Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Pleno vazio ou 11 minutos de perguntas sem fim

Postado em Contos e Crônicas em 08/05/2010

Ensinaram-me que os lápis de cor ficam dentro de uma caixa e que devem ser enfileirados de acordo com a tonalidade. Ensinaram-me também que os meninos são proibidos de usar saia, a não em uma país distante que eu possivelmente nunca visitarei. Ensinaram ainda que para me casar eu teria que usar um vestido branco e subir no altar da igreja.

Ensinaram-me que Plutão é o último planeta do nosso sistema. Depois ensinaram que ele nem planeta era. Ensinaram-me que o céu é azul por causa do oxigênio. Outros me disseram que era por causa do reflexo do mar – ou será que foi ao contrário?

Ensinaram-me que existem quatro estações. Que as flores se abrem na primavera e que se fecham no verão. Ensinaram-me que todo mundo um dia divide seu coração. E todo mundo um dia também chora de decepção. Que nunca a vida é tão bela, mas jamais também tão amarga.

Guardei em cada ensinamento uma interrogação. E cada interrogação, guardei um um pote vazio. Agora, assim, cheia desses potes vazios em mim, quase sufocada, mal consigo me mover. Alguém, por favor, me ensina como eu posso me mover?

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Traçado

Postado em Contos e Crônicas em 28/10/2009
Traçado

Teclas, travas e traçados. Todos enfileirados. Nossa linha de montagem, nossa falta de vontade, nossa coluna é uma engrenagem. Senta, levanta, pisa e chora. Uma janela sem aurora, uma novela sem demora, uma primavera sem amoras.

Este ritmo obsoleto que pulsa novo dentro de mim. Caminho com minério na veia e sem desejos por nada abstrair. Se de vidro, ou de plástico – tanto faz, transparece. A água que vem sem sais de longe me emudece – resta algo dentro das curvas, um suspiro na carne crua. O destino é uma mulher semi-nua.

Caso, laço, caos, acaso… A fita desenrola sem descolar o ontem do amanhã. O hoje é lenda contada para as crianças todas manhãs. Tamanha seja a ordem que gritar o imperador – proclamem a verdade como a mentira sã.

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Na garganta

Postado em Contos e Crônicas em 03/09/2009
Na garganta

Eu tinha que sair daquela cidade. O ar era muito carregado e a poluição fazia com que eu tivesse fortes crises de tosses. Não, as tosses não me incomodam. O que me deixa angustiada são as rolhas. Sim, é que cada vez que eu tossia, uma rolha crespa atravessava minha garganta e eu a cuspia. O ardor dela arranhando meu tudo digestivo também não me feria, mas era muito insuportável ver que as pessoas se aterrorizavam pelo simples fato de eu expelir uma mísera rolha de cortiça quando tossia.

Não era convencional, bem sei. Mas também nem era tão raro assim. Um tio do primo do irmão de um amigo da minha sobrinha tinha o mesmo mal, se não me engano. E a filha da cozinheira da patroa do vizinho do andar de cima da minha costureira tinha algo ainda mais vergonhoso, penso eu – cada tosse significava um bolha de sabão. O pior que era sabão de má qualidade, amargava mais a boca e tinha mais produtos químicos de baixa qualidade. Não tinha absolutamente nenhum glamour.

Quando o ar ficava carregado, chegava a extrair umas quinze rolhas por dia. Meu recorde foi completar mais de cinco dezenas em um dia. Coleciono as rolhas, escrevo a data da tosse e o horário. Não é para trazer sorte, pois não acredito nessas crendices. É apenas uma mania, como todo mundo tem.

Quando as rolhas completam um ano, jogo fora. Sinto uma certa melancolia, uma saudade daquela cor marrom e bege, que se misturam naquele cilindro tão clássico.

Uso um lenço, sempre um lenço para envolver minha boca no soluço. Mas não é suficiente. Eles percebem. E quando eles me olham, me acusam. E quando me acusam, me entristecem. E minhas rolhas deixam de ser parte de mim e me serram em pedaços.

Hoje, já tossi doze. Amanhã, segundo a previsão de tempo, devo tossir catorze. Eles me olham, eles não gostam, eles me desafiam com tanta repressão calada escancarada. E, pior, eles também tossem. Tossem o tempo todo a tosse. Tossem apenas a tosse. E não se envergonham de tão nefasto gesto.

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