Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Sofro de um efeito oposto ao desejado pelas propagandas. Simples: se uma caixa de bombons tem a frase “o melhor da sua vida” estampada, não dou o mínimo de credibilidade. Assim acontece com todos demais produtos. Acho que é como uma antipatia por pessoas que cantam vitória transferida para o mundo das mercadorias. Talvez eu esteja personalizando demais os pobres doces de cacau, mas é inevitável.
Minha condenação a essas frases topetudas sempre teve suas exceções. Meu namorado, quando voltou de viagem, trouxe um livro lindo de poesia cujo título (veja bem, é o título, não é uma frase solta no livro!) é: “as mais belas páginas da poesia francesa”. Chego torcer o nariz para esses títulos. Sinto arder a presunção dele em minhas mãos. Mas a surpresa de folheá-lo e ver a seleção, a organização, o cuidado da edição, me fez realmente acreditar que aquelas poderiam ser, de fato, as mais belas páginas.
A vez mais recente que a repulsa não funcionou foi na livraria. Fui por causa de um Saramago (nunca vi uma frase dessas em nenhum dos livros dele, amém), mas achei um livro lindo, com uma capa chamativa e um título atraente: “Os Excluídos”, de Yiyun Li. Confesso que segurei por alguns segundo o livro na indecisão de levá-lo por causa da maldita frase impressa ali embaixo da capa: “um dos maiores romances do ano segundo o The New York Times”. Congelei por um instante. Virei o livro e mais frases descreviam as sensações e cenário do livro.
O livro tem a história da China como pano de fundo. Mais especificamente, a Revolução Cultural, quando Mao Tsé-Tung já havia morrido. Dito isto e dito que o livro é aplaudido pelo NY Times, The Observer, The Washing Post, Times e companhia, sabia que a receita seria a condenação de uma contrarrevolucionária e as contradições de tal revolução no país. Óbvio!
Mas não tão óbvio é a leitura do livro. Comecei achando que não ia deslanchar, mas os elos são criados de forma perspicaz, aos poucos você se sente preso na trama. Ia me surpreendendo com as possibilidades da estória a todo instante. Descobri que a autora estava na lista dos escritores com menos de quarenta anos em destaque por uma dessas mil listas que fazem pelos jornais afora. Se é um dos maiores romances do ano, não sei. Mas vale a leitura.
Tags: Livros, Os excluídos, Yiyun Li 3