos firmaram-se mais. Protegeu-se da chuva, caminhou pelos quarteirões. Chamou o táxi. “Parque da cidade”, disse. “Se é que ainda fazem parques nas cidades”, sussurrou para si. Notas, moedas, trocados. Sapatos encharcados.</p>
<p>Sozinha, entre as copas de árvores, entre as damas de ouros, chorou. Dezoito, dezenove, vinte lágrimas. Escorria tanto de si por entre o sal e a água. Perfurava tanto de si as gotas densas que já a molhavam. Afundou-se no instante. Prendeu a respiração. Três, dois, um. Voltou a respirar.</p>
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		<title>Minha sinestesia</title>
		<link>http://anacronicas.com.br/blog/2009/09/minha-sinestesia/</link>
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		<pubDate>Wed, 16 Sep 2009 00:46:53 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[
Derramei o café quente em minha blusa. O estalo de nervoso da boca foi interrompido quando percebi que, ao me chocar com aquele apressado transeunte, as pessoas se congelaram. Estavam todas, absolutamente todas, paralisadas. Pensei que havia morrido, delirado, encharcado-me em coma.
As cores perderam firmeza. Ou meus olhos já não mais respondiam com seriedade ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/09/49ed0b1b5db0e27578522ef7c0181e51.jpg" alt="Minha sinestesia" title="Minha sinestesia" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-167" /></div>
<p>Derramei o café quente em minha blusa. O estalo de nervoso da boca foi interrompido quando percebi que, ao me chocar com aquele apressado transeunte, as pessoas se congelaram. Estavam todas, absolutamente todas, paralisadas. Pensei que havia morrido, delirado, encharcado-me em coma.</p>
<p>As cores perderam firmeza. Ou meus olhos já não mais respondiam com seriedade ao que enxergava. Eram ondas de azul, magenta e verde perpassando pelos corpos, árvores, papéis, flores. Intensos golpes de nitidez e brilhos, de opacidade e sombras.</p>
<p>Os passos pareciam demorar anos para serem completados, ao mesmo tempo que tudo aquilo cabia em poucos segundos. Onde passava minha mão, as formas ficavam esfumaçadas. Os contornos se perdiam. Tocava com os dedos para mudar a textura. Também conseguia remoldar o que bem quisesse.</p>
<p>Descobri que se encostasse bem a ponta do nariz em tudo, novos cheiros iria sentir. Onde será que eu poderia ouvir os mais belos sons? Senti falta de uma melodia. O mundo inteiro estava ali, uma verdadeira diversão, tudo era giz-de-cera, massas de modelar, lápis coloridos. Era assim eternizado meu sorriso.</p>
<p>Mais um passo desta eternidade – e o mundo rebobinou. O café voltou a me queimar. E tudo voltou a rodar.</p>
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		<title>Oblíquio-obtusado</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Aug 2009 02:15:23 +0000</pubDate>
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“A maior prova que existe vida inteligente em outros planetas é eles ainda não terem feito contato.”
Extraído da peça Cabaret das Utopias
Acordo em um horário não muito apropriado para tomar um café não muito cafeinado. Escuto uma música mal arranjada, dou sorrisos para a vizinha mal arrumada. Desço as escadas não muito bem limpadas, reclamo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/08/a-esquina.jpg" alt="Obtuso" title="Oblíquio-obtusado" width="510" height="240" class="aligncenter size-full wp-image-111" /></div>
<p></p>
<blockquote><p>“A maior prova que existe vida inteligente em outros planetas é eles ainda não terem feito contato.”<br />
Extraído da peça Cabaret das Utopias</p></blockquote>
<p>Acordo em um horário não muito apropriado para tomar um café não muito cafeinado. Escuto uma música mal arranjada, dou sorrisos para a vizinha mal arrumada. Desço as escadas não muito bem limpadas, reclamo do elevador nunca consertado. Atravesso a rua bem mal humorado, aperto todas as quinas do meu rosto quadrado.</p>
<p>Compro o pão da promoção – está semi-mofado. Frito um ovo e coloco sal, assim estará temperado. Canso das rimas dos meus pensamentos, sempre tão equivocados. Hesito, erro, tropeço – eis mais um novo predicado.</p>
<p>Sinto um prego atravessando a sola do meu sapato. Não levarei ao sapateiro, que me cobrará bons trocados. Olho o céu apenas uma vez, dele já estou farto. O seu cinza não me comove nem aos novos namorados.</p>
<p>E passa o tempo do meu dia, assim todo ritmado. Sem graça e sem poesia, é tudo encenado. Quando a noite entra, penso que é a hora adequada, para pedir ao homem da nave me fazer um alienado.</p>
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		<title>Homem-Peixe</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 19:36:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
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Passei três horas olhando fixamente para aquela aberração e não iria sair dali sem a devida anotação. Era muito interessante a exatidão das ciências, a métrica dos números, a certeza das equações. E olhar para aquela rolha dentro da garrafa me provocava náuseas. Pelo vidro, não conseguia ver se havia uma pequena parte da rolha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/08/homempeixe.jpg" alt="Homem-Peixe" title="Homem-Peixe" width="510" height="240" class="aligncenter size-full wp-image-106" /></div>
<p>Passei três horas olhando fixamente para aquela aberração e não iria sair dali sem a devida anotação. Era muito interessante a exatidão das ciências, a métrica dos números, a certeza das equações. E olhar para aquela rolha dentro da garrafa me provocava náuseas. Pelo vidro, não conseguia ver se havia uma pequena parte da rolha banhada na água ou se era apenas um golpe de vista dos reflexos, dos côncavos, dos retos, dos convexos.</p>
<p>Eu não tinha mais controle sobre isso. Antes tinha, sabia informar através do nível do líquido se aquela bendita rolha estaria encharcada, úmida, seca, lavada. Já não mais. Que tormenta.</p>
<p>Meus músculos se remexiam naquela agonia e meu suor já descia pelas linhas de meu corpo. A minha testa já estava toda grampeada em pedaços de pele, agora semelhante a uma colcha dobrada no sofá. Quanto tempo mais poderia suportar?</p>
<p>Continuaria a minha observação. Nenhum barulho pela vizinhança me atrapalhava. Talvez fosse mesmo este silêncio que me cobrava, me criticava e me extorquia os últimos pedaços de confiança que tinha nas suposições criadas na mente. Agora, todas estavam apagadas.</p>
<p>Sinto a solidez do banco preto em que me encontro desde esta manhã. Não é muito confortável. Vejo bem pela lente do copo. Vejo bem a cor do vidro. Percebo até mesmo o cheiro daquela rolha, entre o seco e o molhado. Afundo as minhas desconfianças em pensamentos.</p>
<p>Sinto-me perdido. Homem-peixe. Peixe-homem. Onde afogaram toda a minha razão?</p>
<p>* A imagem é um fragmento de um fotografia de <a href="http://www.elenakalisphoto.com/">Elena Kalis</a>.</p>
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