Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Cada gota de suor que saia da minha nuca escorrendo pelas minhas costas se esfriavam rapidamente. Eram leves e tenras, sempre arranhando o leito de suas corridas. Quando percebi que estava mais fria do que o normal, senti que minha visão entrava em um destino turvo, sem saber distinguir as realidades dos sonhos, as exatidões dos incompreensíveis.
Um lapso do meu tempo foi esquecido. Fui escorada em ombros de quem nem me recordo o nome. Sentada na cadeira do ônibus, aguardei seu esvaziamento. Meus braços estavam imóveis, imersos em cãibras que me agoniavam e me deixavam mais afastadas do meu cotidiano. O desespero batia firme em meu coração, que poderia a qualquer instante ver um sopro se tornar um furacão.
Com o pisca-alerta ligado e com a mão intensamente na buzina, o ônibus desgovernou-se da lógica diária para ir rumo ao hospital mais próximo. Consegui mexer meus dedos, consegui eu mesma tomar água e secar minhas lágrimas com as mãos.
A cadeira do hospital me guiou por instantes pelas ruas e corredores. Atendimento, senha número 53. É tarde, há tarefas lá fora. Consultório, previsão de 381 minutos. É muito, há vida lá fora. Guardei aquele pedaço dentro de meu suor, da aflição comum e silenciosa que nos ronda diariamente. Afoguei aqueles instantes como quem não percebe o último gole de água.
Tags: cotidiano, Desespero, Líquido, São Paulo, Trupe de Quinta 3trupe de quinta – afogamento
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Fibras claras que se enlaçam. Superfície. Risco rápido que não machuca. Suporte. Canto alto que não se escuta. Música. Todos dias revirados. Passado. Se em mais de uma grampeadas. Relatos. E um dia que não lhe usam. Ofusca.
Rasga o verso de desespero que acordou engasgado. Desperte na poesia apenas as rimas descompassadas. Quem iria se importar com a ordem planificada? Sem hierarquias e prontidões, reina a vontade instantânea daqueles que não encontram diversões – nem na liberdade nem na privação.
Quebra linha, quebra lápis, quebra página. Quebra o vidro e a vidraça. Quebra os anjos, os santos, o altar. Quebra as profecias e as profanadas, as previsões e as datas erradas, as desilusões, as soluções e as gargalhadas. Quebra também o sujeito e o predicado, a exclamação, o particípio e o verbo desconjugado.
Tags: Liberdade, Palavras, Trupe de Quinta 3trupe de quinta – verbo
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Desfiou minha córnea suavemente. Era uma dança que a pinça fazia ao beliscar aquela fina película que envolvia meu olho direito. Sentia um asco quando o rapaz levantava rapidamente o lábio superior quando conseguia descamar mais um pedaço da minha córnea. Um feixe de sombra invadia impacientemente minha visão.
Na íris, injetou três gotas de ácido. Ela petrificou-se. Ardia um pouco, incomodava a sensação de sentir as suas bordas queimadas pela química. Novamente, uma pinça – agora retirando a minha pedra-íris de mim.
Ao fundo do meu globo ocular, encontrou minha retina. Perguntou se eu tinha certeza que ele poderia arrancá-la de mim. “Imediatamente”, respondi. E, em uma fração de segundo, ele a sugou. Não havia mais remédio para a falta de imagens que me encharcava.
“Continua?”. “Sim, exatamente como lhe pedi”, afirmei. Fazia três anos já que esperava aquele dia. Em uma solução perfeita, um colírio de almas secaria meus olhos das barbáries respiradas lá fora.
Tags: Desespero, Excêntrico, Humano, Trupe de Quinta 3trupe de quinta – colírio
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Para curar minha atiquifobia, responsável por este meu ar lânguido cotidiano, frequentava o mesmo médico há cinco anos. As cápsulas lacradas em um vaso eram consumidas diariamente. Eram falsetes rubicundos para conter o meu desespero triunfador.
Meu comportamento era mais assustador que o de um extremófilo, que nada pela manhã no sulfato e se cobre à noite com enxofre – amanhece incólume pronto a descamar-se nas mais corrosivas químicas.
Soturno – este era o ar da tarde no escritório do doutor. Conseguia ouvir uma canção lúgubre ao fundo. Minha atiquifobia se manifestava. Ele não ia me curar. Ele precisava me curar. Eu temo não conseguir isto superar.
Entrou no consultório. Olhei com olhos de tormenta para suas mãos. Ele me ofereceu uma flor de alcachofra.
Tags: Excêntrico, Trupe de Quinta 2trupe de quinta – alcachofras
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